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Atos contra Dilma têm menos gente, mas foco maior no impeachment

São Paulo teve 100.000 pessoas, bem abaixo do número registrado no dia 15 de março

Manifestante neste domingo, na Paulista. AP

As manifestacões contra o Governo Dilma voltaram à ruas neste domingo, convocados pelos movimentos contrários ao Governo do PT. Ainda que a quantidade de participantes tenha sido menor, se comparada aos protestos do dia 15 de março, a Avenida Paulista, em São Paulo, que liderou as manifestações no Brasil, recebeu milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo. Segundo a Polícia Militar, 275.000 pessoas foram às ruas na capital paulista. Para o Datafolha, foram 100.000 e para  os organizadores, esse número ficou em 800.000. O protesto ocorreu em pelo menos 200 cidades, segundo o portal G1, e, de acordo com levantamento da PM, teria levado meio milhão às ruas.

O tom das manifestações desse domingo em São Paulo era mais centrado no coro pelo ‘Fora Dilma’. Diferentemente do último ato, cujas reivindicações eram desde a intervenção militar até a prisão de Lula, dessa vez manifestantes e organizadores pareciam estar mais alinhados com a pauta, e, apesar da reivindicação, não acreditavam muito na possibilidade real de um impeachment de Dilma Rousseff. “Impeachment não adianta. Quero que o PT todo saia do Governo, algo que teremos que mostrar nas urnas nas próximas eleições”, disse a dona de casa Ana, que carregava uma faixa afirmando que Lula rachava o país. Brasília também se destacou, na parte da manhã, com milhares de manifestantes na Esplanada dos Ministérios.

Desta vez, ao contrário do que ocorreu após os protestos de março, o Governo optou por não se manifestar oficialmente. O único a falar foi o vice-presidente da República, Michel Temer, e durante passagem pelo velório do ex-senador e ex-ministro Paulo Brossard, em Porto Alegre. Questionado, o novo articulador político do Governo disse que as manifestações "revelam uma democracia poderosa" e que o Governo "precisa verificar quais exatamente são as várias reivindicações e atender a essas reivindicações". Segundo ele, "é isso que o Governo está fazendo". 

Caso Dilma Rousseff perca o mandato, quem assume o comando é exatamente seu vice, Temer (PMDB). E essa também não é uma alternativa bem vista pelos manifestantes, que aparentavam uma aversão também ao PMDB. "O PMDB é uma hiena que se alimenta da carniça que o PT deixa. Não dá para deixar o Brasil nas mãos deles", disse o arquiteto Dalton Rodrigues dos Santos, de 54 anos. No ato, havia placas que diziam "Michel Temer não é a solução" e "Fora PT. E leve o PMDB junto".

Marchando sozinho, o pintor Mauro Célio Cabral Bezerra carregava uma placa dizendo que veio da "terra do Lula" e disse que nunca votou no PT. “Eu trabalho pendurado em corda pintando os prédios e hoje vivo só de bico. Não tem mais emprego", disse o pernambucano, de Garanhuns, que votou em Aécio Neves nas últimas eleições e é contra o Bolsa Família.

Lideranças do movimento tentaram destacar que o ato era homogêneo. "Temos aqui a Juliana, que veio de um lugar que muita gente que está aqui não conhece, que é o Capão Redondo", anunciavam em um carro de som, exaltando a adesão das classe mais baixas ao movimento. Apesar do esforço de mostrar o contrário, a maioria das pessoas que estava ali seguia sendo branca e de classe média.

A lei da terceirização e a que trata da redução da maioridade penal, assuntos que receberam os holofotes nos últimos dias por estarem na pauta da Câmara, não foram abordados pelos manifestantes. O Congresso Federal --cujos presidentes Renan Calheiros e Eduardo Cunha, ambos investigados pela Operação Lava Jato e que goza de baixa popularidade -- também foi poupado.

Carla Zambelli, fundadora do movimento Nas Ruas, disse que as principais pautas do dia eram a redução de 50% do número de ministérios, a diminuição do número de partidos, a candidatura independente e o impeachment de Dilma. “Ela [Dilma] pode sair por improbidade administrativa, por cassação ou ter as eleições impugnadas, já que as urnas foram fraudadas”, disse Zambelli. “A Dilma saindo, entra o Temer. O PMDB também é um problema, mas acho que devemos dar a chance a ele, já que trata-se de um partido que nunca esteve na presidência e, além disso, não tem conluio com Cuba e a Venezuela”, disse ela, que chegou a afirmar, no carro de som, que “a gente quer que José Dirceu e [José] Genoino morram e apodreçam na prisão”.

