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Três grupos organizam os atos anti-Dilma, em meio a divergências

Com ideologias diferentes, organizadores articulam marcha apoiada por milhares nas redes sociais. Há os que defendem o impeachment da presidenta Dilma e os que não

Manifestantes na praia de Copacabana, no Rio. Fotos Públicas

Apesar de terem uma motivação comum, o descontentamento com o Governo Dilma Rousseff e o PT, os três organizadores dos atos que ocorrem neste domingo no país seriam incapazes de tomar umas cervejas no bar sem mergulharem em uma discussão política sobre seus pontos divergentes.

Em São Paulo, os protestos, inclusive, partirão de três pontos distintos na avenida Paulista, a uma distância simbólica de um quilômetro para separar suas ideologias. Cada um terá seu carro de som próprio.

Além de São Paulo, estão programados atos em cerca de 200 cidades. Conheça abaixo o que pensa cada um dos movimentos.

Os anti-impeachment 

Identificados com o mundo empresarial e financeiro, a cúpula do movimento Vem pra Rua, criado em setembro de 2013, se resume a cerca de 20 pessoas, embora os apoiadores no Facebook já passem de 300.000.

O Vem pra Rua responde

1. Por que pede o impeachment?

Nos não somos a favor do impeachment hoje. É um processo político penal e nós ainda não temos evidências jurídicas que possam viabilizar o processo. Mas este posicionamento pode mudar a qualquer momento.

2. Qual é o partido que melhor se identifica com seu movimento?

Nenhum partido, nós somos supra partidários. Se nós nos ligarmos a qualquer partido não mais poderemos criticá-los ou monitorá-los. Começaram a fazer conexões com o PSDB que não fazem sentido, nenhum político receberá nosso microfone.

3. Qual é o maior problema do Brasil?

O total desrespeito ao cidadão brasileiro a traves da impunidade e do populismo que encontramos no país.

4. Os protestos buscam desestabilizar o Governo ou derrubá-lo?

Nenhum dos dois para nós. O objetivo do Vem Pra Rua é mobilizar a população e dar um palco à indignação das pessoas para que o Governo passe a respeitar a vontade do povo, que já é claramente contrário às atuais práticas de corrupção, falta de ética e impunidade.

5. Apoia a intervenção militar?

Não.

6. É a favor da privatização de empresas públicas como a Petrobras? Por que?

Depende. Com relação a Petrobras somos a favor da estatização porque hoje está em mãos de corruptos que roubam o dinheiro das pessoas. O resto, cada caso é um caso, não podemos generalizar.

7. Quem financia vocês?

Somos totalmente financiados por membros e amigos. Não recebemos financiamento nem de partidos ou empresas, nem instituições.

Os mais moderados ideologicamente entre os organizadores dos atos de domingo são os únicos a se posicionar contra o impeachment da presidenta. “A maioria dos brasileiros que está indo para as ruas não conhece as peculiaridades do processo, mas usa o impeachment como um pedido de “basta” para que o Governo pare de sangrar os recursos do país. Esse pedido de “basta” se identifica com o movimento, desde sua origem”, explica Rogério Chequer, consultor de 46 anos e o rosto da organização.

Esse “basta” ecoou esses dias nas redes sociais em boca de atores da Globo: Caio Castro, Malvino Salvador, Marcelo Serrado, Alessandra Maestrini apoiaram publicamente os protestos. A cantora Wanessa Camargo e o ex-jogador Ronaldo confirmaram sua presença no ato de São Paulo. “Amigos de amigos nos ajudaram com esses vídeos, nada foi pago, nem imposto”, esclarece Chequer que, assim como seus colaboradores, usa uma ampla variedade de termos e frases em inglês para explicar suas ideias.

