Pandemia de coronavírus

Aceleração do coronavírus nas Américas provoca críticas sobre gestão da pandemia

Especialista aponta falhas na atuação de Brasil e EUA. Na região, Chile e Peru também têm incidências elevadas de casos de covid-19

Uma família em Pamplona Alta, na periferia de Lima (Peru), se prepara para sair com máscaras.
Uma família em Pamplona Alta, na periferia de Lima (Peru), se prepara para sair com máscaras.ERNESTO BENAVIDES / AFP

Basta olhar os gráficos da Organização Mundial da Saúde (OMS) para comprovar: enquanto a curva de casos confirmados na Europa é claramente descendente desde meados de abril, outras regiões, como as Américas, o Mediterrâneo Oriental, o Sudeste Asiático e a África, continuam somando novos contágios de coronavírus a um ritmo intenso, com alguns países apresentando altíssimas incidências acumuladas (em sete dias), como os 150 casos por 100.000 habitantes do Chile. Na América Latina, a situação epidemiológica é preocupante nesse país e no Peru, Brasil, Panamá e Porto Rico, os cinco com maior incidência, segundo um membro da Sociedade Espanhola de Medicina Preventiva, Saúde Pública e Higiene (Sempsph). Epicentro da região, o Brasil é o segundo país em número de casos no mundo e o terceiro em mortes.

Jeffrey Lazarus, epidemiologista e pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal), distingue três blocos de países: “Preocupam-nos sobretudo Estados Unidos e Brasil, pelo tamanho e por seu número de casos. Há outros países pequenos que têm problemas, mas nestes dois não estão fazendo o que têm que fazer em relação às recomendações internacionais”. Nos EUA, há Estados e cidades que agem melhor que outros, acrescenta, mas o Brasil “simplesmente deixou de publicar o número de mortos. Não está levando a sério”, acrescenta, em referência ao recente apagão nas estatísticas. Após mudar sua plataforma e restringir os números divulgados, o Governo Jair Bolsonaro voltou atrás após determinação do STF (Supremo Tribunal Federal).

O África Subsaariana é outro foco de preocupação, mas não pela quantidade de casos, dos quais ainda há poucos em comparação com outras áreas. “Surpreende-nos muito que não tenha chegado tão forte como em outros países, e não sabemos se é por seus problemas para fazer exames e monitorar. Não posso dizer que a coisa vá bem quando há 100 casos, porque na verdade não sabemos. Eles não têm concentração de idosos em asilos como na Europa e fazem muita vida na rua, mas também têm cidades muito grandes. Addis Abeba (Etiópia) fechou relativamente cedo.” Finalmente, há um terceiro grupo de Estados “muito fechados” (Coreia do Norte, Rússia, China) que preocupa, pois lá “não sabemos o que está acontecendo”.

No caso de voos procedentes de lugares com muita transmissão comunitária, a Espanha cogita fazer uma busca ativa de casos, ou seja, monitorar os viajantes através do celular durante os dias posteriores ao desembarque. Era algo que se fez enquanto havia poucos voos —de pessoas que chegaram à Espanha a trabalho ou por outros motivos durante o confinamento—, mas, assim que a atividade normal for retomada, será impossível monitorar todos os passageiros, e esse controle será por amostragem. Além disso, as autoridades automatizarão com câmaras termográficas a coleta de temperatura de todos os passageiros internacionais a partir de 1º de julho, conforme anunciou nesta quinta-feira o ministro espanhol dos Transportes, José Luis Ábalos.

Preocupam-nos sobretudo Estados Unidos e Brasil, pelo tamanho e por seu número de casos. Há outros países pequenos que têm problemas, mas nestes dois não estão fazendo o que têm que fazer em relação às recomendações internacionais
Jeffrey Lazarus, epidemiologista e pesquisador do Instituto de Saúde Global de Barcelona

Até agora foram notificados mais de 7 milhões de casos e 400.000 mortos no mundo. Fora da Europa, os países com mais casos registrados são os Estados Unidos, que beiram os dois milhões, Brasil, Índia, Peru, Irã e Chile. Por número de mortos, lideram Estados Unidos (113.820) e Brasil (40.919).

Na Europa, foram notificados quase 460.000 casos desde em 23 de abril, dos quais 34% correspondem ao Reino Unido, 11% à Itália, 9% à Espanha e 8% à Alemanha, segundo um relatório do Centro Europeu de Controle de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) publicado na quinta-feira. O número de novos casos diários e a incidência acumulada em 14 dias estão caindo no continente. Atualmente é 80% inferior ao pico, ocorrido em 9 de abril, segundo o organismo.

O especialista da Sempsph recorda que “se fala pouco” do Oriente Médio, mas o Qatar está em desescalada há quase duas semanas e tem uma incidência acumulada de 350 casos por 100.000 habitantes. O Bahrein supera os 200. A Espanha, para efeito de comparação, começou a relaxar as medidas de confinamento quando a média de suas comunidades estava bastante abaixo de 100 casos, acrescenta. Na Europa surpreende encontrar a Suécia no terceiro lugar entre os países com maior incidência, atrás de Armênia e Belarus. Tem aumentos diários de 2% ou 3% no número de casos, acrescenta o especialista.

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