A Avenida Paulista permaneceu fechada para o tráfego de veículos por toda a tarde. A manifestação ficou paralisada na avenida, que só foi aberta novamente por volta das 19h. O ato reuniu milhares de pessoas entre as ruas da Consolação e até a Alameda Campinas. Os seis carros de som dos diferentes movimentos puxavam os coros como “Ei Dilma, pede pra sair”, “Fora PT”, “1,2,3, Dilma vai sair”, “Ei, Dilma, vai tomar no cu”. Canções de Cazuza, Legião Urbana e o clássico Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, hino da esquerda nos anos 70, foram tocados pelos carros -- embora as pessoas gritassem em coro "nossa bandeira jamais será vermelha" e inúmeras faixas comparassem a gestão petista com os Governos da Venezuela e de Cuba.

Manifestantes também queimaram bandeiras do PT. No momento em que uma delas pegava fogo, militantes do Movimento Brasil Livre (MBL) pediram intervenção da Polícia Militar para apagar as chamas. "Quer queimar bandeira do PT? Legal. Mas a nossa preocupação é com a segurança. Então não vamos fazer isso, pessoal. Polícia, por favor, veja lá o que aconteceu", disse um manifestante, ao microfone.

Em outro momento, um integrante do Movimento Brasil Livre anunciou, sobre o trio elétrico, que havia localizado uma carteira perdida. "Se fosse protesto dos petistas não achava mais", brincou, ao microfone, sendo bastante aplaudido.

O juiz Sergio Moro, que comandou a Operação Lava Jato, foi lembrado como herói e recebeu agradecimentos estampados em placas. "Obrigado por cuidar do nosso país, Moro", dizia uma delas. A manifestação foi pacífica, sem confrontos com a Polícia Militar. Muitos policiais, inclusive, apareciam novamente em selfies e em fotos tiradas pelos manifestantes.

Em discussão na Câmara, o projeto de reforma política foi pouco lembrado pelos manifestantes, com poucas exceções, como a aposentada Nazareth Fairbanks, 74 anos, que carregava dois cartazes. "E a reforma política é um assunto esquecido, pela imprensa e pelos manifestantes".

Rio de Janeiro

No Rio, o grito “Fora Dilma, Fora PT” invadiu mais uma vez a praia de Copacabana na manhã deste domingo. A maioria exigia o impeachment da presidenta devido aos recentes escândalos de corrupção, principalmente o que atingiu a Petrobras. Outros, em menor quantidade, pediam uma intervenção militar. Mas todos, independente das bandeiras que defendiam, queriam demonstrar sua indignação com a classe política e pedir mais ética.

No entanto, o movimento que vem se articulando contra o governo - liderado por grupos como Vem Pra Rua ou Movimento Brasil Livre (MBL) - começa a dar os primeiros sinais de esgotamento. Ao contrário da manifestação do último dia 15 de março, quando 25.000 pessoas se reuniram no mesmo lugar no Rio de Janeiro (segundo a Polícia Militar), desta vez estiveram presentes cerca de 10.000.

Além disso, os organizadores marcaram dois horários distintos para o ato deste domingo: dois carros de som, um do Vem Pra Rua e outro do Cariocas Direitos, saíram do posto 5 da Avenida Atlântica às 11h da manhã e caminharam pouco mais de um quilômetro até a altura da rua Figueiredo de Magalhães; quando lá chegaram, por volta das 14h, a maioria dos manifestantes se dispersou, mas outro carro de som, do MBL, chegou ao local e reiniciou o protesto. Lá permaneceram durante algumas horas mais.

Fora esses fatos, o ato deste domingo seguiu o mesmo roteiro do anterior: a maioria vestia camisetas verde ou amarelo, levava cartazes com mensagens de repúdio ao governo e ao PT ou bandeiras do Brasil; cantavam o hino nacional, pediam uma salva de palmas para a Polícia Militar e diziam que a bandeira do Brasil “jamais será vermelha”.

“Os últimos 12 anos foram dedicados a destruir o Brasil, a roubar. Enquanto isso, temos um hospital universitário caindo aos pedaços, uma educação que é uma vergonha…”, opinou o humorista Marcelo Madureira do alto do carro de som do Vem Pra Rua. “Lula ladrão, é o pai do petrolão!”, gritou um organizador ao seu lado. “Não somos golpistas, queremos ser tratados com o mínimo de dignidade”.

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