Protestos antirracistas nos EUA

Black Lives Matter, o rumo incerto do grande movimento antirracista

Os protestos conseguiram dar visibilidade à discriminação racial e a violência policial nos EUA e se tornaram um dos maiores movimentos sociais da história do país. O desafio agora é se materializar em propostas concretas

Manifestante com uma bandeira do movimento Black Lives Matter em Rochester, Estado de Nova York.
Manifestante com uma bandeira do movimento Black Lives Matter em Rochester, Estado de Nova York.MARANIE R. STAAB / AFP

São apenas três palavras, escritas em cartazes fincados nos jardins de casas espalhadas por todos os cantos dos Estados Unidos. Pintadas, em gigantescas letras amarelas, numa rua junto à Casa Branca. Em manchetes da imprensa do mundo todo, nas vitrines das lojas, nos anúncios das grandes marcas, em fotos de perfis nas redes sociais de cidadãos comuns e de personalidades famosas do esporte, da cultura e da política. Black Lives Matter (BLM): vidas negras importam. Uma frase de três palavras que catalisa o que muitos acadêmicos concordam em qualificar como o maior movimento de protesto da história norte-americana.

“Em intensidade e em alcance geográfico, é o movimento de protesto mais amplo da história dos Estados Unidos”, afirma Neal Caren, professor de Sociologia da Universidade da Carolina do Norte, especialista em movimentos sociais contemporâneos nos EUA. “Nunca antes houve tantos protestos, durante tanto tempo e em tantas comunidades diferentes.”

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Desde a morte de George Floyd, um homem negro enforcado por um policial de Minneapolis em 25 de maio, houve pelo menos 7.750 manifestações associadas ao movimento Black Lives Matter em 2.000 localidades dos 50 Estados e no distrito de Columbia, segundo uma contagem da Universidade de Princeton e do Armed Conflict Location and Event Data Project (Acled), organização que pesquisa sobre protestos no mundo todo. Quase um em cada 10 norte-americanos adultos disse ter participado de alguma dessas manifestações, segundo um estudo publicado em junho pela empresa Civis Analytics, e metade dos que disseram ter participado dos protestos informaram que era a primeira vez que se manifestavam. A imensa maioria dessas manifestações transcorreu de forma pacífica: em 93% delas não houve nenhum dano grave a pessoas ou propriedade, segundo o mesmo estudo do Acled.

É difícil estabelecer até que ponto cada um desses protestos foi influenciado pelo Black Lives Matter, surgido há sete anos como um movimento minoritário de protesto contra a brutalidade policial em relação à população negra. Mas é igualmente difícil negar que ele proporcionou um lema, uma guia, um canal de comunicação e um marco para atrair novos ativistas. “Não há uma carteirinha de sócio, parece mais um slogan”, explica Pamela Oliver, professora-emérita da Universidade de Wisconsin, especialista em ação coletiva e movimentos sociais. “Há uma ampla gama de pessoas que protestam e uma organização que trata de controlar sua marca. Ao menos desde o movimento de direitos civis dos anos sessenta falamos de protestos sociais complexos e descentralizados, e agora inclusive há múltiplas organizações locais na mesma cidade.”

Sem uma hierarquia, sem um manifesto e sem uma estrutura clara, o BLM se tornou um poderoso instrumento para a mudança e uma voz fundamental no tema racial nos Estados Unidos. Depois da morte de Floyd, houve uma inédita onda de doações a coletivos que lutam pela justiça racial, o que redesenhou em questão de semanas o mapa do ativismo. A ActBlue, plataforma líder em doações online para causas progressistas, registrou em junho seu período mais ativo, acima dos picos mais altos das recentes primárias presidenciais. A fundação Black Lives Matter Global Network criou um fundo de 6,5 milhões de dólares (34,5 milhões de reais) à disposição das organizações locais filiadas, para financiar seu trabalho de base.

