Pandemia de coronavírus

Estudo confirma impacto da pandemia de covid-19 sobre a saúde mental

Análise feita por pesquisadores canadenses mostra um aumento na prevalência de insônia, depressão, ansiedade e transtorno por estresse pós-traumático com a crise sanitária

Enfermeira ajuda paciente com covid-19 em um hospital dos EUA, no Kansas, em novembro
Enfermeira ajuda paciente com covid-19 em um hospital dos EUA, no Kansas, em novembroCALLAGHAN O'HARE / Reuters

A pandemia do novo coronavírus está erodindo a saúde mental de milhões de indivíduos. Confinamentos, angústias financeiras, distanciamento físico e social, medo do contágio, preocupação com familiares e amigos, incerteza; a lista de obstáculos cotidianos não é curta. Reportagens na imprensa, estudos acadêmicos e opiniões de especialistas apresentam um panorama desafiador. Há alguns dias, foi divulgado o que é até agora o trabalho de maior envergadura já feito sobre o tema. E suas conclusões confirmam a gravidade do assunto. “Nós nos Inspiramos em análises que fizemos anteriormente sobre o impacto dos surtos de ebola sobre a saúde mental de algumas comunidades africanas”, comenta Jude Mary Cénat, professor de psicologia clínica na Universidade de Ottawa e líder do grupo de especialistas responsável pela pesquisa sobre a covid-19, recentemente publicada na revista científica Psychiatry Research.

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A equipe canadense fez uma meta-análise com dados de 55 estudos internacionais (mais de 190.000 participantes) entre janeiro e maio. Grande parte desta informação provinha da China, mas também foram usadas cifras de trabalhos desenvolvidos na Itália, Estados Unidos, Peru, Espanha e Irã, entre outros países. “Embora os estudos chineses fossem os mais abundantes, seus resultados não apresentaram diferenças de peso em relação a outras zonas do mundo”, comenta Cénat. Os especialistas concluíram que a prevalência da insônia chegou a 24%, a do transtorno por estresse pós-traumático alcançou 22%, a incidência da depressão se situou em 16%, e a da ansiedade chegou a 15%. O artigo salienta que o transtorno por estresse pós-traumático, a ansiedade e a depressão se tornaram, respectivamente, cinco, quatro e três vezes mais frequentes em comparação aos dados habitualmente relatados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

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“Não se observaram diferenças significativas por gênero ou região geográfica; tampouco entre a população em geral e os trabalhadores da saúde, exceto no caso da insônia”, indica o artigo. A análise refletiu que os problemas para conciliar o sono eram duas vezes mais pronunciados entre os profissionais dessa área.

“Precisamos continuar investigando para compreender melhor esta diferença. Foram publicados muitos dados nos últimos três meses e é fundamental um estudo longitudinal. Entretanto, outro trabalho que fizemos sobre a saúde mental após o terremoto [de 2010] no Haiti nos dá pistas. Constatamos que os níveis de depressão e ansiedade eram maiores entre os haitianos que saíram rapidamente do país, em comparação com os que ficaram. Quando você está na linha de frente, não pode se permitir cruzar os braços. E a insônia é uma forma pela qual os temores e preocupações se manifestam”, comenta Cénat.

Menos exposição, mais risco

O trabalho dos canadenses argumenta, levando em conta estudos anteriores, que a insônia pode desencadear outros problemas, como depressão e ideias suicidas. Desta forma, Jude Mary Cénat e sua equipe advertem para o risco à saúde mental dos profissionais sanitários à medida que estes indivíduos estiverem menos expostos a pandemia. Cénat menciona que um estudo feito na República Democrática do Congo mostrou que os problemas de saúde mental entre os profissionais que combateram o ebola aumentaram depois que os casos da enfermidade começaram a diminuir. “É necessário acompanhar esses trabalhadores. Fazer um acompanhamento, criar uma rede de apoio, detectar quem precisará de ajuda”, acrescenta Cénat.

Em outubro, a OMS publicou um relatório onde apontou que a crise decorrente da covid-19 perturbou ou paralisou os serviços de saúde mental essenciais em 93% dos países do mundo. O organismo salientou também que a emergência sanitária aumentou a necessidade destes serviços. “Os líderes mundiais devem agir com rapidez e decisão para investir mais em programas de saúde mental que salvam vidas, durante a pandemia e depois”, declarou Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

“Estes serviços foram reduzidos ou suspensos em um período de grande impacto sobre a saúde mental, tanto para as pessoas que já tinham problemas como para outras que começaram a sofrê-los. Devemos dar sinais de maior compreensão e inovação”, aponta Cénat.

O professor da Universidade da Ottawa insiste em que é necessário continuar trabalhando com os estudos que estão sendo publicados: “Por exemplo, será preciso levar em conta características sócio-demográficas e outros elementos que sirvam para construir um plano de resposta efetivo para esta e outras pandemias. Também devemos incorporar os dados das pessoas que contraíram a covid-19”. Com relação a este último ponto, um estudo publicado no começo de novembro na revista The Lancet Psychiatry mostrou que 18% dos pacientes nos Estados Unidos que contraíram o coronavírus receberam um diagnóstico de transtorno mental entre 14 e 90 dias depois de darem positivo para covid-19.

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