Latinobarômetro reflete o descontentamento social pela pandemia

Relatório de 2021 mostra que a irritação com a política ganha força entre os latino-americanos, cansados pela incapacidade de seus governantes de acabar com a desigualdade. Pesquisa menciona deterioração democrática do Brasil sob Bolsonaro

Manifestantes protestam por melhorias trabalhistas em 14 de outubro, em Buenos Aires.
Manifestantes protestam por melhorias trabalhistas em 14 de outubro, em Buenos Aires.MATIAS BAGLIETTO (Reuters)

Os habitantes de Macondo despertaram. E não foi pela atração que podem causar os artifícios de ciganos, e sim pela chegada de um ser inesperado que mostrou a eles que são tratados como cidadãos de segunda classe por suas elites. A comparação com a célebre história de Gabriel García Márquez é feita pelo Latinobarômetro de 2021, um relatório que há 25 anos mede o pulso político e social da América Latina. Neste ano o estudo concluiu que a pandemia de covid-19 colocou nos celulares de cada pessoa pobre do continente a imagem de outro mundo em que as pessoas são tratadas com maior dignidade, com acesso a uma saúde pública melhor, ajudas sociais, proteção. “O aumento da conexão da internet produz uma revolução social ao mostrar ao mais analfabeto da região que o tratam mal, que é discriminado, que tem direitos e pode exigi-los”, estabelece o relatório. Definitivamente, a covid-19 reforçou a irritação dos latino-americanos com a política, aumentou o descontentamento social e colocou em xeque elites incapazes de acabar com a desigualdade.

Além de um rastro de morte, a pandemia produziu mais 50 milhões de pobres em uma região que já tinha as mais altas porcentagens de desigualdade do planeta. A América Latina acumulou 20% das infecções por covid-19 no mundo e 30% dos mortos, o que demonstrou, de acordo com o relatório, a fraqueza dos Estados latino-americanos para lidar com acontecimentos que colocam em risco suas populações. Mas também abriu os olhos de seus moradores. “A pandemia acaba sendo uma lição de humanidade e de democracia, do direito de ser tratado como igual, sempre que cada pessoa observa como funcionam as sociedades em outras latitudes. Pela primeira vez, maciçamente, o cidadão toma consciência de sua condição e aprende o que fazer com ela”, afirma o Latinobarômetro. O descontentamento se confirma com o repúdio generalizado ao desempenho das elites e uma queda à metade na aprovação dos governantes em toda a região.

“O vírus se espalhou pela região quando a democracia e os governos estavam em seu momento de mais baixa intensidade... O desencanto com a política continua a se aprofundar, apesar do aparente sucesso do surgimento de pequenos segmentos de classes médias pelo crescimento na primeira década do século. Houve uma enorme ingenuidade política ao se pensar que o surgimento dessas classes médias ocorreria simultaneamente ao término das desigualdades. Pelo contrário, produziu um contraste maior com os que ficaram para trás, que são a maioria, e intensificaram as pressões para avançar. A maior parte da região está hoje na classe baixa”, diz o estudo, cujas conclusões são apoiadas nos resultados de mais de 20.000 entrevistas feitas com pessoas dos 18 países entre outubro e dezembro do ano passado.

Nem tudo é saldo negativo. O Latinobarômetro destaca os avanços da região na liberdade de seus moradores, o fortalecimento da democracia e suas instituições e as alternâncias no poder em uma região que durante grande parte do século passado foi governada por ditaduras e autocracias. Agora, 16 países latino-americanos permanecem sendo uma democracia, em que as pessoas fazem uso ativo da liberdade de expressão e mostram seu descontentamento com os governantes, a ponto de conseguir uma mudança de rumo e sua renúncia. É o que aconteceu no Equador, Colômbia, Chile, Bolívia e Peru. Há dois países, entretanto, que retrocederam a ponto de se transformar em “ditaduras”, como o estudo as define. O Latinobarômetro dedica especial atenção à Nicarágua, em que, afirma, o presidente Daniel Ortega estabeleceu um “sultanato” formado por seus familiares, que controlam o poder. “A Nicarágua passa da ditadura de direita com Somoza a uma ditadura de esquerda de quem o derruba, com um breve período democrático entre ambas”, analisa o relatório.

“O ‘sultanato’ dos Ortega – continua – começou a ser construído em 2017, quando nomeou sua esposa Rosario Murillo como vice-presidenta. Ortega governou de 1979 a 1990 e depois de 2007 até hoje. Em sua quarta e última eleição, em 2017, de legitimidade duvidosa, da mesma forma que Evo Morales na Bolívia, não queria largar o poder. A eleição foi, definitivamente, a farsa de uma ditadura familiar. No total, Ortega está há mais de 30 anos no poder, e é o governante latino-americano que mais tempo permaneceu como ‘presidente’. Várias gerações de nicaraguenses nunca viram outro presidente em seu país”.

Ortega desatou em junho uma repressão brutal contra a dissidência, prendendo sete candidatos à presidência, jornalistas, ativistas e empresários levando ao exílio milhares de nicaraguenses. O mandatário pretende se reeleger nas eleições de novembro, que foram denunciadas como ilegítimas por organizações de direitos humanos, os Estados Unidos e a União Europeia. O outro país em crise perpétua é a Venezuela, “com uma ditadura populista mais clássica do que a nicaraguense”, de acordo com o relatório, que também mostra sua preocupação pela crise de institucionalidade causada pelo presidente Nayib Bukele em El Salvador e Jair Bolsonaro no Brasil. “A pandemia não criou nenhuma ditadura na região: as que existem hoje estavam presentes antes de que o coronavírus chegasse. Mas acelerou e visibilizou situações de desigualdade e pobreza antes muito mais ocultas. Desnudou as fraquezas dos Estados, com sistemas sanitários e de segurança social doentes, as fraquezas das elites e dos sistemas de partidos”, conclui o Latinobarômetro.

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