“Virou uma marca de movimento social com a qual as pessoas conseguem se identificar”, diz Caren. “Falamos de muita gente local socializando o que tem através de organizações que existiam, mas se renovam, outras novas, ou simples convocações em redes sociais. Não há um comitê central. Essa flexibilidade permite se adaptar às necessidades de cada comunidade. Demonstraram que são bons chamando a atenção sobre temas. Também, em muitas cidades, obtiveram mudanças notáveis em políticas concretas, pressionando políticos locais, e é raro que um movimento consiga isso tão rápido”.

O BLM nasceu em 2013, apenas como uma hashtag, depois que o vigilante de bairro civil George Zimmerman foi inocentado pela morte a tiros do adolescente negro Trayvon Martin, em fevereiro de 2012, na Flórida. Foi concebido por três mulheres negras, Alicia Garza (Los Angeles, 1981), Patrisse Cullors (Los Angeles, 1984) e Opal Tometi (Phoenix, Arizona, 1984) como “uma rede global dirigida por seus membros” que representa “uma intervenção ideológica e política em um mundo onde as vidas negras são sistemática e propositalmente marcadas para morrer”. Em 2014, o movimento começou a ter relevância nacional nos protestos pelas mortes de Eric Garner em Nova York e de Michael Brown em Ferguson (Missouri) pelas mãos da polícia.

A violenta repressão dos protestos de Ferguson mobilizou uma nova geração de ativistas. Também aumentou a sensibilidade midiática à sistemática morte de negros pela polícia. Em 2016, o BLM tinha mais de 30 seções nacionais. “O movimento não surgiu do nada, se conecta ao passado”, afirma Oliver. “Desde o Occupy, em 2011, houve movimentos de protesto de maneira consistente. Pode-se falar de uma onda de protestos, que cresceu com a chegada de Trump. Recordemos que esta Administração enfrentou protestos desde o primeiro dia: a marcha das mulheres, a imigração, a mudança climática. A morte de Floyd inspirou muita gente, mas já havia uma rede preparada para organizar protestos.”

A confluência da pandemia do coronavírus, concordam os especialistas, tem a ver com a mobilização maciça depois da morte de Floyd. “Por um lado, a pandemia mudou a estrutura das vidas, as pessoas têm mais tempo, estão mais em casa. Por outro lado, houve uma mudança no sentimento de empatia, de compreensão: as pessoas se identificam mais com os problemas dos outros”, diz Caren.

Sob a influência do BLM, ocorreu uma evolução significativa na opinião pública. Segundo um levantamento de junho do The Washington Post, 69% dos norte-americanos acreditam que a morte de Floyd reflete um problema mais amplo de como a polícia trata os negros, frente a 29% que acreditam ser um incidente isolado. Em 2014, 51% acreditavam que as mortes de afro-americanos por policiais eram incidentes isolados. No fim de junho, segundo o estudo do Civis Analytics, 62% dos norte-americanos manifestavam apoio ao BLM ― sendo 47% entre os que votaram em Trump em 2016.

Os recentes episódios violentos em Kenosha (Wisconsin) e Portland (Oregon) e o empenho do presidente Trump em falar de “caos” e “terrorismo doméstico”, o que levou os protestos ao centro da campanha para as eleições presidenciais de novembro, constituem novos desafios para o movimento. Não houve pesquisas eleitorais importantes depois do ataque a tiros contra Jacob Blake em Kenosha, mas as enquetes indicam que os picos de apoio ao BLM registrados depois da morte de Floyd estão recuando. Além disso, manter a chama viva fica mais difícil quando é hora de baixar a políticas concretas. Em um primeiro momento, até o senador republicano Mitt Romney, ex-candidato presidencial e crítico a Trump, apoiou o movimento BLM no Twitter. Mas dificilmente apoiará, como já disse, a exigência dos ativistas de reduzir as verbas dos corpos policiais, dedicando esse dinheiro a políticas sociais. “O desafio é, dentro de alguns meses, como continuar influindo em políticas concretas sem perder apoios. Como articular esse movimento de protesto para propostas específicas de mudança quando as cidades debaterem seus orçamentos”, conclui Caren.

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