Coluna
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Flagrantes da vida real

É carnaval no Brasil. Quem se importa com o tamanho do buraco onde estamos metidos?

O avião deveria decolar do aeroporto de Porto Alegre rumo a São Paulo às 14h40. Dez minutos antes do embarque, uma voz feminina informa, burocrática, que "devido a problemas técnicos" a aeronave pousará às 16 horas. Deixamos a capital gaúcha às 16h30, quase duas horas depois do horário previsto. Ninguém reclama. Mantivemo-nos calmos, sentados, consultando o celular. Às 18h05, aterrissamos em Congonhas, mas somente meia-hora depois encosta o ônibus que nos levará ao terminal de desembarque. Ninguém reclama. Mantivemo-nos calmos, de pé, espalhados pelo corredor do avião. E calmos nos mantivemos em frente à esteira, aguardando a chegada das malas – por mais meia-hora... Ninguém reclama – no Brasil, falamos mal de quase tudo, mas à boca pequena, de maneira que ninguém nos ouça. Poucas vezes reivindicamos os nossos direitos: não queremos ser malvistos, não queremos ser tidos como encrenqueiros, como alguém sem polimento social...

Em Helsinque passo uma das maiores vergonhas da minha vida. Hospedam-me na Casa do Escritor Finlandês, cenário de cartão-postal: a edificação, incrustada numa floresta, debruça-se sobre um lago onde nadam cisnes elegantes. Do outro lado, o belíssimo e imponente prédio da Musiikkitalo, a Casa da Música. Ruídos, apenas dos esquilos que atravessam os canteiros de flores, de alguns passantes que cruzam os caminhos, a pé ou de bicicleta. Estamos em plena primavera. Todos os habitantes deste país louro embebedam-se de sol, raro, e de cerveja e vodka, abundantes. No primeiro dia, após me inteirar do quarto, saio para um passeio, não sem antes fechar as janelas. Regresso por volta das onze horas da noite, ainda com luz às minhas costas. Faz calor e não há ar condicionado. Dia seguinte, de novo saio cedo, de novo fecho as janelas. Regresso por volta das cinco, tomo banho e me apronto para participar de uma mesa às sete. A zeladora, que lia um grosso volume, do qual só consigo identificar na capa um nome que me parece ser Dostoievski, me pergunta: Por que o senhor fecha as janelas ao sair? Eu começo a responder. É porque tenho receio de que alguém, e paro. O resto da minha frase, que não digo: ...entre e roube meus pertences... Percebo a tempo que ela não compreenderia se eu explicasse que em meu país nos acostumamos a viver em sobressalto, que se estivesse alojado num lugar ermo como aquele e deixasse a janela aberta, quando regressasse pouco ou nada restaria da minha bagagem... Enrubesço, engasgo, desconverso... Permaneço enrubescido e engasgado até hoje...

Filipe, meu filho, indaga: como conciliar a defesa intransigente da liberdade de expressão de um jornal que satiriza um ícone religioso – ele lembrava o caso recente do Charlie Hebdo – com a condenação intransigente do bullying no cotidiano – ele se referia a toda a neolinguagem criada para evitarmos termos que possam ser ofensivos a outras pessoas. Eu, totalmente favorável à liberdade de expressão, e que condeno de maneira irremediável o bullying, continuo aqui pensando, sem resposta.

Mesmo que adotemos a única solução sugerida pelo ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga, de rezarmos a Deus para que chova, certamente enfrentaremos um rigoroso racionamento de água e energia elétrica, em breve. Esse transtorno poderia ter sido evitado caso tivéssemos feito, nos últimos dois anos, campanhas para economizar água ou mesmo houvéssemos optado por um racionamento brando: a perspectiva de escassez de chuvas já se entremostrava desde meados de 2013. Os administradores públicos, temendo perder as eleições do ano passado, preferiram mentir sobre a real situação dos recursos hídricos. Isso porque sabem que enganar é parte da nossa cultura. Ninguém reclama, todo mundo entende...

O taxista me conta, entusiasmado e indignado, um caso de trânsito. Seu pai e dois irmãos rumavam, em carros separados, para o sítio onde passariam o fim de semana. No cruzamento de uma avenida movimentada, uma viatura da polícia buzina, tentando induzir o veículo dirigido pelo pai a ultrapassar o sinal vermelho, mesmo não estando com a sirene ligada. Ele se recusa, receio de ser multado. Agressivos, os policiais descem, arma em punho, ordenam que encoste no meio-fio e ameaçam-no de prisão por desacato. O automóvel conduzindo os irmãos do taxista estaciona logo atrás. Percebendo o que está ocorrendo, um deles apresenta-se como oficial da PM e, colérico, passa a humilhar os subordinados, forçando-os a pedir desculpas ao pai. O taxista ri da situação. O Brasil é assim, comenta, sarcástico. Reparei que ele deu uma enorme volta para chegar ao destino, fazendo com que o taxímetro marcasse quase o dobro do que custaria a corrida, caso houvesse percorrido o itinerário correto...

É carnaval no Brasil. Quem se importa com o tamanho do buraco onde estamos metidos?