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Um em cada quatro nas Américas não acredita que a democracia seja a melhor forma de governo

De acordo com o Barômetro das Américas, a confiança no sistema democrático está em erosão na região, que entra em um ciclo eleitoral importante

Jorge Galindo
Termómetro de las Américas presidente Nayib Bukele
O presidente salvadorenho Nayib Bukele participa de uma cerimônia do dia da independência no Palácio Presidencial, em 15 de setembro.Reuters

No total, cerca de 25% dos cidadãos do continente americano não concordam que a democracia seja melhor do que qualquer outra forma de governo, segundo dados do último Barômetro das Américas, um levantamento realizado a cada dois anos pelo Projeto Latino-Americano de Opinião Pública (Lapop, na sigla em inglês), da Universidade Vanderbilt. O porcentual é menor no norte do continente e também no Uruguai, Costa Rica e Chile. Mas também é muito maior no Haiti (49% dos consultados não acreditam que seja o melhor sistema, enquanto 33% discordam com veemência), em Honduras (37%) e no Paraguai (35%). A pesquisa levanta questões-chave que revelam os pontos mais fracos do sistema democrático no continente, a começar pela credibilidade que mantém entre os cidadãos. A maioria, de fato, continua a respaldar a democracia. Mas o entusiasmo é baixo (o país que mais acredita na democracia como sistema superior é o Uruguai: 44%), e o desencanto aumenta em todos os países onde pôde ser feita uma comparação com ciclos anteriores.

Honduras, Colômbia, Peru e Argentina concentram o maior crescimento na porcentagem de cidadãos que se declaram bastante ou fortemente em desacordo com a superioridade democrática. Na primeira, o indicador quase triplicou desde 2008, possivelmente em paralelo com a deterioração institucional que o país vem sofrendo. Mas mais impressionantes são os aumentos nos três seguintes na lista, marcados por crescente polarização (especialmente a Colômbia e a Argentina) ou instabilidade institucional (que dominou um Peru com quatro chefes de Estado nos últimos 18 meses). A este grupo se junta o Brasil, que, com a Colômbia, terá eleições cruciais no próximo ano em um ambiente social profundamente dividido. Peru e Argentina acabam de sair de turbulentas jornadas eleitorais.

Para explicar esse declínio generalizado, Noam Lupu, professor e diretor associado do projeto Lapop na Vanderbilt, alerta que há muitos fatores em jogo. “Me parece que um fator-chave são os escândalos de corrupção dos últimos anos, a começar pelos casos relacionados com a Oderbrecht, passando pelos escândalos de vacinação contra a covid-19 e, recentemente, os escândalos dos Pandora Papers”, acrescenta. A própria pesquisa mostra, de fato, que mais de 60% dos cidadãos da América Latina e do Caribe consideram que uma maioria, quase todos ou todos os políticos são corruptos.

A esta visão generalizada, partilhada com maior intensidade pelas pessoas que alcançaram um maior nível de escolaridade, se soma a pessoal: existe uma maior vitimização declarada de solicitação de suborno em comparação com a onda anterior da pesquisa (2018-19), que se acentua entre as mulheres, os jovens e os de maior renda e escolaridade.

Diante dessa evolução, não é de estranhar que tenha aumentado a proporção da população que na América Latina e no Caribe estaria disposta a aceitar um golpe do Executivo durante uma crise. É especialmente preocupante o caso de El Salvador, onde essa tolerância abarca a maioria (51%), sem dúvida marcada pela ainda elevada popularidade de um líder como Nayib Bukele, cuja ação perante os poderes Legislativo e Judiciário tem sido de intimidação ou diretamente uma gradual desarticulação institucional.

De uma perspectiva mais estrutural, a Colômbia (onde um terço dos cidadãos toleraria um Governo exclusivo do Executivo) e o Peru (onde a cifra sobe para 45%) parecem constituir uma dupla definida que foge da linha geral na região, a qual correlaciona desacordo com a democracia e o grau de funcionalidade dela em sua definição mais ampla: a que inclui todos os tipos de liberdade, e não só a de voto. Em certo sentido, é de esperar que na Nicarágua, Honduras ou no próprio Haiti tenham uma visão mais erodida de sistemas que não são mais democráticos, embora se disfarcem disso, como é o caso do regime de Daniel Ortega e a recente votação a seu favor, com a oposição exilada ou presa, ou nações cuja disfuncionalidade da democracia é tamanha que termina com um presidente assassinado, como aconteceu no Haiti há poucos meses. Da mesma forma, é natural que onde a democracia é mais aberta, o apoio ao conceito seja superior (como no Uruguai, Chile e Costa Rica). No meio está toda uma gama de cinzas em que, como regra geral, a abertura do sistema acompanha um menor desacordo quanto à sua superioridade teórica. Mas a Colômbia e o Peru rompem essa dinâmica: têm cidadãos mais insatisfeitos do que se poderia esperar considerando seu grau de abertura (intermediário e imperfeito, mas de modo algum inexistente).

