Eleições Eua 2020

Primeiro debate presidencial nos EUA: 90 minutos que valem um país

Donald Trump e Joe Biden se enfrentam na noite desta terça-feira diante das câmeras com pouquíssimos indecisos e uma agenda que voou pelos ares na última semana

Preparativos no cenário do primeiro debate presidencial, em Cleveland (Ohio), nesta segunda-feira.
Preparativos no cenário do primeiro debate presidencial, em Cleveland (Ohio), nesta segunda-feira.Patrick Semansky / AP

Os temas da campanha eleitoral estavam claros. Uma economia fulminada em questão de poucos meses e sem perspectivas de recuperação. Uma gestão da pandemia de covid-19 que já soma 200.000 mortos, um recorde mundial. E, sobretudo, um plebiscito sobre um presidente que há quatro anos se empenha em confrontar e dividir ainda mais os Estados Unidos, sem dissimular, a cada hora do seu mandato, seu desprezo pela liturgia do cargo. Donald Trump e Joe Biden, os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos nas eleições de 3 de novembro, já tinham o prato cheio para debater nesta terça-feira. E, entretanto, em apenas uma semana a campanha virou outra coisa.

A morte da juíza progressista Ruth Bader Ginsburg, em 18 de setembro, abriu uma vaga na Suprema Corte. Sua substituta será Amy Coney Barrett, conservadora e fortemente religiosa. Os republicanos têm maioria para confirmá-la no Senado quando quiserem. Com a consolidação da maioria conservadora na Corte, questões como o programa Obamacare (saúde pública) e o direito ao aborto estão seriamente em perigo. Esta perspectiva enterrou todos outros temas de campanha —pelo menos até o último domingo, quando o The New York Times publicou 20 anos de declarações de impostos de Trump que passam a imagem de um empresário fracassado e perseguido por dívidas, muito distante do personagem que ele vende.

As perguntas do debate da Fox News que ocorre a partir das 22h (horário de Brasília) só são conhecidas pelo moderador, o jornalista Chris Wallace. Trata-se de uma das vozes mais respeitadas do canal, que foi capaz de manter a bússola em meio aos rumos sectários do canal, preservando mais ou menos intacta a sua reputação pessoal. Wallace é responsável por entrevistas impiedosas com Donald Trump. Os temas escolhidos por ele, em seis segmentos de 15 minutos, são: o histórico de Trump e Biden; a Suprema Corte; a pandemia de covid-19; a economia; tensões raciais e violência nas cidades; a integridade do processo eleitoral. Pelo menos o último desses temas se deve integralmente a balões de ensaio lançados por Trump. Dá-se como certo que a informação do NYT modificará esta pauta.

Será difícil que Trump, o presidente mais televisivo da história norte-americana, surpreenda alguém nesta terça. O mesmo se pode dizer de Joe Biden, um dos políticos mais famosos dos EUA, com meio século de carreira, que se apresentou três vezes a presidente e serviu oito anos como vice. Qualquer um deles será o indivíduo mais idoso da história a ocupar o Salão Oval (Trump tem 74 anos; Biden completa 78 em janeiro).

Apesar de ser o presidente e ter que defender sua atuação nos últimos anos, Trump conseguiu pressionar Biden. O atual mandatário não é um político profissional, mas já demonstrou ser um mestre do marketing. Semeando dúvidas sobre a acuidade mental de Biden em razão da idade (disse que, se ele se sair bem no debate, é porque tomou estimulantes, por isso deveria passar por um exame antidoping), conseguiu que um dos pontos mais interessantes do encontro seja ver se o ex-vice-presidente titubeia ou se esquece de algo. De Trump ninguém realmente espera nada em termos de capacidade de convencimento. Mesmo se conseguisse superar sua atuação de 2016 (quando chamou Hillary Clinton de “mulher má” em um debate e alegou que se esquivar de impostos é um sinal de “preparo”), a capacidade de indignação do norte-americano médio já está esgotada.

Os debates presidenciais vão marcar a agenda de todo o mês de outubro, que acabará dividido em períodos de uma semana. Serão quatro debates (três dos candidatos a presidente e um dos candidatos a vice), a serem exibidos em rede nacional, sem intervalos publicitários. O desta terça-feira acontece na Universidade Case Western, em Cleveland (Ohio), depois que o local inicialmente reservado, a Universidade Notre Dame, alegou problemas logísticos por causa da pandemia de covid-19. Os candidatos não se cumprimentarão com aperto de mão e não usarão máscara. Os debates seguintes estão marcados para os dias 7 (candidatos a vice), 15 e 22 de outubro, moderados respectivamente por jornalistas do USA Today, C-SPAN e NBC.

