Violência machista
Tribuna
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A legitimidade da luta contra o assédio sexual

Apesar de ser uma ideia razoavelmente moderada afirmar que a violência de gênero é inaceitável, responsabilizar homens violentos soa para muitos ir longe demais

Manifestantes escrevem "farta" em seis corpos em protesto contra a violência machista em Montevidéu, no dia 8.
Manifestantes escrevem "farta" em seis corpos em protesto contra a violência machista em Montevidéu, no dia 8.MARIANA GREIF (Reuters)
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A experiência com mulheres vítimas de assédio sexual nos mostra que a decisão por denunciar publicamente um abusador é baseada, quase sempre, em um único fator: “denunciei porque não tinha outra opção, porque não conseguia mais suportar aquela situação”, nos repetem diferentes mulheres todos os dias. É admirável o quão fortes são as mulheres que decidem expor a violência sexual e nomear seus agressores. Mas nenhuma de nós deveria precisar ser forte desse jeito. Se pudéssemos escolher, gostaríamos de poder viver uma vida digna, sem violência. Gostaríamos de trabalhar, de andar pelas ruas, de amar, de existir no mundo sem conviver com o risco. Lutamos porque não lutar não é uma opção.

Mesmo nestas condições, a luta das mulheres tem sempre de passar por uma espécie de teste de legitimidade. Não basta provar que houve violência; precisamos provar que é relevante enfrentar as estruturas que nos oprimem. Precisamos nos justificar a todo tempo, justificar a relevância da nossa luta diante de parâmetros externos a nós, parâmetros sustentados, inclusive, pelos próprios responsáveis —direta ou indiretamente— pela nossa dor. Precisamos convencer aqueles que podem fazer algo por nós de que isso lhes convém e deve ser prioridade.

E não só. Precisamos também provar diariamente a legitimidade das estratégias de luta que desenvolvemos. Quando mulheres expressam demandas, mesmo as mais básicas, são muitas vezes caracterizadas como radicais. Apesar de ser uma ideia razoavelmente moderada afirmar que a violência de gênero é inaceitável, responsabilizar homens violentos soa para muitos ir longe demais. Quando o tema é a necessidade de ambientes de trabalho dignos, seguros e saudáveis, é possível encontrar certo consenso no repúdio ao assédio sexual. Mas homens que detêm poder e mulheres que aprenderam a performar bem sob suas batutas se assustam com a possibilidade de atribuir responsabilidades. Lideranças se sentem confortáveis ao falar de assédio em abstrato, mas são refratárias quando têm de agir com diligência frente a casos concretos.

Nós, mulheres, só podemos organizar a nossa luta pelo fim do assédio sexual no local de trabalho, portanto, se: 1) justificamos a sua pertinência para além da nossa própria dignidade; e 2) se tornamos a defesa do nosso bem-estar uma pauta inofensiva, ou seja, temos que combater práticas violentas sustentadas por estruturas de privilégio sem ameaçar nenhuma estrutura de privilégio existente. Existe perversidade maior?

A todo momento, escutamos conselhos, em geral, não solicitados, sobre como nos defender com pragmatismo. Há quem sugira um léxico domesticado, que camufla verdades difíceis e repete palavras esvaziadas de sentido. Dizem que, para convencer o mercado da importância de se enfrentar o assédio sexual no ambiente de trabalho, é preciso mostrar que esta prática pode causar prejuízos às empresas e organizações. Afirmam que, se você quiser falar sobre violência e trabalho, é melhor usar termos palatáveis, que não gerem sobressaltos no mundo corporativo. A reflexão dolorida e urgente sobre gênero, raça e classe deve ser envelopada como “ações de diversidade”. O exame de consciência que as lideranças deixam sempre para depois deve ser batizado de “diagnóstico sobre diversidade e inclusão”. Gestores não devem ser responsabilizados, devem ser “sensibilizados”, “capacitados”.

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Há também quem recomende a adoção de argumentos cujo foco é o custo-benefício. Justificam a necessidade do enfrentamento do assédio sexual no local de trabalho na ponta do lápis: a violência de gênero gera prejuízo, lideranças precisam assegurar lucros e o assédio sexual não contribui para suas metas. Ponderam que um ambiente de trabalho digno, seguro e saudável para as mulheres é, acima de tudo, um bom negócio para os homens que as lideram.

Quem repete esses argumentos falsifica a realidade —seja por ingenuidade, seja por oportunismo. A bem da verdade, o mundo corporativo sempre conseguiu conciliar práticas violentas sistêmicas com a produção sustentada de lucros. Há infinitos exemplos de casos graves de assédio sexual no ambiente de trabalho ignorados por lideranças negligentes justamente porque os assediadores eram bem-sucedidos e, profissionalmente, e conseguiam produzir lucros vultosos.

A adoção de um léxico domesticado e do mantra do custo alto da violência de gênero são estratégicas contraproducentes e míopes. Contraproducentes porque parecem ser maneiras realistas de lutar, mas não o são. São estratégias de luta que fazem perdurar a percepção já longeva de que o destino das mulheres é fatalmente o de negociar com seus algozes a própria alforria. São planos de ação que partem da premissa de que devemos mirar apenas em ganhos incrementais oferecidos de bom grado por lideranças momentaneamente comovidas, mas não verdadeiramente convencidas. Míopes porque esse discurso se esquiva de algo fundamental: a luta das mulheres implica, necessariamente, uma disputa ética, estética e política. Quem busca atalhos rumo à equidade presta um desserviço. Destitui a luta das mulheres de sua potência.

O que mudou? Por que lideranças andam mais dispostas a falar de assédio sexual, repensar culturas institucionais e experimentar novas práticas? Não é o assédio sexual que, de repente, passou a causar prejuízo às empresas; são as mulheres que foram à luta, adotaram estratégias contundentes, sem receio de serem deslegitimadas, tachadas de radicais e intransigentes. Conseguimos fazer tamanha pressão que até interlocutores hostis às pautas feministas se veem hoje constrangidos e resignados diante dos novos tempos.

Sabemos que não vamos conseguir jamais convencer os legatários das estruturas que nos oprimem a abrir mão delas. Empresas e organizações precisam enfrentar o assédio em seus respectivos locais de trabalho por um motivo urgente: a luta das mulheres mudou o mundo e hoje as mulheres decidem denunciar seus abusadores porque não é mais possível deixar de fazê-lo. Por isso, não faz sentido diluir nossa luta a um pitch atraente ao mundo corporativo. Não nos interessa transfigurar nossas demandas históricas a tal ponto que elas se tornem demasiadamente inofensivas ―palatáveis para o mercado, mas irreconhecíveis para nossas companheiras.

Mayra Cotta, advogada, professora na New School e sócia da Bastet Compliance de Gênero.

Manoela Miklos, cientista política e ativista feminista, é doutora em Relações Internacionais, integra a diretoria da organização NOSSAS e é sócia da Bastet Comoliance de Gênero.

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