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Uma multidão protesta contra o Governo Dilma

São Paulo domina os protestos que pedem o impeachment da presidenta

Manifestantes neste domingo na Paulista. Getty

O que era uma dúvida, tornou-se uma certeza ao longo deste domingo, dia 15 de março, quando milhares de pessoas saíram às ruas nas manifestações de São Paulo. Segundo a Polícia Militar, eram mais de 1 milhão de pessoas na avenida Paulista. Já o instituto de pesquisa Datafolha contou 210.000 manifestantes. A discrepância dos números não reduz, em todo caso, o impacto do ato. Seguindo o critério da Datafolha, é um número superior até ao que foi registrado na cidade durante o auge dos protestos de junho de 2013, (quando 110.000 paulistanos foram às ruas, segundo o mesmo instituto).

O fato é que a presidenta Dilma Rousseff anda mais emparedada em uma crise política que parece não ter fim. O protesto, que aconteceu em dezenas de cidades, em maior ou menor proporção, reunia mais de 100.000 pessoas em todo o país até a hora do almoço, sendo 25.000 no Rio de Janeiro (também segundo a PM), e 45.000 em Brasília. Mas foi a população de São Paulo, onde o ato estava marcado para acontecer a partir das 2 da tarde, que definiu o tamanho e a força do protesto deste 15 de março.

A massa que tomou a avenida Paulista, em sua maioria vestida de verde e amarelo, era prioritariamente de classe média. Se os primeiros atos contra Dilma ao longo do ano passado estavam salpicados de pessoas pedindo a volta da ditadura militar, desta vez esse grupo ficou diluído, e o que se sobressaiu foram os paulistanos irritados engrossando a multidão para marcar sua indignação com a condução do Governo pela presidenta: “Fora Dilma” foi o grito mais ouvido nesta tarde de domingo. Ninguém exibiu cartazes contra o governador Geraldo Alckmin (PSDB), ou os deputados Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos do PMDB.

O ato contou ainda com um abaixo assinado pelo impeachment, liderado por partidários do Solidariedade, que já entrou com um pedido na Câmara. “Vamos assinar o impeachment da Dilma, pessoal”, solicitava o militante Michel Cruz, prontamente atendido. “Primeiro vamos tirar a Dilma e depois a gente vê quem fica e o que faremos em seguida”, completava.

As amigas Caroline Zanette Warmling, de 28 anos, nutricionista, e Renata Coral Franzner, 27, dona de casa, que foram se manifestar com um grupo de seis pessoas, não sabem se há base legal para o impeachment. Mas acreditam que a força da manifestação pode ajudar no processo. “É muita corrupção. E a consequência disso é que não tem saúde, educação. Estamos cansadas disso", diz Renata.

A causa, porém, dividia os presentes. O casal Andrea Cardoso Ribeiro, 44, advogada, e Mario Sérgio Ribeiro, 55, empresário, por exemplo, acredita que é preciso repensar o sistema político existente hoje. Eles estiveram na avenida Paulista para defender uma reforma política, que garantiria a existência de dois partidos. E ainda levantam a bandeira do parlamentarismo. "O impeachment não adianta porque os nomes na linha sucessória são lamentáveis. Mesmo se tivesse uma eleição nova e o Aécio ganhasse, o país está tão dividido que nada adiantaria", diz ele. "Dentro desse sistema, seria melhor então que surgisse um nome novo, que ninguém conhecesse", acredita ela. Nenhum dos dois acredita que a intervenção militar seja a resposta.

Entretanto, muitos foram para a avenida Paulista sem entender direito o que estavam apoiando. Karin Salden, 28, administradora e dona de uma fábrica de peças para carro segurava uma faixa em que pedia a renúncia da Dilma. Mas ela afirma que quer mesmo é o impeachment. Quando questionada se sabia quem assumiria o Governo nesse caso, ela disse que acreditava que haveria novas eleições. "Aí entra o Aécio, né?" Quando informada que não, que quem assumiria seria o vice-presidente Michel Temer (PMDB), fez uma cara de tristeza. “Aí fica difícil, né?”. "Mas a verdade é que eu não aguento mais. Os pequenos empresários estão sofrendo muito com tanta demissão. Todos os preços aumentaram também" desabafou.

Não foram vistos políticos, que preferiram ficar de fora para ver o desfecho do ato. Aécio Neves, candidato derrotado do PSDB, deixou uma mensagem em seu Facebook para justificar a ausência na marcha. “Optei por não estar nas ruas neste domingo, para deixar muito claro quem é o grande protagonista destas manifestações. E ele é o povo brasileiro”, afirmou.

Ainda que houvesse a presença de pessoas de classes menos favorecidas, era dominante a presença da classe média. Poucos negros foram vistos, por exemplo. A artesã Inaiá Marina Ramos dos Santos, eleitora de Dilma, que trabalha na calçada da avenida Paulista há dez anos, se dizia contra os protestos. "Se sair a Dilma, quem entra?”, questionou ela, para completar: "O PT rouba mas faz alguma coisa pelo pobre".

Provavelmente, poucos dos presentes votaram na presidenta nas eleições de 2014, e estão entre os 51 milhões de eleitores de Aécio Neves, que teve mais de 64% dos votos da capital paulista. Mas, é fato que para a presidenta Dilma o seu Governo já não é mais o mesmo a partir deste domingo. “Ela nos disse uma coisa em campanha, e agora faz outra. Sobe os impostos, a luz, e a educação continua muito mal. Gostaria de viver no país que ela costuma descrever”, disse Lilian, psicóloga.

O protesto ocorreu com tranquilidade, com a presença de muitos jovens, idosos e famílias inteiras com crianças. Houve um princípio de tumulto com a chegada de skinheads e, segundo a polícia, 20 deles foram detidos. A PM foi celebrada pela multidão. Muitos tiravam fotos abraçados a soldados da tropa de choque. Durante toda a tarde, os manifestantes chegavam pelas três estações de metrô da avenida. A estação Trianon/Masp, porém, foi fechada por três horas por não comportar tanta gente. A PM divulgou que 4.000 pessoas estavam chegando por minuto na estação, que só foi reaberta por volta das 7 da noite.

Três caminhões de som fomentavam os manifestantes ao longo da avenida Paulista. Um deles, defendia a intervenção militar no país, com faixas e cartazes. Incitar a quebra do Estado democrático de direito é crime, previsto na Constituição. O ato permaneceu na avenida, mas parte do grupo seguiu para a rua da Consolação. O ex-presidente Lula, embora tenha mantido silêncio nos últimos dias, foi muito lembrado nas ruas: “ Lula cachaceiro, devolve o meu dinheiro” foi um dos gritos mais repetidos durante a tarde de domingo. Na rua, vendiam-se cerveja, refrigerantes e lanches, além de apetrechos como bandeiras e camisetas do Brasil, apitos e cornetas. O hino nacional foi tocado repetidas vezes. Um carro de som chegou a tocar a música “Para não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, tema central da luta contra a ditadura militar nos anos de chumbo.

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