Não é surpresa que ambas as nações tenham protagonizado alguns dos episódios de maior revolta na região nos últimos meses. O ciclo de instabilidade peruano não terminou com a eleição do outsider Pedro Castillo, que em apenas cem dias teve que mudar metade de seu Governo e hoje vê cindir-se um dos principais pilares de sustentação de sua eleição, representado no Legislativo pela extrema esquerda do partido Peru Livre, que aparentemente se sente traída. Na Colômbia, os protestos de novembro de 2019 ressurgiram em abril e maio de 2021, agravados por um contexto que combina a percepção de abusos policiais durante as manifestações, uma grave perda de poder aquisitivo nas camadas médias-baixas dos trabalhadores urbanos e a erosão de credibilidade de um Governo com baixos índices de aprovação. Todos esses elementos pavimentam o caminho para a eleição legislativa e presidencial de 2022 na qual, por enquanto, a única candidatura clara é a do anti-establishment, de esquerda, representada pelo atual senador, ex-prefeito de Bogotá e antes ainda ex-guerrilheiro Gustavo Petro, que almeja articular em uma mesma chapa todos os descontentamentos sistêmicos.

A dimensão geracional

Petro tem mais sucesso do que seus rivais entre os mais jovens, como também teve Pedro Castillo no Peru, e não é por acaso que a falta de entusiasmo pela democracia é mais aguda entre as gerações mais jovens. É difícil separar a desconfiança em relação a aspectos específicos do funcionamento atual de uma posição que rejeite de vez qualquer formato de democracia, mas no caso das novas gerações há indícios para pensar que estamos mais para a primeira do que a segunda posição.

Por outro lado, a desconfiança em relação ao núcleo que embasa o sistema democrático (o processo eleitoral) é notavelmente maior entre as pessoas com 35 anos ou menos. Uma minoria na América considera que os votos são sempre contados “de forma correta e justa” em seu país. Isso inclui tanto democracias plenas como imperfeitas, fracassadas ou seguindo um rumo autoritário. As diferenças são importantes: segundo o Lapop, “69% dos uruguaios acreditam que os votos são sempre contados corretamente, mas apenas 18% pensa assim na Colômbia, Guiana e Jamaica”. Estes três últimos países se enquadrariam na categoria de democracias mais ou menos imperfeitas, de modo que uma certa tendência pode ser inferida desses dados: mesmo em várias delas, os jovens acreditam menos que o mecanismo central do sistema funciona de maneira justa.

Mas é igualmente verdade que só para os mais novos valeria a pena abrir mão das eleições em troca de um sistema diferente que garantisse rendimentos e serviços básicos. Esse dado pode ser interpretado tanto como uma depreciação da característica central da democracia (canalizar o conflito inevitável em qualquer sociedade por meio de instituições e processos acordados) como uma consequência do aspecto anterior: se se considera que as eleições são fraudulentas, é mais provável que você esteja disposto a renunciar a elas.

Uma pista que embasaria esta última tese é que a recusa em trocar essa mesma garantia ideal de renda e serviços pela liberdade de expressão suscita um apoio notavelmente menor em todas as gerações, a tal ponto que em todas as faixas etárias entre dois terços e três quartos preferem não desistir desta última. Se entendermos o voto (idealmente) como uma síntese institucionalizada da expressão individual, ficamos com a impressão de que a rejeição é ao funcionamento atual, mais do que, no geral, à democracia. “Sabemos que os mais jovens tendem a ser mais abertos à mudança e por isso não é de estranhar que, se não valorizam as instituições democráticas do status quo, também rejeitem o sistema” de funcionamento em que estão inseridos, diz Lupu. Ele acrescenta ainda que outro fator são as redes sociais e seu uso. “Descobrimos em pesquisas anteriores que aqueles que consomem mais informações políticas por meio das redes sociais tendem a ter opiniões mais negativas sobre as instituições democráticas —como a condução das eleições— e, portanto, a diferença geracional pode ser, pelo menos em parte, um efeito não tanto da idade, mas dos meios de informação que as diferentes faixas etárias utilizam”.

O novo Barômetro das Américas mostra também que, segundo o Lapop, “as grandes maiorias da região preferem a democracia direta à eleição de representantes”. Aqui está mais uma evidência de desconfiança em torno do mecanismo e, possivelmente, também dos próprios representantes. No conjunto, esses dados apontam grandes rachaduras na (nunca de todo firme) arquitetura democrática no continente que foi pioneiro no desenvolvimento pleno desse sistema. Mas também indica possíveis vetores para tapá-las, pelo menos em países que ainda não caíram sob o jugo autoritário: reconstruindo a confiança nos mecanismos e nas pessoas, com as reformas necessárias para isso e com um público preferencial entre as novas gerações.

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