O fim da Europa como grande modelo

A Primeira Guerra Mundial afetou a economia da América Latina e fomentou o nacionalismo Oito países da região declararam guerra

Latino-americanos se manifestam contra a Alemanha no Rio de Janeiro, no dia 14 de julho de 1917.
Latino-americanos se manifestam contra a Alemanha no Rio de Janeiro, no dia 14 de julho de 1917.Getty Images

A América Latina também viveu, participou e sofreu a Primeira Guerra Mundial. Todos os países da região carregaram as consequências econômicas e sociais da batalha. Em 28 de junho de 1914 os olhos do mundo estavam voltados para o centro do continente que, até então, era um modelo a ser seguido. O arquiduque da Áustria tinha sido assassinado e começava a dança de alianças e ameaças. No final de julho, começava a guerra e os países recrutavam soldados para um dos confrontos mais violentos. Pelo menos foi assim que o descreveu Juan B. Homet, um argentino que, por sua empatia com a França, se alistou no Exército, e anos depois escreveu suas memórias, Diário de um Argentino: “Isto é o que esta guerra veio a ser: uma matança estúpida na qual milhares de homens morreram ao som de palavras simpáticas, mas nada mais que palavras, e com as quais alguns malandros fizeram bons negócios às custas da humanidade”.

Em 1918, quando as hostilidades chegaram ao fim, a Europa estava destruída. O sentimento nacionalista invadiu a América Latina e suas relações internacionais passaram a ser bilaterais. Os Estados Unidos substituíram as potências do século XIX.

“Este conflito não foi só de tiros, mas também foi uma guerra com consequências verdadeiramente globais. Na América Latina, o confronto teve uma repercussão muito forte, uma mudança brusca na orientação cultural voltada à Europa”, afirma Stefan Rinke, professor de História Latino-Americana na Freie Universität, em Berlim. No início, a guerra foi transportada à região através da imprensa. “Os jornais chegaram a ser bastante tendenciosos. Tanto que quando um regimento perdia uma batalha, a informação dava a entender o contrário”, conta Álvaro Matute, doutor em História na Universidade Nacional Autônoma do México.

No Brasil, em 1915, foi criada a Liga Brasileira pelos Aliados, que lançou uma campanha de propaganda e arrecadação de fundos a favor dos aliados. A sociedade latino-americana estava dividida. Uns eram germanófilos e outros, aliadófilos (defensores da Tríplice Entente: França, Grã-Bretanha e Rússia). Muitos por admiração pela França. “A conexão era bastante forte. Os aliadófilos eram muito mais numerosos e tinham uma voz mais forte que o grupo rival”, explica Rinke. Por isso, voluntários como Homet cruzaram o Atlântico para contribuir com seus braços no ataque à Alemanha e ao império Austro-Húngaro. O argentino chegou com 22 anos de idade a Orleans, em 14 de abril de 1915, depois de ter assinado um contrato como voluntário válido por todo o período que durasse a guerra. Incorporou-se à Legião Estrangeira junto com outros 250 recrutas de 51 países diferentes. “Nos dão o uniforme. Agora somos soldados franceses! Estávamos contentes de ter ingressado nas filas do Exército defensor da liberdade e da civilização”, escreveu.

Foi apenas em 1917, ano em que os Estados Unidos intervieram, que alguns de seus vizinhos do sul lhe estenderam a mão e declararam guerra contra a Alemanha: Brasil, Guatemala, Costa Rica, Haiti, Honduras, Cuba, Nicarágua e Panamá. Outros quatro países cortaram relações diplomáticas: Bolívia, Equador, Peru e Uruguai. O resto permaneceu neutro: Argentina, Chile, México, Colômbia, Paraguai, Venezuela e El Salvador. “As consequências mais graves para a região foram no campo econômico”, afirma Rinke. A América Latina dependia em grande medida das exportações para a Europa. Este comércio, no momento em que se iniciaram os confrontos, ficou suspenso. O continente europeu deixou de importar café do Brasil, cacau do Equador, metalurgia da Argentina. As exportações da Guatemala para a Alemanha caíram de 20% em 1913 a 3% em 1915.

