Como os EUA conseguiram acelerar sua campanha de vacinação em massa

A primeira potência mundial, que fracassou na contenção do vírus, obtém sucesso na corrida da imunização após uma bilionária aposta em projetos incipientes

Andrea Morre (esq.) aguarda com sua mãe, Alma Penn, para se vacinar nesta sexta-feira no colégio Whitney M. Young de Louisville (Kentucky)
Andrea Morre (esq.) aguarda com sua mãe, Alma Penn, para se vacinar nesta sexta-feira no colégio Whitney M. Young de Louisville (Kentucky)Jon Cherry (AFP)

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Em centros médicos e hospitais, em farmácias, colégios e até campos de beisebol, de segunda a domingo e inclusive feriados, a campanha de vacinação dos Estados Unidos acelerou até aplicar cerca de três milhões de injeções diárias. Desde seu início, em dezembro, 101,8 milhões de pessoas (30% da população) receberam ao menos uma dose. Desse total, quase 58 milhões já estão completamente vacinadas. São frequentes as notícias de Estados que ampliam o leque de cidadãos que podem optar pela inoculação, reforçando a sensação de que o ritmo desta longa e dolorosa crise finalmente está mudando. Nova York começou a vacinar os cidadãos na faixa dos 30 na semana passada e incluirá os maiores de 16 a partir desta terça. O Texas já ampliou a cobertura para qualquer adulto, e a maioria dos Estados o fará antes do final de abril.

“Não conheço nenhum especialista em medicina, virologia ou vacinas que tenha podido prever que, em apenas um ano, teríamos três vacinas eficazes e que já haveria centenas de milhões de pessoas vacinadas no país. É algo milagroso e surpreendente” explica pelo telefone Robert Wachter, chefe do Departamento de Medicina da Universidade da Califórnia.

Os Estados Unidos, que fracassaram na contenção do vírus e superaram a cifra dos 550.000 mortos, fizeram uma demonstração de poderio científico e econômico na corrida das vacinas. A chave do sucesso (até o momento) é a combinação de diversos fatores, que vão da injeção bilionária de recursos do Governo federal, que ousou dividir os riscos com a indústria farmacêutica, até uma lei que permite a intervenção na produção das fábricas datada da Guerra da Coreia, passando por alianças contra natura entre empresas rivais. Também inclui algumas contribuições individuais tão made in USA quanto a da estrela do country Dolly Parton e, diga-se de passagem, um arremate com “a América primeiro” na política comercial.

A chamada Operation Warp Speed (cujo nome alude à fantasia, emprestada da ficção científica, de viajar mais rápido que a velocidade da luz) foi, até para os especialistas mais críticos de Donald Trump, um acerto da Administração republicana dentro de uma gestão errática da pandemia. Consistia, basicamente, em entregar mais de 10 bilhões de dólares (57 bilhões de reais) a um grupo de empresas farmacêuticas para que pesquisassem e desenvolvessem as vacinas, com colossais pré-acordos de compra sem nenhuma garantia de eficácia. Para Amesh Adalja, especialista em doenças infecciosas da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, “esse é provavelmente o fator que fez a maior diferença entre os EUA e muitos outros países, embora Reino Unido e Israel estejam vacinando mais rápido. O Governo garantiu doses de vacinas quando ainda não se sabia se funcionariam, e algumas não foram nem sequer aprovadas pela FDA [a agência de medicamentos e alimentos dos EUA].”

Em julho, por exemplo, o Governo anunciou o acordo para a compra de 100 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Pfizer-BioNTech no valor de 1,95 bilhão de dólares (cerca de 11 bilhões de reais), com a opção de comprar outras 500 milhões. O imunizante da Moderna é o que recebeu maior financiamento público. Promovido em colaboração com pesquisadores do Governo, obteve cerca de 955 milhões de dólares (5,4 bilhões de reais) para seu desenvolvimento e 1,5 bilhão de dólares (8,5 bilhões de reais) para fabricação, distribuição e entrega de 100 milhões de doses. (Foi nele que Dolly Parton também colocou seu grão de areia). Para a Johnson & Johnson, o Governo entregou mais de 450 milhões de dólares (2,5 bilhões de reais) para desenvolvimento e um bilhão de dólares (5,7 bilhões de reais) para produção e distribuição, com um pedido de 100 milhões de doses incluído nessa quantia. AstraZeneca e Oxford receberam uma injeção de 1,2 bilhão de dólares (6,8 bilhões de reais) para pesquisa, produção e pré-pedido de 300 milhões de doses. A Sanofi-GSK recebeu 2 bilhões de dólares (11,4 bilhões de reais) e a Novavax, 1,6 bilhão de dólares (9 bilhões de reais). Essas duas últimas ainda esperam ter sua primeira vacina no mercado. “Tudo isso poderia ter sido um escândalo se as vacinas não tivessem funcionado, mas deu certo”, afirma Wachter.