Desde os protestos pós-eleições que chegaram a reunir até 10.000 pessoas, os integrantes do movimento Vem Pra Rua foram identificados como apoiadores do PSDB – José Serra chegou a discursar no carro de som da organização – mas eles negam. O partido conclamou nesta semana seus filiados e apoiadores a participarem do protesto. “Nos acusam de ser aparelhados ao PSDB, mas é mentira. Nenhum político receberá nosso microfone nos atos”, garante Chequer. Naquela época de colaboração, os organizadores do Vem Para Rua apenas tentavam abaixar o tom mais beligerante e ofensivo dos jovens parceiros do movimento Brasil Livre contra o Governo, hoje se defendem dos ataques públicos dos jovens que os acusam de "coxinhas" e "tucanos".

O Vem Pra Rua defende que o Estado “dê igualdade de oportunidade para todos” e recusa se identificar com alguma ideologia. “Acreditamos que o Estado deve oferecer uma excelente educação básica até os 17 anos, mas, a partir daí, acreditamos na meritocracia”, diz Chequer. Apesar da geração e as diferenças ideológicas que os separam, o Vem Pra Rua concorda com os jovens do Movimento Brasil Livre na necessidade de diminuir o peso do Estado. “O Estado tem que oferecer segurança, infraestrutura e saúde para todos e só. A intervenção dele na sociedade deve diminuir.”

A estética hipster

O MBL responde

1. Por que pede o impeachment?

Primeira razão, estelionato eleitoral: Dilma não cumpriu nenhuma de suas promessas da campanha. Além disso, articula uma anistia para as empresas envolvidas no Petrolão, incidindo em crime de responsabilidade. Mas a principal razão é a destruição da República. o caso do Petrolão não foi nada menos do que a submissão do Legislativo ao Executivo, ou seja, o fim da separação dos poderes.

2. Qual é o partido que melhor se identifica com seu movimento?

Nenhum partido se identifica com o nosso movimento. Nosso movimento defende a República e o liberalismo econômico, e, atualmente, não existe nenhum partido liberal no Brasil.

3. Qual é o maior problema do Brasil?

O maior problema do Brasil é o totalitarismo. O PT já foi julgado e condenado pelo Mensalão, que se tratava de um escândalo de corrupção extremamente similar ao Petrolão. Isso sem falar do caso de vandalismo no grupo Abril e a tentativa da regulação econômica da mídia, num Estado que cobra mais de 35% em impostos de sua população.

4. Os protestos buscam desestabilizar o Governo ou derrubá-lo?

Desestabilizado o Governo já está. O Brasil já foi colocado num desastre político-econômico pelo Partido dos Trabalhadores, não precisa da ajuda de um movimento popular como o MBL.

5. Apoia a intervenção militar?

Somos contra qualquer tipo de ditadura, seja a que o Brasil vivenciou de 1964 até 1985, seja a Cubana, a norte-coreana ou qualquer outra. O Movimento Brasil Livre defende a República e só atua dentro do campo democrático.

6. É a favor da privatização de empresas públicas como a Petrobras? Por que?

Sim. O escândalo do Petrolão só foi possível porque a Petrobras é uma empresa estatal. Quando uma empresa privada dá lucro, ela cresce e gera mais empregos, quando dá prejuízo, ela vai à falência e quem toma o prejuízo são os empresários. Já quando uma empresa estatal dá lucro, quem embolsa são os burocratas, e quando dá prejuízo, o povo é quem paga a conta. Isso sem falar que quando a gestão é feita pelo Estado ela é notadamente menos eficiente.

7. Quem financia vocês?

Pedimos doações em nosso site e em nossa página, apesar disso, não conseguimos juntar dinheiro o suficiente para a maioria dos eventos, portanto, temos que tirar do nosso próprio bolso.

Com cerca de 500 lideranças e presença em 11 Estados, o Movimento Brasil Livre (MBL) se consolida como um dos principais impulsores das manifestações anti-Dilma desde o ano passado. A meia dúzia de idealizadores de São Paulo é mais nova do que a maioria dos participantes das suas marchas e sua estética hipster bem poderia confundi-los com defensores de uma ideologia moderna e progressista, mas é tudo uma ilusão: eles são liberais e conservadores, defendem a privatização de serviços básicos como a educação e a saúde e a diminuição do peso do Estado na sociedade.