A pergunta mais importante, afinal, é se os debates servem para algo. Os estudos mostram que mais de 90% dos espectadores já têm a decisão tomada e não estão suscetíveis a trocar, afirma Mitchell S. McKinney, professor de comunicação da Universidade do Missouri e especialista em debates presidenciais. Há apenas 3% ou 4% que poderia mudar de opinião. McKinney acredita que os debates só têm um verdadeiro impacto numa campanha quando as pesquisas estão muito igualadas e há uma alta percentagem de indecisos.

Em nível nacional, não é assim a campanha atual. As pesquisas são surpreendentemente constantes há cinco meses e mostram Biden em torno de 10 pontos à frente de Trump e, embora com menos margem, liderando também em todos os Estados decisivos. Mas o debate pode inclinar a balança o suficiente em alguns desses Estados-pêndulo, como a Flórida e a Carolina do Norte, onde as pesquisas estão muito apertadas, observa McKinney. Ou seja, embora em geral não pareça que os debates de 2020 sejam importantes para alterar a imagem dos candidatos para maioria dos norte-americanos, eles podem acabar sendo fundamentais para deslocar margens decisivas em condados e Estados que depois decidem a eleição.

Veremos nesta terça-feira algum momento decisivo que entre para a história dos debates eleitorais? É difícil que qualquer um deles surpreenda o público, mas será a primeira vez que os EUA assistem à dinâmica cara a cara de dois personagens tão díspares e calejados. Os grandes momentos que entraram para a história dos debates estão bem documentados, e são grandes porque moveram o eleitorado. Basicamente são as campanhas de 1960, 1980, 1984 e 1992.

O primeiro a virar tema de estudos na ciência polícia foi protagonizado por John F. Kennedy e Richard Nixon em 1960. Nixon chegava com a experiência de ser vice-presidente de Eisenhower e era o candidato favorito. Kennedy tinha 43 anos e precisava compensar sua imagem de inexperiente (além de proceder de uma dinastia endinheirada). Foi o primeiro debate presidencial televisionado da história. Nixon recusou-se a usar maquiagem e não parecia preparado para o meio, porque às vezes não sabia para onde olhar. As imagens mais famosas são as dos minutos em que começou a suar por causa do calor dos holofotes e a se secar com um lenço. Kennedy conseguiu apresentar-se como um candidato viável e atraente. A eleição foi decidida pela menor margem registrada até então.

Em 1980, o Partido Republicano apostou num astro de Hollywood que tinha sido governador da Califórnia. Não era Arnold Schwarzenegger, e sim Ronald Reagan. Montou-se ao redor do ator uma campanha com a ideia principal de que a maioria moral dos EUA retomaria as rédeas de um país em decadência. O presidente era Jimmy Carter, a quem coube enfrentar uma série de crises consecutivas. Carter acusou Reagan de pretender intensificar a tensão nuclear com o bloco comunista liderado pela União Soviética. Reagan o despachou com brincadeiras, fez o público rir e, ao final, deixou uma frase para a história: “Vocês estão melhores que há quatro anos?”.

Reagan foi o presidente mais idoso até então (69 anos ao tomar posse), e essa questão sempre fez sombra à sua imagem. Sua velhice era frequentemente alvo de piadas na imprensa, que o retratava como distraído. Sua campanha de reeleição de 1984 foi contra o ex-vice-presidente Walter Mondale, e a idade foi um dos temas com os quais os democratas pretendiam atacar o presidente —algo semelhante ao que Trump tenta ao semear dúvidas sobre a capacidade de Biden para exercer a presidência.

Reagan sofreu no primeiro debate contra Mondale. No segundo, o moderador lhe perguntou diretamente sobre a questão etária. Reagan deixou outra frase memorável: “Não vou explorar politicamente a juventude e a falta de experiência do meu oponente”. O público riu. O próprio Mondale riu. Considera-se o momento em que Reagan selou sua reeleição, apenas com sua simpatia e sua capacidade de interpretação perante as câmeras, embora não tivesse reativado a economia, como havia prometido.

Outra eleição que se movia numa margem muito estreita e em que o debate foi decisivo foi a de 1992. O presidente George H. Bush vinha de unir ao país com a guerra do Golfo. Mas deparou-se na disputa com um jovem governador sulista, Bill Clinton. Além disso, havia a presença de um candidato independente, o milionário centrista Ross Perot, que pescava no eleitorado de Bush. Em um debate a três e com perguntas do público, uma mulher fez um questionamento confuso sobre a economia. Bush deu uma resposta padrão, não sem antes dizer que não entendia bem a pergunta. Além disso, olhou para o relógio como se estivesse impaciente. Depois, Clinton se levantou, dirigiu-se à senhora e lhe pediu em um tom pessoal que contasse mais detalhadamente seus problemas. Clinton conseguiu exibir diante das câmeras o jeito intimista que o havia feito triunfar no Arkansas e saiu daquele debate como o líder moderno que o país procurava nos anos noventa.

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