Mario Vargas Llosa
Tribuna
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Votar ‘bem’ e votar ‘mal’

Votar ‘mal’ é fechar as portas à democracia, como se fez no Peru nas últimas eleições —se é que, na verdade, foram limpas

FERNANDO VICENTE

Os votos foram inventados nas eleições livres para defender a democracia; os ditadores não precisam de eleições, já que as fabricam ao seu sabor. Em relação a uma declaração sobre o votar ‘bem’, um comentarista da televisão deduziu que eu me referia à eleição que perdi em 1990: os que votaram ‘bem’ votaram em mim, enquanto os outros votaram ‘mal’. Não tinha pensado nisso. Mas, por essa e outras críticas —muitas, na verdade—, deduzi que tinha me equivocado. Precisava explicar melhor, não para evitar as críticas, e sim para dar a elas algum fundamento, se é que têm.

A coisa me parece bastante simples: votar ‘bem’ é votar pela democracia; votar ‘mal’ é votar contra ela. É sempre assim, tão claro e evidente? Claro que não. Às vezes, não é fácil saber no princípio; só com o passar do tempo fica claro se o voto foi bom ou mau. Por exemplo, os ingleses —um povo que raramente se equivoca neste assunto— agora vão descobrindo que votar a favor do Brexit, contra a União Europeia, foi um erro e que a democracia mais antiga do mundo ainda pagará caro por isso. Eu pensava, quando disse o que disse, sobretudo no caso da Venezuela. Ainda estava vivo o comandante Chávez. Eu ia com frequência a Caracas, onde tinha muitos amigos. Fiquei assombrado ao ver que havia tantos —entre eles, vários empresários— que, entusiasmados, se preparavam para votar nele. Este os subornava com suas promessas de não mexer em nada do sistema imperante no país; pelo contrário, prometia melhorar as relações do Estado com os empresários, que pareciam acreditar em tudo. “Havia muita corrupção sob Carlos Andrés Pérez”, ouvia-os dizer. “Mas com o comandante Chávez haverá dez vezes mais corrupção, a imprensa estará censurada e ninguém poderá dizê-lo. Além disso, só haverá eleições manipuladas.” “Isso veremos.” E isso de fato se viu: foi a última vez que os venezuelanos tiveram eleições livres.

Votar ‘mal’ é fechar as portas à democracia, como se fez no Peru nas últimas eleições —se é que, na verdade, foram limpas, o que muitos colocamos em dúvida. Enquanto isso, o dólar sobe e quem pode saca suas economias ou investimentos e os leva para o exterior; os cofres públicos se veem cada dia mais órfãos de recursos. Talvez não se chegue ao que o Partido Peru Livre (que apresentou Castillo como candidato à Presidência, pois seu líder, Vladimir Cerrón, estava condenado pelo Poder Judiciário por roubar o Estado) queria, que o Peru fizesse parte do grupo que reúne Venezuela, Cuba e Nicarágua, mas, em todo caso, a situação do país é crítica e poderia ocorrer um golpe de Estado no qual a ditadura militar ficaria no poder dez ou vinte anos, como ocorreu outras vezes. Não seria isso votar ‘mal’, contra a liberdade e o progresso? Não teria sido melhor que os alemães não se entregassem de corpo e alma a Hitler, ganhando as eleições em 1932, com os milhões de mortos da II Guerra Mundial que decorreu da convicção do líder nazista em derrotar a URSS, dominar a Europa e assinar um tratado de paz com a Inglaterra? Os italianos que o faziam por Mussolini, e os espanhóis por Franco na Espanha... Eles votavam ‘bem’?

O resultado de uma eleição pode ser trágico para um país se os cidadãos que votarem não previrem as consequências que o resultado eleitoral poderia ter. Isto não desqualifica as eleições nem o voto popular, que costumam ser, sobretudo nos países ocidentais, responsáveis e democráticos. Mas não é possível dizer o mesmo no mundo em desenvolvimento, onde a cada dia vemos casos como o da Nicarágua, onde o comandante Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, põem na prisão todos os candidatos que poderiam fazer sombra às suas intenções de reeleição. Que valor se pode dedicar a tais eleições, nas quais a vitória dos atuais governantes está garantida de antemão?

