Pandemia de coronavírus

Capital do Chile volta à quarentena, apesar dos altos índices de vacinação contra o coronavírus

Cerca de 2,8 milhões de pessoas do grupo em condições de ser imunizado no país optaram por não se vacinar contra a covid-19. UTIs estão à beira do colapso

Pessoas com máscaras percorrem o centro de Santiago (Chile) em 3 de junho, antes de a cidade voltar a entrar em quarentena.
Pessoas com máscaras percorrem o centro de Santiago (Chile) em 3 de junho, antes de a cidade voltar a entrar em quarentena.MARTIN BERNETTI / AFP

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Na madrugada deste sábado, a capital do Chile voltou a entrar em confinamento. Toda a região no entorno de Santiago começa com a medida de restrição de mobilidade num momento em que 57,8% da população-alvo do país completou seu esquema de vacinação contra a covid-19, mas as UTIs estão à beira do colapso. De acordo com os últimos dados da subsecretária de Saúde, Paula Daza, a ocupação de leitos para os casos graves chega a 96% em todo o país. Mas a grande maioria dos pacientes em estado crítico não está imunizada e há uma diminuição preocupante na idade dos pacientes admitidos em leitos de UTI. Triplicou o número de pessoas com menos de 50 anos em UTIs em relação ao pior momento do ano passado, segundo o ICOVID, uma iniciativa liderada pela Universidade do Chile, Pontifícia Universidade Católica do Chile e Universidade de Concepción com base em dados oficiais. As mortes chegam a 38.685, entre confirmadas e suspeitas.

A região da capital chilena é formada por 52 municípios que, juntos, ficaram em quarentena por 31 dias, entre março e abril deste ano. Algumas áreas, como Peñalolén, no sopé da cordilheira, e a popular Puente Alto, no sul da cidade, nem conseguiram sair da medida de restrição antes de se iniciar este novo surto. Com oito milhões de habitantes (40% da população do país), Santiago tem agora apenas 42 leitos de UTI disponíveis na rede integrada do sistema público e privado, segundo a Sociedade Chilena de Medicina Intensiva (Sochimi).

Na sexta-feira, as ruas ficaram lotadas de carros e congestionadas desde o meio-dia. Em shopping centers, como o popular Costanera Center, no município de Providencia, as pessoas faziam longas filas para poder entrar e fazer as últimas compras, apesar da alta circulação do coronavírus, que novamente levará ao fechamento das escolas em toda a região. Hoje, 60% do PIB nacional está sendo afetado pela quarentena e, neste domingo, 13 das 16 regiões do país realizarão o segundo turno de suas primeiras eleições democráticas para governadores em meio a uma nova onda que pode afetar fortemente a participação eleitoral.

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O Chile administrou cerca de 20 milhões de doses, sobretudo da chinesa Coronavac, também aplicada no Brasil. De acordo com o relatório do Ministério da Saúde, a vacina é 80% eficaz na prevenção de mortes (após 14 dias da segunda dose), 89% em evitar internações em unidades de terapia intensiva, 85% em prevenir internações e 67% em evitar o contágio sintomático da doença. O processo de imunização avançou rapidamente desde o início em fevereiro e os jovens de 21 anos serão convocados na próxima segunda-feira. Enquanto isso, a semana seguinte concluirá a imunização dos maiores de idade e dará início à dos jovens e 12 a 17 anos, que serão protegidos pela vacina da Pfizer. Embora as vacinas estejam disponíveis em todo o país, graças ao robusto Programa Nacional de Imunização e aos esforços do Governo de Sebastián Piñera para estocar doses, como nenhum outro país da região, 2.815.805 pessoas chamadas voluntariamente para serem vacinadas contra a covid-19 optaram por não comparecer. As maiores lacunas estão na faixa dos 30 a 39 anos (852.647 não apareceram) e entre 23 e 30 anos (782.614), segundo o Departamento de Estatística e Informações em Saúde do ministério.

As autoridades de saúde do governo atribuem esse novo surto a vários fatores. A subsecretária Daza explicou na quinta-feira que a América do Sul está sendo duramente atingida pela pandemia, tanto pelo número de casos como pelas mortes. Ela se referiu à crise sanitária de 16 meses, à diminuição da percepção de risco e à chegada de novas variantes do vírus, e explicou que, embora em nível nacional os casos tenham se estabilizado, são preocupantes a situação em Santiago e o pequeno número de leitos de UTI disponíveis. A chegada do inverno não ajuda, pois as pessoas tendem a se trancar em espaços fechados por causa do frio e há menos ventilação nos ambientes.

Os pesquisadores fornecem elementos adicionais para explicar o que está acontecendo no Chile, o país com o maior número de vacinados na América Latina e que, ainda assim, não consegue deter a onda de infecções. O epidemiologista Gabriel Cavada, especialista em bioestatística, aponta os atrasos no processo de vacinação: “Cerca de 90% dos hospitalizados não estão imunizados”, afirma o acadêmico da Faculdade de Saúde Pública da Universidade do Chile, que atribui o fato, em parte, ao “estado insurrecional” vivido pela sociedade chilena e à desconfiança que tem de todos os dirigentes. Em sua opinião, “a esta altura, seria necessário estabelecer uma certa obrigatoriedade da vacinação, ainda que pareça totalitário e, por exemplo, condicionar o auxílio social à imunização”.

Ele também cita um segundo fator: que a autoridade sanitária não transmitiu corretamente às pessoas que a vacina serve mais para evitar quadros moderados e graves da doença, e não tanto para prevenir a infecção e os contágios. Cavada afirma que no Chile há espaço para o crescimento da pandemia e que as medidas restritivas como a quarentena há muito não cumprem seu objetivo. “A que estamos iniciando em Santiago neste sábado será totalmente inútil”, diz o pesquisador, que optaria por um sistema de controle viral em menor escala.

O acadêmico da Universidade do Chile concorda com as autoridades do Ministério da Saúde em que o vírus tem forte componente sazonal, já que, como o Chile está entrando no inverno, com baixas temperaturas, as pessoas se aglomeram dentro das residências e se contagiam em suas casas. Cavada diz que o novo surto não tem relação com a eficácia da vacina da Sinovac, a principal adotada no país: “É uma das com melhor qualidade e, pelo menos no Chile, não há registro de trombose. Além disso, por ser composta por vírus atenuado, tem uma probabilidade muito maior de conter mutações”. Por isso, ele descarta as comparações com países como Israel, que vacinou com a Pfizer: “Israel completou seu processo de vacinação quando começou seu verão”, diz. Para o especialista, o Reino Unido vive hoje o que deve acontecer no Chile em três meses, desde que seja possível vacinar 80% ou 90% da população-alvo (15 milhões dos 18 milhões de habitantes) e superar a “inércia antivacinal”, diz Cavada.

Nestes 16 meses de pandemia, o Chile multiplicou o número de leitos de UTI disponíveis (de 1.200 para 4.500 aproximadamente), mas não pode continuar a aumentá-los porque não tem pessoal de saúde suficiente, além de estarem exaustos com tanta pressão. O Chile assinou contratos para cerca de 40 milhões de doses que permitiriam vacinar duas vezes toda a população do país, em que ainda não chegou a variante Delta, altamente contagiosa.

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