Só o Brasil enviou soldados, mas seu plano militar foi algo simbólico

Alguns setores, como os de calçados, papel e carne da Argentina, e de salitre chileno, necessário para a produção de explosivos, se viram beneficiados pela escassez desses produtos sofrida pelos países da Tríplice Entente em meio ao conflito. A França e a Grã-Bretanha pressionaram essas nações a entrar na guerra. “Por isso a neutralidade deles foi especialmente importante. Do ponto de vista dos alemães, cada país que se manteve neutro significava uma vitória para eles”, opina Rinke. Mas, apesar de a Argentina ter conseguido exportar esses produtos, o PIB caiu 10,4% em 1914 e 8,1% em 1917. “O maior problema foi a queda no investimento e no consumo. A arrecadação fiscal também foi reduzida, enquanto o desemprego e o número de greves aumentou, assim como piorou a situação social da população”, afirma Fernando Devoto, doutor em História do Instituto de História Argentina e Americana.

“Agora vejo a guerra de perto. Nunca pude imaginar uma carnificina tão assustadora”, descreveu Homet, instalado no que era seu novo lar: as trincheiras. Durante todo o ano de 1915, as memórias desse argentino recordam sua tentativa brutal de sobreviver. “Chegamos às trincheiras alemãs, onde junto aos muitos cadáveres havia feridos. Alguns levantavam as mãos pedido misericórdia: ‘Kamerad, kamerad (“companheiro”)’. Um gesto em vão! Tinham me mandado ali para matar. Senti uma repugnância infinita e, baixando a cabeça, mergulhei a baioneta em seu peito...!”. Nesse ponto os testemunhos da guerra se repetem. Soldados sem comida, piolhos, doenças, sapatos esburacados, raiva, medo, ódio e decepção.

Em 7 de maio de 1915, a Alemanha afunda o navio Lusitania, que havia zarpado da costa norte-americana. A tensão entre ambos os países cresce, mas os alemães conseguem manter os Estados Unidos fora da guerra. “Não compreendemos a atitude passiva dos Estados Unidos”, escreve Homet ao saber da notícia. “A potência norte-americana ainda não declarava guerra, mas desde o início do conflito vendia armas a seus aliados (França e Grã-Bretanha)”, afirma Javier Garciadiego, doutor em História pelo Colégio de México.

O México, por sua parte, se encontrava imerso na Revolução (iniciada em 1910), na qual dois personagens disputavam o poder: Carranza e Villa. O primeiro tinha conseguido obter seu próprio estoque de armas. Se adversário, no entanto, as comprava dos Estados Unidos, mercado do qual deixou se abastecer quando esses artefatos começaram a ser vendidos exclusivamente do outro lado do Atlântico. “O estopim da Primeira Guerra Mundial foi uma das causas da derrota de Villa e do triunfo do constitucionalismo (Carranza)”, explica Garciadiego.

Mas o papel do México na Grande Guerra não se limita aos efeitos em seu conflito interno. Sua localização geográfica fazia dele um país estratégico para a Alemanha, e sua riqueza em petróleo era um atrativo para os países da Entente. A Grã-Bretanha e os Estados Unidos tinham dispensado sua esquadra a vapor e dependiam do petróleo mexicano. “Aos alemães seria conveniente gerar um conflito entre esses dois países norte-americanos para manter os Estados Unidos longe da Europa e, assim, parassem de enviar armas e munições a seus aliados”, diz o professor mexicano. Ele conta que em 16 de janeiro de 1917, o próprio ministro das Relações Exteriores alemão, Arthur Zimmermann, enviou um telegrama ao presidente do México. O comunicado oferece ao país apoio militar para que se lance em uma guerra contra os Estados Unidos e em troca lhe dá a possibilidade de recuperar os territórios perdidos na intervenção norte-americana de 1846. Uma oferta tentadora, mas suicida. Além disso, em fevereiro do mesmo ano, os Estados Unidos rompem relações com a Alemanha porque esta decide voltar aos confrontos de submarinos.

