Pedra de toque
Tribuna
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Voltar o olhar para trás

Os bons romances, como o novo livro de Juan Gabriel Vásquez, não facilitam as respostas; cabe aos leitores sensibilizados pela fantasia depositada nessas páginas saber como responder

fernando vicente

O romance Volver la vista atrás [Voltar a olhar para trás, sem tradução], do colombiano Juan Gabriel Vásquez, que acaba de receber um importante prêmio literário no México, terá muitos leitores. É um dos grandes romances já escritos na língua espanhola, e seu autor nos diz que, diferentemente de outros, tudo o que nele ocorre aconteceu na vida real, o que lhe deu muito trabalho na hora de escrevê-lo. Eu acredito que nem mais nem menos que no caso das ficções inventadas, porque pegar histórias “reais”, como fazem muitos romances, não aumenta nem diminui o esforço de escrevê-las. O difícil é a maneira de contá-las para que pareçam fictícias, que é o que sempre pedem os leitores dos romances, e ele a encontrou, relatando seus episódios em crônicas muito próximas, que dão a impressão de confissões e segredos confiados aos leitores, como se divulgassem a intimidade de uma vivência familiar preservada que, de repente, graças a essa magia que são os bons romances, fosse divulgada a todo mundo.

O personagem de Fausto Cabrera, um espanhol filho da Guerra Civil que fugiu para a Colômbia, onde se tornou documentarista, teve uma vida difícil e áspera, como quase todos os exilados, e foi cineasta, como seu filho Sergio, que é um dos personagens principais desta história; a outra é sua irmã Marianela. A aventura vivida por ambos é que é excepcional. Seu pai foi cineasta, além de militante político, e este é também o caso de seu filho Sergio, a quem a cinemateca de Barcelona homenageia exibindo vários filmes seus, além de entrevistá-lo. Aí é onde surgem as incríveis surpresas. Porque Sergio não foi apenas um notável cineasta, autor, entre outros filmes, da muito estimada e discutida A estratégia do caracol. A vida dos dois irmãos sofreu uma guinada espetacular quando seu pai descobriu o maoísmo, foi um maoísta colombiano da vanguarda e decidiu educar seus dois filhos, Sergio e Marianela, na China Popular, fazendo dos dois jovens, quase duas crianças, dois guardas vermelhos, como os milhões de meninos e meninas a quem as convicções de Mao Tsé-tung converteram naqueles nos soldados que transformariam o gigante chinês no instrumento da revolução mundial, substituindo a URSS nesta tarefa.

As páginas que narram a aventura dessas duas crianças na China Popular revolucionária, agitada pelas ideias e sobressaltos de Mao, são comovedoras; as enormes dificuldades que precisam superar para se adaptar ao meio tão diferente daquele onde se criaram, adotando uma língua que estava a grande distância da sua, assim como os rigorosos costumes e a instrução militar que os transforma em pequenos soldados, são dilacerantes e exaltantes, justamente porque tudo aquilo está narrado sem dramalhões nem misericórdia, de maneira imparcial e com absoluta sobriedade. Assim é história da família, porque, da mesma forma como o pai, a mãe também milita naquela brigada, e o entendimento e o espírito que reina entre esses quatro personagens é invejável, sem rebeldias nem protestos, de total obediência. É impossível não admirar as páginas que narram aqueles dias, meses e anos em que os pais, lá longe, na Colômbia, traduzem suas convicções maoístas em ações, e em que, na China, aquelas crianças se metamorfoseiam e nascem de novo, guiados pelas cartas de seus pais e por seus novos guias, que os reeducam e transformam, para que sejam, lá no seu país, os exemplos a seguir por todos os jovens e crianças como eles.

