Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

O melhor candidato anti-PT não foi o bastante

Aécio Neves topou colocar os governos Lula e Fernando Henrique na balança

As promessas de prosperidade econômica não bastaram para elegê-lo

Aécio Neves reconhece a derrota em Belo Horizonte. Ver galeria de fotos
Aécio Neves reconhece a derrota em Belo Horizonte. AFP

No último debate da corrida presidencial, promovido pela Rede Globo a dois dias da votação do segundo turno, o candidato do PSDB à presidência da República, Aécio Neves, prometeu acabar com a corrupção no país com uma medida simples: tirar o PT do poder. A derrota do PT nas urnas neste domingo não teria o poder de dar um fim à corrupção — no máximo, sepultaria os possíveis esquemas petistas em nível federal —, mas a declaração do senador tucano resumiu a essência de sua candidatura ao Palácio do Planalto. Mais do que a ex-senadora Marina Silva (PSB), tida durante boa parte do primeiro turno como a candidata capaz de vencer a presidenta Dilma Rousseff nas urnas, foi Neves que conseguiu personificar melhor o sentimento de mudança ‘anti-PT’ com que boa parte da população brasileira foi às urnas neste ano. E o candidato tucano contou com uma boa ajuda da propaganda da adversária Dilma Rousseff para se transformar em alternativa.

Em um campanha pautada desde o início pela eficiente máquina de propaganda do PT, cujo grande trunfo nas últimas duas eleições foi comparar os governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Aécio Neves topou colocar as gestões Fernando Henrique e Lula na balança, ao contrários do que fizeram os últimos candidatos tucanos à presidência, José Serra e Geraldo Alckmin. O senador mineiro bateu durante toda a campanha em pelo menos duas teclas nesse sentido: os programas sociais que se expandiram nos governos Lula e Dilma, simbolizados sempre pelo Bolsa Família, tiveram origem na gestão tucana; e o Plano Real, conduzido no Governo Itamar Franco pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique, foi o “maior programa de distribuição de renda” do Brasil, por proporcionar a estabilidade econômica perseguida desde o fim da ditadura militar (1964-1985).

Seria simplório entender a posição de Neves como mera gratidão a Fernando Henrique, que foi o grande fiador da candidatura presidencial do senador mineiro. O candidato tucano teve, neste ano de inflação acima do teto da meta de 6,5% e com previsão de crescimento da economia de menos de 1%, um cenário mais confortável para comparações entre as gestões PSDB e PT no Palácio do Planalto. Confortável o bastante para ‘ressuscitar’ o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que Neves apontou, antes mesmo do fim do processo eleitoral, como seu futuro ministro da Fazenda. Ao contrário do que ocorreu na reeleição de Lula, em 2006, e na eleição de Dilma, em 2010, o discurso de justiça social defendido pelo PT foi limitado pelos maus resultados econômicos do Governo Dilma Rousseff, durante o qual o país cresceu em média 2% ao ano. Nos oito anos do Governo Lula, a média de crescimento foi de 4%, e, durante o Governo Fernando Henrique, o país cresceu em média 2,3% ao ano.

Seguro de que o legado de Fernando Henrique Cardoso enfim podia render frutos eleitorais a um presidenciável tucano, o senador mineiro tentou, sempre que confrontado pela candidata à reeleição, ficar com o melhor e se esquivar do pior do Governo Fernando Henrique, sempre com uma mesma fórmula: “Me honra muito a comparação com Fernando Henrique, mas eu me chamo Aécio Neves”. Era nele mesmo (Aécio Neves), contudo, que estava o grande alvo da chapa tucana, como percebeu a campanha petista. Com uma longa história de vida pública, que começa aos seus 25 anos de idade, quando foi nomeado, durante o Governo José Sarney (1985-1990), para uma diretoria da Caixa Econômica Federal, e uma movimentada vida social, o senador teve o histórico político e pessoal dissecado pelas propagandas do PT. Durante a campanha, o tucano foi cobrado por ter sido líder do PSDB na Câmara dos Deputados durante o Governo Fernando Henrique; por tudo o que fez ou não conseguiu fazer enquanto governador de Minas Gerais (2003-2010); por ter se recusado a fazer o teste do bafômetro quando parado em uma blitz, em 2011, no Rio de Janeiro; e até por ter dito, em uma entrevista concedida aos 17 anos de idade, que nunca havia arrumado a própria cama.

O candidato tucano ainda teve de lidar com as denúncias de que favoreceu familiares ao autorizar a construção de um aeroporto na cidade de Cláudio, em Minas Gerais, e de que seu partido teria participação em um esquema de corrupção eleitoral que ficou conhecido como o mensalão mineiro, além, é claro, de se esquivar da fama de ser usuário de drogas e de ter agredido a mulher, Letícia Weber, em público. Mesmo com tanto a se criticar nos campos político e pessoal, Aécio Neves se transformou, por força das circunstâncias, em um dos dois expoentes da mais polarizada campanha presidencial do Brasil desde a redemocratização, em 1989. Boa parte disso se deve ao discurso de mudança que a ex-senadora Marina Silva, criada politicamente dentro do PT, não conseguiu sustentar ao longo do primeiro turno, em que teve a candidatura dissecada pela propaganda petista.

Ancorado no passado tucano e impulsionado pela promessa de um futuro mais próspero, sem corrupção e previsível no campo econômico, Aécio Neves conseguiu se estabelecer como o melhor candidato anti-PT desta eleição. E mesmo que isso não tenha sido o bastante para bater Dilma Rousseff nas urnas neste ano, pode ser o suficiente para que continue representando a melhor alternativa ao PT daqui a quatro anos.

MAIS INFORMAÇÕES