O movimento acabou de ser acusado pela revista Fórum de crescer graças ao patrocínio dos magnatas da petroleira norte-americana Koch Industries, com supostos interesses na desestabilização da Petrobras. Eles negam: “Quem dera. Ficaríamos felizes de receber ajuda de milionários. É super legítimo ter financiamento privado, mas por enquanto nossa maior patrocinadora é uma mulher do Paraná que nos depositou 1.000 reais”, rebate Renan Santos, de 31 anos, o mais velho do grupo.

O movimento, porém, se nutre de mais colaboradores. Fabio Ostermann, por exemplo, é sócio do Instituto de Estudos Empresariais e diretor do Instituto Liberal, presidido por Rodrigo Constantino, colunista da revista Veja e membro-fundador do liberal Instituto Milenium (IMIL), apoiado por grandes grupos empresariais brasileiros e meios de comunicação e associado a outros think thanks internacionais.

No ano passado, o grupo organizou três multitudinárias manifestações contra Dilma Rousseff e o PT em São Paulo com ecos em outras cidades, mas não defendia o impeachment como vai exigir neste domingo: “No ano passado não era politicamente adequado defendê-lo, mas virou o ano e veio o parecer do jurista Ives Gandra Martins que afirmou que havia fundamentação para exigir a saída de Dilma. Ela cometeu um crime de improbidade administrativa é uma presidenta que com amplos poderes teve ciência de tudo e não fez nada”, defende Santos.

Apesar do discurso impiedoso contra o Governo, o maior partido da oposição não pode contar com a simpatia destes jovens. Segundo eles, ainda não há partido que os represente, e muito menos o PSDB. “A corrupção não se combate trocando o poder de mãos e sim tirando ele dos políticos. O jeito é diminuir o Estado.”

Os revoltados que mudaram o discurso

O grupo Revoltados On Line conta com a coordenação de cerca de 20 pessoas e foi formado pelas redes sociais. Eles se dizem contrários à corrupção e pedem o impeachment de Dilma Rousseff.

Os Revoltados respondem

O grupo não respondeu aos questionamentos feitos pelo EL PAÍS

Em sua página no Facebook, que tem quase 700.000 curtidas, o grupo divulga vídeos de protesto, em que dizem querer “banir o petismo e o bolivarianismo no país”. Em uma das filmagens, Marcello Reis, fundador do grupo, afirma: “Dima Rousseff odeia o Brasil, é uma terrorista que infelizmente está no poder nesse país”. Eles também compartilham supostas denúncias contra o PT, como uma em que o partido estaria manipulando e censurando as redes sociais. Quando surgiram, eles defendiam que apenas a intervenção militar daria jeito no país, mas a afirmação acabou sendo alvo de críticas. Agora, parte do grupo diz acreditar que o militar Jair Bolsonaro, conhecido por discursos polêmicos contra homossexuais e em prol da redução da maioridade penal, seria o mandatário ideal.

No Facebook, o grupo vende kits anti-Dilma, com uma camiseta polo preta, um boné e cinco adesivos. Eles custam entre 175 e 195 reais. Só a camiseta, que leva os dizerem “Deus, Família e Liberdade”, sai por 99 reais, sem o frete. Os preços são altos, segundo eles, porque o material usado é importado. Eles afirmam que o dinheiro arrecadado serve para pagar os custos com a estrutura usada nos atos, como os caminhões de som, que custam 20.000 reais. 

O grupo também organizou na última sexta-feira um ato em frente à Petrobras, onde militantes de movimentos de esquerda se reuniram para defender Dilma Rousseff. Apenas 60 pessoas compareceram.

 

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