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Cerca de 3.000 pessoas radicalizam o discurso da direita em São Paulo

Entre gritos de “fora PT” e “Viva a PM”, uma multidão marcha para contestar o resultado da eleição. O objetivo: promover um movimento que consiga o impeachment de Dilma

Protesto na Paulista pede 'impeachment' de Dilma Rousseff.
Protesto na Paulista pede 'impeachment' de Dilma Rousseff. AFP

Com o peito inflado como o de um galo, um senhor de uns 70 anos com polo azul e os cabelos pintados de castanho repreendia o “covarde”. “Cadê o filho da puta?”, perguntavam vários dos participantes de um protesto que pedia o impeachment de Dilma Rousseff, na avenida Paulista, em São Paulo.

O “covarde”, que usava uma estrelinha do Partido dos Trabalhadores, corria feito um louco entre os carros de uma travessa da avenida. A ousadia de gritar “fascistas” aos integrantes da marcha que reuniu hoje cerca de 3.000 pessoas, segundo a Polícia Militar, lhe podia sair caro. Organizadores do protesto, convocado pelas redes sociais, tiveram que intervir para evitar um linchamento, e o “covarde” sumiu com apenas alguns chutes nas costas. Manifestantes que nem tinham visto a aparência do sujeito se uniram à confusão: “Vagabundo, drogado, petista!”. O clima não era muito favorável a oposição alguma. Nem os vizinhos que mostraram nas janelas bandeiras vermelhas se salvaram: foram mandados aos gritos para Cuba.

A manifestação, que chega uma semana depois das eleições mais acirradas da história do país e uma campanha semeada de ataques pessoais entre os candidatos, é um reflexo do descontentamento de um grande setor conservador paulista (63,8%) que confiou seu voto em Aécio Neves, do mais conservador PSDB. A marcha, porém, não era tanto um movimento pró-PSDB ou pró-Aécio; o que uniu à multidão foi um sentimento contra: contra o PT, contra Dilma, contra a corrupção. A motivação para sair às ruas, com os resultados já frios, era denunciar uma suposta fraude na eleição e reforçar um movimento que, partindo de São Paulo, irradie uma série de manifestações pelo impeachment da presidenta.

Os mantras da manifestação que foi do vão do Museu de Arte de São Paulo (MASP) ao Parque Ibirapuera eram repetidos pela maioria dos entrevistados: “As urnas [que deram a vitória a Dilma Rousseff com 51, 64% dos votos] foram fraudadas”, “o PT tem submetido o povo a uma ditadura da esquerda”, “o Brasil caminha na direção de se tornar uma Venezuela”, “o Lula é um cachaceiro e o filho dele é milionário”, “o melhor para o país é o impeachment de Dilma” e alguns "Viva a PM!". Ouviram-se também gritos a favor da intervenção militar e odes ao exército afogadas pelos próprios manifestantes, temerosos de que tudo aquilo fosse interpretado como um movimento golpista.

“Hoje estamos sofrendo o que os militares evitaram em 1964. Isto não é um movimento golpista, só exercemos o direito de nos manifestar”, gritava no alto do carro de som o deputado eleito Eduardo Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, famoso por suas posições xenófobas, racistas e homofóbicas. E, agora, por querer ser o próximo candidato da direita nas eleições de 2018. "Eu voto no Marcola, mas não voto na Dilma, porque pelo menos o Marcola tem palavra", disse em referência a um dos líderes da facção criminosa PCC.

Um dos cartazes do protesto.
Um dos cartazes do protesto.

No asfalto, a empolgação não era menor. Entusiasmados com frases como “Boa tarde reaças!” ou “boa tarde, Brasil que presta!” e todo tipo de provocações como “avisem se há algum infiltrado petista por aqui”, famílias, idosos, e muitos jovens entoaram o “Fora PT!” durante horas. “Estamos contestando às urnas e contestamos também a corrupção. Há anos que o Brasil vive a dominação da hegemonia cultural da esquerda”, lamentava o escritor Carlos de Freitas, de 38 anos, vestido com uma camiseta anti-Dilma.

A atriz Soraya Torrens, de 28 anos, e sua amiga Ana Paula Smolinsfki, dissertavam sobre os indícios de fraude nas urnas. “Há muitas pessoas que denunciaram problemas na votação. Ou não podiam votar ou a máquina só deixava votar em Dilma. Não temos nenhum conhecido que seja a favor do PT, por isso também achamos estranho que Dilma tenha ganhado”, asseguram. “Está todo mundo conturbado. Vivemos em uma ditadura disfarçada”.

- Mas vocês sabem mesmo o que uma ditadura é?

- Perfeitamente. Isto mesmo.

Os infatigáveis oradores do carro de som alimentaram a marcha de mais de quatro horas com um discurso inflamado e agressivo contra o Partido dos Trabalhadores e seus eleitores. O cantor Lobão, que ameaçou sair do Brasil se Dilma ganhasse, foi recebido como um herói. “Liberdade para o Brasil!!!”, gritou antes de exigir a recontagem dos votos e insistir na ausência de golpistas na marcha. “Há dezenas de motivos para pedir o impeachment de Dilma, desde o Foro de São Paulo, ao dinheiro em Cuba e ao Petrolão. Têm que ser expulsos da vida pública”, disse o cantor.

O escândalo na petroleira estatal, após se desvelar um suposto esquema de desvio de dinheiro para políticos, é o principal palanque dos manifestantes. Desde que o doleiro Alberto Yousseff, segundo a revista Veja, assegurou que tanto Dilma como o ex-presidente Lula conheciam esse suposto esquema na Petrobras, parte da oposição está convencida de que a presidenta não terminará seu mandato.

Perguntados se não estavam achando hostil o tom de alguns discursos e os insultos a Dilma e Lula, vários manifestantes concordaram, mas todos complementaram: “Mas é que a campanha já foi assim, né?”. Maria, uma radialista de 63 anos que não quis dizer o sobrenome depois de perceber sua espontaneidade no discurso, explicava: “O PT nunca promoveu um discurso amistoso. Agora somos nós os que vamos hostilizar. Não dá para ser civilizado”.

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