São páginas muito belas, de uma luta que se adivinha, que está oculta para que seja mais vívida, uma luta íntima e secreta, inclusive entre os próprios irmãos, que raramente falam daquilo que vivem, e esse secreto heroísmo é, para mim, o melhor do livro, embora depois, quando aquelas crianças passam a ser jovens, retornam à Colômbia e se alistam, seguindo as orientações de seus pais, nas guerrilhas maoístas, os fatos sejam mais espetaculares e dramáticos. Mas estas páginas, que narram a secreta aventura daquelas crianças, sua transformação profunda, sua mudança de pele e de alma, estão admiravelmente narradas, com uma frieza deliberada, para que tudo aquilo se destaque e se transforme em heroísmo secreto e cotidiano. Até que chega a remota voz do pai —ainda não sei se admirá-lo ou odiá-lo—, em uma carta que leva semanas ou meses para alcançar seu destino, indicando que terminou o período de formação, que agora se trata de pôr em prática o que aprenderam, retornando à Colômbia e militando na guerrilha.

Ali surgem os conflitos, pela primeira vez. As experiências dos dois irmãos os prepararam para o heroísmo, não para a rotina cotidiana feita de esperas intermináveis, de emboscadas e fraquezas, talvez até de traições, nas quais há comandantes que não só descumprem seus papéis, contraem vícios, acostumam-se a esses padrões de direção e tratam seus soldados aos pontapés. Os irmãos, que estão separados, sofrem o inexprimível com aquela experiência da luta que é uma longa paciência, feita de rotinas asfixiantes e a silenciosa suspeita de terem se equivocado. Há balas demais e até os dois jovens, que entretanto não renunciam ao compromisso revolucionário, fogem dali, em uma forma de decepção discreta, recalcitrante, embora para ele os filmes sejam uma redenção, e para ela a ação social uma forma de se redimir e continuar militando.

As conclusões não estão claras, nem Juan Gabriel Vásquez se atreve a exibi-las. Mas elas estão aí, nos anos gastos naquela luta sem término, em todos os mortos e feridos, na inesgotável guerra em que um país se vai extenuando, enquanto as vítimas crescem e se multiplicam, sempre em vão. Cada leitor deve tirar suas próprias conclusões, certamente. Aqueles dois jovens estão agora longe de serem aqueles que foram, talvez não arrependidos, embora agora já sejam diferentes, mais lúcidos e mais independentes de tudo aquilo em que acreditaram e foram se tornando. O romance está aí, com seu conglomerado de experiências, e cada um deve tirar suas próprias conclusões: até quando continuar matando? O sangue e os cadáveres resolvem os problemas? Há quem acredite apaixonadamente que sim. Entretanto, não é tão simples tirar estas conclusões, sobretudo para quem viveu a experiência e recebeu balas nas costas, como ocorreu com Marianela, a quem elas ainda apitam ao passar pelos sistemas de segurança nos aeroportos, ou como aconteceu com Sergio, naquela vez que hesitou. Estas conclusões não serão fáceis, é preciso medi-las e tirar as respostas devidas, que serão sempre contraditórias.

A obra de um romancista não tem por que substituir os leitores, dando-lhes soluções fáceis, liberando-os da tarefa de refletir e decidir por sua própria conta o que fariam se confrontados àqueles dilemas com os quais Sergio e Marianela se debateram. Ambos estão vivos, felizmente, e pelo menos um deles, em seu trabalho como cineasta, deve ter se empenhado muito a fundo. Mas o destino de Marianela me deixa em suspense e apavorado, por tudo aquilo a que sobreviveu, educando-se para ser uma guarda vermelha fora do comum. Sente que cumpriu? Está contente consigo mesma? Frustrada, talvez? É impossível saber, lendo este romance excepcional. Mas aí começa o trabalho secreto que suas páginas nos deixam na memória. O que teria feito você no caso dela? Arrepender-se ou perseverar? E até que ponto? Até transformar o mundo inteiro em um bólido flamejante do qual nada nem ninguém pode escapar? Os bons romances não facilitam as respostas; cabe aos leitores sensibilizados pela fantasia depositada nessas páginas saber como responder. Cumprindo como cumpriu, o autor daquelas páginas excepcionais pode ficar em paz.

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