Bolívia

Movimento de classe média contra Evo Morales chega rachado às eleições de domingo

Movimento da população mais economicamente acomodada que impulsionou a derrubada do ex-presidente se divide entre partidários de Carlos Mesa e do ultraconservador Fernando Camacho

Alguns manifestantes em dezembro passado, em La Rinconada, em La Paz (Bolívia).
Alguns manifestantes em dezembro passado, em La Rinconada, em La Paz (Bolívia).DAVID MERCADO / Reuters

São conhecidos coloquialmente como pititas. São as centenas de milhares de manifestantes e ativistas digitais que há um ano paralisaram a Bolívia durante 21 dias e se atribuem a derrubada do ex-presidente Evo Morales em novembro de 2019. Esse movimento chega às eleições de domingo dividido entre duas opções: Carlos Mesa, que tem mais possibilidades eleitorais em relação ao seu grande adversário, o Movimento para o Socialismo (MAS) de Morales, e Luis Fernando Camacho, dirigente ultraconservador que liderou os protestos de rua contra o então presidente.

Embora com preferências eleitorais diferentes, os pititas são uma identidade social e política cujo papel na política boliviana foi decisivo nos últimos doze meses. Esta comunidade começou com pequenos protestos antes do referendo organizado por Morales em 2016 para tentar levantar a proibição constitucional de uma terceira reeleição. “Naquela época nos chamavam de ‘os quatro gatos’”, recorda Claudia Bravo, ativista e política que desde então é contra a reeleição. O movimento se tornou muito mais amplo —mas ainda sem envolver grandes setores sociais— quando Morales ignorou os resultados desse referendo e viabilizou sua candidatura por meio de uma consulta ao Tribunal Constitucional. E se tornou maciço depois que Carlos Mesa, que acreditava ter obtido votos suficientes para obrigar Morales a ir a um segundo turno, denunciou a realização de uma “fraude monumental” nas eleições do ano passado.

Morales menosprezou inicialmente essa nova oposição que buscava enfrentá-lo, pela primeira vez, em um terreno em que se sentia invencível, o da mobilização social. Assim a batizou involuntariamente, ao zombar de sua técnica de bloquear as ruas com pititas, cordas finas. A ironia de Morales foi assumida como “nome de honra” pelos manifestantes e, com sua derrota, fez história. A maior parte dos meios de comunicação locais chamou a derrubada do presidente indígena de “revolução das pititas”. Assim, abriu uma aguda polêmica com a esquerda nacional e latino-americana, que interpretou o ocorrido como um golpe de Estado, pois na fase decisiva do confronto com Morales, os pititas receberam ajuda da polícia, que se amotinou e deixou de obedecer ao Governo, e das Forças Armadas, que “sugeriram” ao presidente que renunciasse.

Desde então foram publicados vários livros de crônica e defesa do movimento que eclodiu depois das denúncias de fraude. O último deles se intitula 21 Dias de Resistência. A queda de Evo Morales e foi escrito por Robert Brockmann, um renomado historiador que se considera pitita. “Os pititas, uma coletividade nacional tão grande quanto diversa e dispersa, são, somos, possuidores de uma genuína vitória política nas ruas, produto de uma mobilização espontânea, resultado de um ideal coletivo de democracia que estava sendo violado e sequestrado. Os pititas conseguiram, mesmo que a deusa Fortuna tivesse mediado, o que os venezuelanos ou os sírios não conseguiram, nem com enorme sacrifício de vidas humanas”, escreveu Brockmann em um artigo intitulado Yo, pitita.

Muitos sociólogos discordam da definição desse grupo social como “uma coletividade nacional tão grande quanto diversa e dispersa”. Embora em seu melhor momento tenham incluído muitos setores populares descontentes com Morales, acima de tudo é um movimento das classes médias. Tanto daquela que na Bolívia leva o nome de “tradicional”, formada por pessoas que ganham entre 10 e 50 dólares por dia (55,70 e 278,48 reais, aproximadamente), quanto pelas camadas superiores da classe média “vulnerável”, cujos membros ganham entre 7 e 10 dólares por dia.

Ambos os grupos sociais não se consideram indígenas. Os estudos mostram uma estreita correlação entre a identidade “não indígena” e a oposição ao MAS. Nos bairros com mais imigrantes rurais da cidade de El Alto, por exemplo, até 90% da população vota no partido de Evo Morales. Nos bairros mais acomodados de La Paz, onde não vivem indígenas, ocorre exatamente o contrário.

A percepção que os pititas têm de si mesmos é muito diferente. “Existe uma heterogeneidade; tem muita classe média, gente de áreas muito ricas, mas também universitários, camponeses, etc. Fizemos os bloqueios compartilhando esquinas com senhoras dos mercados, com estudantes; Foi uma luta conjunta e por isso se conseguiu a queda do MAS; foi um movimento cidadão”, diz Bravo. A ativista destaca a participação de jovens e mulheres, que estiveram na linha de frente dos confrontos de rua e hoje são os críticos mais ativos do MAS nas redes sociais. “É um movimento geracional. A nova geração superou seus pais que passaram 14 anos [durante o Governo anterior] em suas casas e sem fazer nada. Por isso ser pitita é ser uma espécie de super-herói”, continua Bravo.

A presidente interina, Jenine Áñez, chamou um de seus cães de pitita. No início de seu Governo, esta política representou o movimento melhor do que ninguém, mas depois, enquanto tropeçava em sérias dificuldades de gestão e sua candidatura enfraquecia a “unidade contra o MAS”, tornou-se um personagem polêmico e conflituoso até mesmo para estes grupos. “O problema é que há quem queira arrogar a gesta para si”, escreve Brockmann. “Não a fizemos”, exemplifica, em referência a Camacho, Mesa e Áñez; “Não a fizemos para nenhum deles. Eles a fizeram conosco contra a tentativa de sequestro de nossa democracia e instalar a ditadura”.

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