Em Cuba, na China, na URSS e nos antigos países satélites eram realizadas eleições pontuais, nas quais ninguém acreditava, pois só serviam aos governantes para ficarem secretamente sabendo do estado de coisas no próprio país. As eleições só fazem sentido nas democracias, enquanto o amplo leque dos partidos de centro e de direita que vão dos socialistas aos conservadores, passando pelos democratas-cristãos e os verdes —expressam suas proximidades e suas diferenças, para estabelecer alianças mais ou menos sólidas que lhes permitam formar um governo. Essas eleições são úteis, é claro, e ninguém gostaria de suprimi-las. Mas as eleições em países onde acaba de ocorrer um golpe de Estado, como agora na Guiné, onde a esmagadora maioria que está por trás dos golpistas se apressa em celebrá-lo manifestando sua adesão, têm um sentido democrático? Tenho dúvidas a respeito e me parece, depois do ocorrido no Peru nas últimas eleições, que seria preciso tomar esse entusiasmo com apreensão. Ficarei contente de que as Nações Unidas, a OEA e seus organismos representativos estejam obrigados a vigiar o desenrolar daquelas eleições antes de as legitimar. Acredito que o ocorrido no Peru e em outros países da América Latina gere muitas dúvidas sobre a validez daquelas missões de vigilância eleitoral, que frequentemente só servem para jogar um verniz de suposta validade sobre eleições de natureza suspeita.

Nada disto significa que as eleições sejam inúteis. Aqui sim faz sentido falar em votar ‘bem’ ou ‘mal’: não tem a ver com os candidatos, mas, sim, com os eleitores; porque são estes últimos os que legitimam eleições ou as transformam em um circo, se votarem, como faziam os eleitores do PRI no México durante quase oitenta anos, numa farsa que servia aos governantes beneficiados com os resultados eleitorais para acessarem o poder e dele se aproveitarem.

A única maneira de assumir uma responsabilidade eleitoral digna desse nome é criando uma sociedade democrática. A solução parece coisa de loucos, e talvez seja. Como pode haver uma sociedade democrática se as eleições não forem verdadeiramente representativas e não nos disserem nada sobre a seriedade e consciência dos eleitores?

O voto útil pressupõe sociedades bem constituídas e convencidas de que a democracia, com seus riscos e perigos, é a melhor de todas as associações possíveis, da qual resultarão o progresso e a justiça para a imensa maioria da população. E nem sequer o voto nestas circunstâncias é sempre válido e legítimo. Em outras sociedades, onde esta opção não está decidida, ou está só pela metade, o voto pode ser extremamente precário, uma maneira de questionar e inclusive atentar contra as bases da sociedade, a qual se pretende mudar radicalmente de sistema. Isto é o que costuma ocorrer quando se vota ‘mal’, para destruir as bases democráticas sobre as quais se sustenta a própria sociedade, transtornando-a e subvertendo-a, a fim de que mude ou se modifique essencialmente. Votar ‘mal’ ou votar ‘bem’ não é casual; é uma maneira de decidir se optou por uma forma de sociedade a democrática —, ou se não está claro ou, como ocorre ainda na América Latina e na África— mas não na Ásia, por exemplo, onde ainda tudo parecia indefinido até pouco tempo atrás. O voto bem-intencionado ou mal-intencionado não é anterior à eleição; é, na verdade, uma confirmação dos passos prévios à suposição da validade segura ou escassa da razão eleitoral. Os países que não estão convencidos da razão de ser “democrática” de sua sociedade costumam votar ‘mal’. Só os que estão convencidos e a favor da democracia votam ‘bem’. Mas não em todos os casos —e sempre ficarão pairando dúvidas a respeito, que só se resolverão quando for muito tarde e já não houver mais nada a fazer.

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