O sustento de meio mundo

A domesticação do arroz foi um dos principais avanços da humanidade Dez milênios depois continua sendo o alimento básico principal

Cultivo de arroz em Sevilha, na Espanha.
Cultivo de arroz em Sevilha, na Espanha.García Cordero

O progresso humano não seguiu um ritmo lento e constante desde que a espécie evoluiu na África, há talvez 100 mil anos, ou até mesmo o dobro disso, segundo as descobertas paleontológicas mais antigas. Há apenas cerca de 60.000 anos as primeiras evidências da criatividade moderna, incluídas as primeiras demonstrações de arte simbólica, apareceram no sul do continente africano, e esse tipo de cultura tardou quase 20.000 anos mais para chegar à Europa. Mas certamente a grande inovação cultural que o mundo tal qual o conhecemos começou a gerar foi a invenção da agricultura, há apenas cerca de 10.000 anos. E a domesticação do arroz foi uma das tecnologias principais, a ponto de que ainda hoje, dez milênios depois, este continue sendo um alimento básico de meio mundo. Com a possível exceção da invenção do alfabeto, poucos avanços terão sido mais cruciais na história da espécie.

A invenção da agricultura é tradicionalmente atribuída aos povos do Oriente Médio e à domesticação do trigo, das figueiras e de vegetais até então apenas silvestres, mas avanços similares ocorrem de forma independente nas atuais América do Sul e China, mas não com o trigo, e sim com as plantas silvestres disponíveis em cada uma dessas zonas. O arroz é a marca registrada da revolução neolítica na Ásia oriental. Os indícios arqueológicos mais antigos do seu cultivo datam de 7.000 ou 9.000 anos, e estão situados na metade oriental da atual China; com datas um pouco posteriores, aparecem também na Índia e no Sudeste Asiático.

Arroz, asiático e emergente

Os últimos dados oficiais estimam que em 2011 o consumo médio de arroz no mundo foi de 56,4 quilos por pessoa, e a estimativa para os anos posteriores indica uma tendência de alta de 2,6% para o biênio 2013-14, segundo a FAO, que estima como fator de crescimento do consumo mundial a aplicação da lei de segurança alimentar nacional da Índia. Trata-se do alimento básico de mais de metade da população mundial. Sua importância é vital para a segurança alimentar, e é cada vez maior o número de países que dispõem de baixa renda e apresentam um déficit alimentar. Concretamente, é a fonte alimentar com mais rápido crescimento na África.

A FAO estima que, apesar dessas características de crescimento do consumo, continuará ocorrendo um acúmulo de estoques de arroz. A relação entre os estoques e sua utilização deve ficar em 36,6% em 2014.

China e Índia são os maiores produtores mundiais de arroz, e a Ásia concentra os maiores níveis de consumo mundial. Tailândia, Vietnã e Índia são os maiores exportadores de arroz do mundo.

A produção mundial de arroz (em equivalente de arroz elaborado) foi de 486,1 milhões e toneladas em 2011-12, última safra com dados encerrados pela FAO, que prognostica para 2013-14 uma produção de 494,1 milhões de toneladas.

E lá continua o arroz, dando de comer às pessoas desses países que compõem mais ou menos metade da população mundial atual. Esquecemos com frequência até que ponto nossa civilização atual, com suas fissões nucleares, seus projetos de genoma e suas autoestradas em fibra óptica, depende de invenções simples e brilhantes que ocorreram há 10.000 anos. Mas que, por outro lado, não deixaram de experimentar crises, melhoras e variações, e que hoje enfrentam desafios importantes – como a mudança climática e a perda de diversidade –, e também oportunidades inéditas, como as poderosas técnicas da biologia atual.

A Oryza sativa, espécie domesticada que inclui a maior parte das variedades de arroz de uso agrícola, é cultivada em terras alagadas periodicamente, como os deltas dos rios e os litorais planos. Para citar alguns exemplos, o delta do rio Ebro e os mangues do Guadalquivir, nos limites do Parque Nacional de Doñana (sul), são lugares tradicionais do cultivo de arroz na Espanha. O fato de esse tipo de habitat ser tão comum no sudeste e leste asiáticos explica em parte o imenso desenvolvimento alcançado por essa gramínea naquelas regiões do mundo. A disponibilidade original das variedades silvestres de arroz nessas áreas explica o resto: cada cultura neolítica se aproveitou das plantas que surgiram naturalmente em sua região, como parece lógico.

O grão de arroz é colhido coberto por uma capa de fibra e uma casca. Quando processado de forma suave, retirando apenas a casca, resulta em um arroz integral, de cor mais escura, que talvez não desfrute das preferências dos cozinheiros e comensais, mas que seria aprovado por qualquer nutricionista: tem 8% de proteínas – uma cifra inferior aos 12% de outros cereais, mas útil em combinação com outros alimentos – e proporções honrosas de niacina, riboflavina, ferro e cálcio. O processado mais comum, porém, que retira a fibra, além da casca, produz um arroz com menos qualidades nutricionais.

Mas, enquanto os gourmets discutem nos países desenvolvidos, as propriedades nutritivas do arroz são uma questão importante para centenas de milhões de pessoas que dependem desse grão como fonte quase única de alimento diário. Um problema bem conhecido dessas populações é o beribéri, doença causada pela carência de tiamina (ou vitamina B1). E, quando não sobra carne para combinar com o arroz, também é motivo de preocupação a escassez de proteínas na dieta dessas pessoas. A biologia atual pode ajudar nesse capítulo essencial.

E já ajudou em parte dos anos 60, quando as inovações na seleção agrícola convencional realizadas por Norman Bourlaug em instituições científicas do México (a “revolução verde”) produziu, entre outras coisas, o chamado – com certo exagero – arroz milagroso, uma variedade dotada de uma produtividade maior do que a habitual até então, e com grande resistência a enfermidades comuns dessa planta.

Mas persistem muitos outros problemas, como a pobreza do solo em grande parte dos cultivos asiáticos e as carências nutricionais citadas antes. A China já apostou firmemente em uma tecnologia que na Europa parece produzir calafrios em uma população mal informada: os transgênicos. Alheio ao conflito entre o Greenpeace e a Monsanto, o gigante asiático optou por desenvolver seus próprios arrozes transgênicos em seus centros públicos de pesquisa, em uma ação voltada a uma reorientação do debate – distorcido e enlouquecido na Europa – sobre as possibilidades abertas pela biotecnologia para a agricultura e para a própria preservação do entorno.

Se nós, humanos, continuarmos aqui dentro de mil anos, o arroz continuará conosco.