Eleições Bolívia

Tensão cresce à espera de resultados na Bolívia e com cobrança de Evo Morales

Resultados oficiais só serão conhecidos a partir desta segunda-feira. 35.000 policiais e militares foram mobilizados para garantir a segurança pela polarização social no país

Um homem deposita seu voto na urna durante as eleições bolivianas.
Um homem deposita seu voto na urna durante as eleições bolivianas.FERNANDO CARTAGENA / AFP

As eleições na Bolívia foram realizadas sem incidentes destacados, com alta participação da população e grande presença de efetivos militares e policiais nas ruas. Houve longas filas nos locais de votação porque as medidas de biossegurança pela covid-19 tornaram o processo de votação mais lento. Ao contrário do que se temia, as pessoas que foram indicadas como jurados eleitorais trabalharam e permaneceram ao lado das urnas durante as nove horas em que estiveram abertas.

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Os resultados oficiais da votação só serão conhecidos a partir desta segunda-feira. A apuração pode durar até terça ou mais. A única referência sobre a eleição virá das pesquisas privadas que a imprensa deve divulgar. À noite, o ex-presidente da Bolívia, Evo Morales, questionou as razões pelas quais as pesquisas boca-de-urna não terem sido publicadas até a publicação desta reportagem. “Eles estão escondendo o grande triunfo do povo representado pelo MAS [Movimento pelo Socialismo]”, escreveu ele em sua conta no Twitter. “É muito estranho e preocupante que, quase uma hora depois do horário permitido para a publicação dos dados dos resultados, as empresas não o façam. Por que o atraso? O que querem esconder?”, seguiu o ex-presidente.

“Queremos destacar a tranquilidade da população. As pessoas tiveram paciência, porque o dia teve características singulares pela necessidade que tivemos para nos adaptar aos desafios do coronavírus. A votação foi mais lenta, mas fluiu. Nosso balanço é satisfatório”, resumiu Salvador Romero, presidente do Supremo Tribunal Eleitoral.

Apesar da divisão dos horários de votação para evitar aglomerações, as escolas em que as urnas foram colocadas estiveram lotadas de gente. Na Bolívia o voto é obrigatório e o índice de abstenção é tradicionalmente muito baixo (entre 10% e 15% dos eleitores registrados). Pela pandemia se esperava que dessa vez a participação da classes médias fosse menor do que a das mais baixas da população, o que poderia favorecer Luis Arce, o candidato do Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales. É provável que este prognóstico se revele equivocado. Na última semana, as autoridades do Governo interino e os candidatos contrários ao MAS pediram intensamente que as pessoas não deixassem de votar.

Na noite anterior à votação, grandes contingentes de policiais, soldados e veículos militares patrulharam as ruas das principais cidades da Bolívia. As escolas em que se votou também foram fortemente vigiadas. O vice-ministro de Segurança da População, Wilson Santa María, publicou nas redes sociais fotografias das tropas com a frase “Estamos tomando conta de vocês”. A quantidade exata de efetivos mobilizados é “segredo de Estado”.

“Nós não tomamos o poder pela via armada. Tomamos o poder pela via democrática, entendemos que é a maneira de fazê-lo”, disse o candidato Arce após votar. “Quero pedir a vocês para que não caiamos em nenhum tipo de provocação. A grande lição que nunca devemos esquecer é que a violência só gera violência e que com ela perdemos todos”, disse por sua vez Evo Morales de Buenos Aires, onde está refugiado. O ex-presidente também se referiu aos rumores sobre seu iminente retorno à Bolívia, que seus adversários fizeram circular nos últimos dias com o objetivo de atemorizar os eleitores urbanos que não gostam de sua figura. “Diante de tanto rumor sobre o que farei, quero dizer-lhes que a prioridade é exclusivamente a recuperação da democracia”.

Um dos incidentes mais destacados foi o sofrido pela presidenta do Senado da Bolívia, Eva Copa, que recebeu gritos e insultos quando se dirigia ao colégio eleitoral da cidade de El Alto. Copa faz parte das fileiras do partido Movimento ao Socialismo (MAS), que as pesquisas apontaram como vencedor durante a campanha eleitoral.

Até agora, o principal problema dessa eleição foi a suspensão do sistema de transmissão rápida de resultados preliminares, que deveria permitir que se soubesse em poucas horas quem ganhou as eleições. O Tribunal Eleitoral decidiu essa suspensão no sábado, após o fracasso de um teste da segurança do sistema que havia montado. Era um sistema novo, pois o anterior havia sido questionado como um dos mecanismo de fraude nas eleições que foram anuladas, por essa razão, há um ano. Na época, o Governo de Morales afirmou que o mecanismo de contagem rápida não era legalmente vinculante e que, portanto, suas deficiências não poderiam ser consideradas como provas de uma fraude. Agora, os porta-vozes do MAS afirmam que a anulação desse mecanismo nessas eleições lhe deu razão: a única apuração com valor legal é a física, que em 2019 foi menos questionada do a outra, ainda que também tenha sido considerada fraudulenta.

Essa contagem das atas de votação dura normalmente vários dias. Enquanto esse processo não terminar, os únicos dados disponíveis serão os das pesquisas, que costumam ser imprecisas em um país de território extenso e muitas populações rurais de difícil acesso. Alguns analistas temem que a carência prolongada de informação dê lugar a especulações e sabotagens. A população se encontra fortemente polarizada entre os que desejam o retorno do MAS ao poder e os que recusam apaixonadamente essa possibilidade.

Tanto o MAS como o candidato Luis Fernando Camacho criticaram fortemente o Tribunal Eleitoral por sua incapacidade de organizar um sistema de apuração rápida. "Temos nosso próprio sistema de controle eleitoral, alertou Evo Morales. “Não podemos acreditar em nada do que fazem”, lamentou Camacho após votar em Santa Cruz de la Sierra, capital da região que definirá essas eleições. Se Camacho obtiver grande apoio em Santa Cruz, se complicará a possibilidade de que o segundo nas pesquisas, o ex-presidente Carlos Mesa, se aproxime do favorito Arce o suficiente para tornar necessário um segundo turno, que, de acordo com as pesquisas, conduziria Mesa à presidência. Para vencer diretamente no primeiro turno, Arce precisa de 40% dos votos e uma vantagem de pelo menos 10 pontos percentuais sobre o segundo.

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