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Reeleita, petista prega a paz e diz estar aberta ao diálogo

“Algumas vezes, resultados apertados produziram mudanças mais fortes e mais rápidas do que vitórias por ampla maioria”, discursou Dilma

Dilma discursa ao lado de Lula na noite deste domingo. REUTERS

Em um dos acessos ao auditório do luxuoso hotel que sediou o pronunciamento da presidenta reeleita Dilma Rousseff (PT), em Brasília, uma mulher grita: “Só assim para vocês entrarem aqui”. O “vocês”, no caso, era um grupo de dez militantes do PT, com blusas vermelhas e bandeiras nas mãos, que corriam debaixo da chuva para assistir ao discurso da petista no qual ela comemorava a vitória. Irritado, o grupo parou diante da janela do quarto da provocadora e começou a cantar: “Eu, eu, eu, o playboy se fodeu”.

A cena descreve o Brasil que sai das eleições mais disputadas de sua história e, muito provavelmente, o que virá nos próximos anos. Com uma vitória por uma diferença inferior a quatro pontos percentuais contra Aécio Neves (PSDB), aquele que os petistas chamaram de playboy, a presidenta sabe que terá muito trabalho pela frente e por isso tentou acalmar pelo menos seus eleitores. “Não acredito que essas eleições tenham dividido o país ao meio. Entendo que elas mobilizaram ideias e emoções, às vezes, contraditórias, mas movidas por um sentimento comum, a busca de um futuro melhor para o país”, disse e completou: “Algumas vezes na história, resultados apertados produziram mudanças mais fortes e mais rápidas do que vitórias por ampla maioria.”

Com o resultado das eleições, Dilma sabe que não é a presidenta da maioria. Ela teve 38% dos votos totais contra 35% de Aécio. Abstenções, brancos e nulos somaram 27%. Já pensando nisso, talvez, ela disse que busca a paz e quer dialogar com todos, movimentos sociais, empresários e quaisquer representantes da sociedade. “Quero fazer um chamamento para a união. A união, nas democracias maduras, não significa, necessariamente, unidade de ideias, nem ação monolítica conjunta. Pressupõe, em primeiro lugar, abertura e predisposição ao diálogo. Esta presidenta aqui está disposta ao diálogo e é este o meu primeiro compromisso do segundo mandato.”

A declaração é uma clara mudança de posicionamento. Neste seu primeiro mandato que se encerra no dia 31 de dezembro, a petista foi severamente criticada por não ouvir as ruas e, de vez em quando, nem mesmo o ex-presidente Lula da Silva, quem foi o fiador de sua primeira campanha. Neste domingo, Dilma refez uma das propostas de junho do ano passado e voltou a falar em plebiscito: "Entre as reformas mais importantes, mais necessárias, está a reforma política". A presidenta também falou de economia, prometendo promover "com urgência ações localizadas para retomarmos nosso ritmo de crescimento". "Continuarmos mantendo os altos níveis de empregos e a valorização dos salários. Vamos dar mais impulso à atividade econômica, em todos os setores", disse.

O padrinho político, Lula, esteve no pronunciamento de Dilma. Não discursou, mas foi aclamado pelos cerca de 300 militantes que acompanhavam o evento. Alguns gritaram: “Em 2018, é Lula”. Com feições cansadas, assim como a de Dilma, o ex-presidente reagiu discretamente aos aplausos. Ao contrário dela, que, em quatro ocasiões fez caretas quando era interrompida, sorriu bastante para a plateia. Dilma reclamou da voz rouca. Deu bronca, dizendo que sua voz não suportaria gritar. E só demonstrou maior descontração quando foi abraçada pelo padrinho (três vezes) ou quando trocaram seu microfone por um que o volume estava melhor.

Após 25 minutos de discurso, todo lido, sem nenhuma improvisação, Dilma se despediu da plateia, abraçou os presidentes dos partidos aliados que estavam no palanque, deu mais um abraço em Lula e cantou um trecho do hino nacional junto com os militantes que puxaram o coro. Não concedeu entrevistas. Não respondeu a nenhuma pergunta dos mais de cem jornalistas que acompanhavam a cerimônia. Nem mesmo a dos que queriam saber se já não era a hora de começar um diálogo com a sociedade.

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