O telegrama foi interceptado pela inteligência britânica e enviado aos Estados Unidos. Isso e os ataques submarinos foram a gota d’água: os Estados Unidos declaram guerra em abril. “A estratégia de Zimmermann acaba sendo um dos documentos mais fracassados da história diplomática mundial porque provoca o que ele queria evitar: que os Estados Unidos entrasse na guerra”, afirma Garciadiego. No mesmo mês em que os norte-americanos declaram guerra, Homet tem sua baixa: “Estou livre! Juro não voltar a abdicar da minha liberdade. Deixei no quartel aquele uniforme militar que representava um peso para mim”.

Apenas o Brasil enviou soldados oficialmente, mas foi algo simbólico. Ao chegar à capital do Senegal, muitos contraíram a gripe espanhola e morreram. Mais tarde, quando iam desembarcar na Europa, a guerra já tinha chegado ao fim. “Além disso, o Brasil mandou 13 aviadores, uma missão médica onde instalou um hospital com 500 leitos e carregamentos de mantimentos”, enumera Francisco Doratioto, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, onde leciona. “O detonador para o Brasil declarar a guerra – o único país da América do Sul a fazê-lo -, em 26 de outubro de 1917, foi o afundamento do navio mercante Paraná, que navegava com as luzes acesas e a identificação de ser de um país neutro”, explica Doratioto. Mas isso não foi um impedimento para que a Alemanha o mandasse para o fundo do mar.

O resto dos países que declararam guerra enviaram soldados sob a bandeira dos Estados Unidos ou da França. A Guatemala rompeu relações diplomáticas com a Alemanha em 27 de abril de 1917 após consultar os Estados Unidos, país que tinha substituído a Europa como exportador do café guatemalteco, segundo explica a professora Regina Wagner, da Universidade Francisco Marroquín, da Guatemala. “Naquele ano foram publicadas listas negras que continham os nomes das empresas com quem era proibido negociar. Um ano mais tarde a Guatemala declarou guerra e permitiu a ocupação das empresas de serviços com capital majoritariamente alemão”, afirma Wagner.

Quando a guerra acabou, em 11 de novembro de 1918, o Brasil pode estar presente nas negociações de paz em Versalhes por causa de sua participação militar no conflito. Como resultado, o país obteve pagamento da Alemanha pelo café brasileiro que estava em portos alemães e que foi confiscado, explica o professor Doratioto.

“Depois da guerra os latino-americanos não tinham mais a mesma confiança no modelo europeu e começaram a procurar seu próprio caminho para o futuro. E não só as elites, mas também os trabalhadores e os estudantes. Isso é muito importante”, ressalta Rinke. Instabilidade social, como as greves de 1917-1918 no Brasil, movimentos estudantis e culturais, como o muralismo no México, surgiram a partir do fato de a heroica Europa Ocidental ter que submergir para reconstruir a grandeza que a tinha levado a ser um continente colonialista séculos antes. A imagem da antiga potencia ia perdendo força e identidade por cada corpo que devia sepultar – 9 milhões de pessoas morreram. Uma identidade que, pelo contrário, ressurgia na América Latina. “Me arrependo e amaldiçoo a guerra. Não há homens civilizados aqui. São todos piores que selvagens e eu entrei nessa conta, infelizmente”, escrevia Homet.

Pouco se estuda sobre o papel que a América Latina teve na Primeira Guerra Mundial, se dúvida um papel menor do que o do resto dos países envolvidos, mas com grandes consequências para o rumo de sua história. Um participação esquecida que se assemelha ao sentimento com que Holmet deixou a guerra, o argentino que passou dois anos nas trincheiras: “Ainda que tenha derramado meu sangue pela França [...] o Governo francês não me deu recompensa alguma, nem me ofereceu nenhum recurso para me ajudar a ganhar a vida. Para eles sou estrangeiro, ou seja, nada. Nenhum agradecimento me devem, nem têm por que se lembrarem de que eu existo”.

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