Operação Lava Jato

Propina era paga mensalmente a políticos da Lava Jato, acusa Janot

Dinheiro vinha de três diretorias da Petrobras e abasteciam, principalmente, três partidos, o PMDB, o PT e o PP

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot. (REUTERS)

Um número ainda indeterminado de políticos brasileiros implicados na rede de corrupção na Petrobras recebia mensalmente pagamentos provenientes de subornos de empresários, segundo denuncia a Procuradoria-Geral da República. Era um sistema simples e eficaz que envolvia altos dirigentes da petroleira indicados previamente por esses mesmos políticos, empresários – alguns já na prisão – que se empenhavam em conseguir licitações de contratos com a Petrobras e recorriam a subornos para obtê-las e intermediários que agiam como mensageiros entre uns e outros, e que levavam o dinheiro de um lado para o outro.

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A investigação do procurador-geral Rodrigo Janot, que na terça-feira entregou ao Supremo Tribunal Federal a lista com 54 nomes de dirigentes suspeitos de participar da trama, se baseia, sobretudo, nas informações (em troca de redução de pena) de um desses altos funcionários indicados e mantidos no cargo por políticos envolvidos, o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, e o intermediário e especialista em lavagem de dinheiro Alberto Youssef. Algumas dessas mensalidades, segundo o jornal O Globo, podiam chegar a 500.000 reais.

De 2004 a 2011, na Diretoria de Abastecimento os políticos beneficiados foram os do Partido Progressista (PP), atualmente aliado do Governo de Dilma Rousseff no Congresso. A partir de 2011 foi outra a sigla que recebeu supostamente o dinheiro: o PMDB, também aliado do Governo. De fato, tanto o presidente do Congresso, Eduardo Cunha, como o do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, estão na lista, suspeitos de corrupção e de lavagem de dinheiro.

Mas os cupins infiltrados na Petrobras não acabam aqui: a Procuradoria Geral da República acrescenta que em outras duas diretorias, a de Serviços e a Internacional, existiam esquemas parecidos de corrupção. A de Serviços beneficiava o Partido dos Trabalhadores (PT), a legenda de Dilma Rousseff. Aqui, quem agia como intermediário era nem mais nem menos que o tesoureiro do partido, João Vaccari (também na lista, claro); na Diretoria a área Internacional, que desviava dinheiro também para políticos do PMDB, agia como intermediário um lobista obscuro chamado Fernando Soares, o Baiano, também especialista em lavagem de dinheiro e com contas suspeitas na Suíça.

A Procuradoria sustenta que, com as novas investigações que se avizinham, o mais provável é que ocorram mais detenções

A lista é demolidora e explica bem até que ponto a rede da Petrobras se estendia pelo poder brasileiro. Nela figuram 22 deputados em exercício, 12 senadores e 14 ex-deputados. Entre eles estão cinco ex-ministros, vários ex-governadores e até o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello.

A trama envolve seis partidos, mas é o PP – uma sigla em princípio de centro-direita, mas que costuma aliar-se com o poder, não importando quem esteja lá – que possui mais integrantes na lista: 31. As cifras são eloquentes: três de seus cinco senadores estão incluídos e também 18 de seus 40 deputados. O PT conta com oito e o PMDB, outros oito. Ninguém fica livre: o oposicionista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) só tem um, mas importante: o senador Antônio Anastasia, ex-governador do Estado de Minas Gerais e personagem muito próximo de Aécio Neves, presidente desse partido e o candidato que disputou a presidência com Dilma em 2014. Outro que será investigado é o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, do PT, encarregado de arrecadar fundos para a campanha de Dilma de 2010. Por essa razão, os gastos da campanha de 2010 da presidenta serão investigados.

Assim, para além das siglas (no Brasil os partidos não se articulam na maioria das vezes em torno de uma ideologia, mas de grupos de poder), a profusão de nomes e de formações políticas envolvidas, de desvio de dinheiro e de suspeitas de enriquecimento ilícito e de financiamento político encoberto dá uma ideia da magnitude do que foi descoberto pelo procurador-geral. Muitas manchetes de hoje dos jornais de dimensão nacional no Brasil consistem de uma sucessão vergonhosa de fotografias individuais, como as de documentos de identidade, a fim de que caibam todos os supostos corruptos na primeira página.

E isso não acabará aqui. A Procuradoria Geral sustenta que, com as novas investigações que se avizinham, o mais provável é que ocorram mais detenções. De fato, se há tantos suspeitos do PP é porque, principalmente, só decidiram “abrir a boca” o encarregado dessa diretoria e o intermediário. Se os outros dois diretores-gerais, atualmente imputados, resolverem falar em troca de possíveis reduções de pena, os envolvidos se multiplicarão.

A estabilidade política, com tanto deputado e senador investigado, será abalada. Falta saber o que pensa sobre o caso a presidenta Dilma Rousseff, que, apesar de ser pouco afeita a dar entrevistas ou de aparecer em público, amanhã falará ao país pela televisão.

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