Lei da Guerra da Coreia

Os primeiros lotes foram fabricados com a ajuda da Lei de Defesa da Produção, que data da Guerra da Coreia (1950) e concede ao presidente dos EUA o poder de obrigar as empresas a aceitar e priorizar contratos necessários para a defesa nacional. A pandemia levou a Casa Branca a invocá-la, primeiro para acelerar a produção de máscaras e depois para garantir certos materiais para a fabricação da vacina.

Ainda assim, a primeira fase da distribuição teve uma lentidão decepcionante. A Administração de Trump havia se comprometido a terminar 2020 com 20 milhões de cidadãos imunizados, e a cifra mal superou os 2,5 milhões. Falhou o que os especialistas chamam de “a última milha da vacinação”, ou seja, o trecho que vai da vacina à pessoa vacinada. “Enfatizou-se muito a compra, mas depois não se planejou bem a distribuição aos Estados, assim como o pessoal e o financiamento necessários para aplicá-la”, afirma o professor Adalja, da Johns Hopkins.

Com a nova Administração democrata, inaugurada em 20 de janeiro, os EUA pisaram no acelerador. Por um lado, reforçaram as ajudas aos Estados e multiplicaram os centros de vacinação federais, apostando na rede de farmácias de bairro. Por outro, as autoridades e o sistema em seu conjunto haviam aprendido a fazer melhor após os primeiros meses. Logo após a chegada de Biden à Casa Branca, a Moderna anunciou que poderia entregar 200 milhões de doses até o final de maio —um mês antes do previsto.

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A equipe de Biden também tomou duas decisões cruciais. Recorreu de novo à Lei de defesa da Produção para que a Pfizer obtivesse maquinaria necessária para expandir sua fábrica de Kalamazoo (Michigan) e pressionou um provedor da J&J para que trabalhasse a todo vapor e recuperasse a demora que a empresa acumulava por problemas na embalagem do produto. Além disso, a equipe de Biden auspiciou uma aliança singular entre a Pfizer e sua rival, a Merck, para que esta ajudasse a fabricar sua vacina. Segundo a Merck, o Governo injetará 269 milhões de dólares (1,5 bilhão) para adaptar suas instalações.

100 milhões de doses

Biden definiu esse acordo entre concorrentes como “o tipo de colaboração que vimos na Segunda Guerra Mundial”. As 100 milhões de doses que prometeu em seus primeiros 100 dias na Casa Branca, uma previsão calculadamente prudente, chegaram aos braços dos norte-americanos semanas atrás e o presidente provavelmente cumprirá estes 100 dias de mandato alcançando o dobro do que prometeu, 200 milhões de doses. Ele acredita que pode haver vacinas para todos até o final de maio e que o próximo 4 de julho será mais que a comemoração do Dia da Independência dos EUA, o aniversário deste país: espera que sirva para celebrar a independência do vírus.

Nesse cenário de otimismo, cresce a pressão para que Washington ajude países com problemas de fornecimento. Os EUA administram as vacinas da Pfizer, Moderna e J&J, embora disponha de milhões de doses da AstraZeneca, que ainda não foi aprovada pela FDA. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas e assessor de referência de Trump e Biden, estima que os EUA poderiam cobrir suas necessidades sem precisar recorrer às unidades da AstraZeneca. Por enquanto, o Governo exportará 2,5 milhões delas ao México e 1,5 milhão ao Canadá, seus vizinhos e parceiros do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta).

Biden se comprometeu a proporcionar apoio financeiro a outras empresas, como a indiana Biological E, para fabricar mais, num acordo anunciado na cúpula Quad, uma reunião virtual para abordar o assunto que contou com a participação de EUA, Índia, Japão e Austrália.

A diplomacia da vacina, até agora, não foi muito além. “Se tivermos superávit, vamos compartilhá-lo com o resto do mundo”, disse Biden em março passado. “Primeiro vamos garantir que podemos nos ocupar dos americanos, mas depois tentaremos ajudar o resto do mundo.”

Com a atual velocidade de cruzeiro, a imunização dos estadunidenses poderia chegar a 90% no final de julho, embora persistam os riscos e os desafios. “Ainda estamos com 20% ou 25% da população relutante quanto à vacina. Também vemos falhas pontuais no sistema [como as 15 milhões de doses da J&J perdidas por um erro humano] e estamos administrando a vacina em horários de banco, quando deveríamos fazê-lo em jornadas de 16 a 18 horas. Esta é uma corrida contra o vírus e suas variantes”, diz Gregory Poland, diretor do grupo de pesquisa de vacinas da Clínica Mayo e assessor de várias empresas farmacêuticas. “O outro problema é que cada Estado faz de forma diferente.” Segundo ele, “a ideia de ir passando de fase em fase e de grupo em grupo é intelectualmente atraente, mas, quanto mais primeiras doses tivermos nos braços, melhor.”

O cansaço desse longo ano de pandemia e restrições traz o último perigo. A vacinação não avança tão rápido quanto a vontade de um retorno à normalidade. E os contágios voltaram a aumentar (a um ritmo de 65.000 casos por dia na semana passada), chegando perto do pico do verão passado, enquanto muitos Estados começam a relaxar as restrições.

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