Protestos antirracistas nos EUA

Clamor por justiça racial isola Trump

Os Estados Unidos estão mergulhados em uma crise tripla − sanitária, econômica e social − e o presidente, a cinco meses das eleições, é incapaz de mostrar empatia

Donald Trump na academia militar de West Point no sábado.
Donald Trump na academia militar de West Point no sábado.David Dee Delgado / AFP

“Ainda estamos lutando com o pecado original dos Estados Unidos”. A frase não é um slogan dos protestos que, desde que o negro George Floyd morreu asfixiado por um policial em Minneapolis em 25 de maio, varrem o país pedindo justiça racial. Foi dita por Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado, um ardiloso guardião das essências do Velho Grande Partido, que encarregou Tim Scott, o único senador republicano negro, de liderar uma iniciativa para decidir como agir contra a má conduta policial. O ex-presidente George W. Bush conclamou a nação a acabar com o “racismo sistêmico”. O Pentágono e alguns senadores republicanos estudam a possibilidade de renomear as bases militares batizadas em homenagem a oficiais confederados da Guerra de Secessão. A Nascar, a popular associação organizadora de competições automobilísticas, proibiu a exibição da bandeira confederada em suas corridas. As grandes empresas se posicionam e tomam medidas contra a injustiça racial. Nas últimas duas semanas, Governos locais e estaduais realizaram mudanças tangíveis. A Câmara dos Representantes, de maioria democrata, promove uma iniciativa legislativa sem precedentes para combater o que a maioria dos americanos vê como um racismo latente na polícia. Ensaios sobre raça ocupam os primeiros lugares em vendas de livros. Nunca antes na história as pesquisas mostraram um consenso maior sobre a necessidade de agir contra a prevalência do racismo na sociedade. O país atravessa um momento de mudança. Mas o presidente parece alheio a ele.

Entrincheirado na Casa Branca durante o auge dos protestos, tuitando teorias da conspiração, o presidente Trump se mostra mais isolado do que nunca da corrente social e política dominante no país. Os Estados Unidos estão mergulhados em uma crise tripla —sanitária, econômica e social— e o presidente, a cinco meses das eleições, é incapaz de mostrar empatia.

“Qualquer pessoa que presta atenção em Donald Trump percebe que ele não é um indivíduo com uma capacidade normal para a empatia, e geralmente os presidentes têm um senso de empatia hiperdesenvolvido”, afirma Russell Riley, presidente do programa de História Oral da Presidência na Universidade da Virgínia. “A empatia sempre foi uma parte essencial da descrição do cargo de presidente. Desde a revolução dos direitos civis dos anos sessenta, além disso, também faz parte da descrição do cargo um senso de defesa da igualdade racial. Faz parte do credo americano. Este presidente já quebrou muitas normas políticas, e essa é mais uma. O difícil é saber se esse é mais um exemplo desse desafio às convenções ou se há algo especifico na raça que deixa as coisas mais difíceis para ele. Não podemos analisar sua psique, apenas ler suas ações. E nelas é evidente que não demonstrou sentir essa empatia, nem aceitou essa norma canônica de defender a justiça racial.”

Trump tuitou pela primeira vez sobre Floyd dois dias depois de sua morte. Expressou suas condolências e falou de uma morte “triste e trágica”. Em 30 de maio, fez suas primeiras declarações públicas sobre o caso, no início de seu discurso no Centro Espacial Kennedy, depois do bem-sucedido lançamento de um foguete da SpaceX. “Entendo a dor que as pessoas sentem”, disse. Mas a palavra racismo não saiu de sua boca.

O presidente também não mencionou essa palavra dois dias depois, em seu discurso no Jardim das Rosas da Casa Branca, o principal que fez até agora sobre o trágico episódio que chocou o mundo. “Todos os americanos estão, com razão, enojados com a morte brutal de George Floyd”, disse. “Será feita justiça”, acrescentou. A partir daí, dedicou o resto de seu pronunciamento a criticar os manifestantes e as autoridades locais e estaduais incapazes de conter os protestos. “Anarquistas profissionais”, “valentões violentos”, “pirômanos”, “saqueadores”: esse foram alguns dos insultos que Trump dedicou às pessoas que, em sua maioria de forma pacífica, saíram às ruas por todo o país. Desde a morte de Floyd, tuitou “lei e ordem” mais de uma dúzia de vezes.

“Trump está em uma posição política difícil”, resume Tracey Brame, que é reitora da Faculdade de Direito da Universidade de Michigan Ocidental e participou da redação da legislação de justiça racial do Estado de Alabama. “Ele ganhou a eleição de 2016 reunindo uma coalizão estranha. Politicamente, deve tomar cuidado para não alienar uma parte de seu eleitorado que se sente ofendida pelos protestos. Sua única estratégia para a população negra é argumentar que criou uma economia vantajosa para todos, mas esse argumento é abalado pelo impacto econômico da pandemia do coronavírus. Nestes protestos, é difícil jogar nos dois times. Qualquer pessoa que assistir aos oito minutos do vídeo da morte de Floyd terá dificuldade para se posicionar do outro lado.”

A leitura política da posição de Trump é tão evidente quanto arriscada. Defender a polícia das críticas e se recusar a iniciar uma revisão do legado racista dos Estados Confederados pode energizar suas bases brancas para as eleições. No passado, Trump explorou com sucesso as tensões raciais em benefício político próprio. Não se deve esquecer que ele iniciou sua corrida rumo à Casa Branca, há cinco anos, com a acusação de que o México enviava estupradores através da fronteira. Mas muitos republicanos, mesmo dentro do círculo de conselheiros de Trump, temem que continuar com esse jogo depois da morte de Floyd seja um grave erro estratégico e uma demonstração de miopia política. Eles consideram que isso pode continuar afastando os eleitores menos fanáticos que já começaram a lhe dar as costas, já que o coronavírus neutralizou o argumento de vigor econômico que ofuscava todo o resto, e mobilizar contra o republicano as minorias cuja participação pode ser decisiva em novembro.

“Um dos principais mistérios de Trump é que, ao contrário da maioria dos presidentes, depois de eleito ele não moveu um só dedo para ampliar sua base eleitoral”, assinala Riley. “E as pesquisas indicam que agora há uma erosão maior do que nunca nessa base. Em parte por sua gestão do coronavírus, em parte por sua recusa em abraçar a mensagem de justiça racial e, principalmente, pela deterioração econômica. Muitos republicanos moderados toleravam todo o barulho desde que os gráficos subissem.”

Segundo uma pesquisa da Universidade Monmouth divulgada na semana passada, 76% dos americanos, incluindo 71% dos brancos, consideram que o racismo é “um grande problema” no país. Isso representa um aumento de 26 pontos percentuais desde 2015. Entre os eleitores que se definem como conservadores, 65% consideram que a frustração dos manifestantes é justificada. Outra pesquisa, esta da rádio pública PBS, revela que 67% dos americanos acreditam que a resposta de Trump aumentou as tensões, longe das reduzi-las. Mas o presidente parece refratário às evidências. Na quinta-feira, em Dallas, ele afirmou que as soluções chegarão “de maneira rápida e muito fácil”. Em fevereiro, disse que o coronavírus desapareceria “como um milagre”, mas o vírus continua tirando a vida de centenas de americanos todos os dias.

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