Pandemia de coronavírus

Escolas da Espanha têm roteiro anticoronavírus

Cerca de 8,2 milhões de alunos voltam às aulas no país europeu a partir desta semana, seis após o fechamento dos colégios durante a primeira onda da pandemia de covid-19

Escola em Valência, na Espanha, no primeiro dia de aula depois de fechar por causa da pandemia.
Escola em Valência, na Espanha, no primeiro dia de aula depois de fechar por causa da pandemia.BIEL ALIÑO / EFE

Ao mesmo tempo em que o Brasil discute como reabrir suas escolas com segurança, outros países já possuem regras definidas para que as unidades escolares possam voltar a funcionar. Na Espanha, por exemplo, seis meses após o fechamento das escolas decretado em plena primeira onda da epidemia, cerca de 8,2 milhões de alunos pré-universitários voltam este mês às aulas – em boa parte das comunidades do país, já a partir desta segunda-feira 7. As autoridades educativas afirmam que os colégios serão espaços seguros contra a covid-19 e que o fechamento em massa dessas instituições não ajuda a conter a doença de forma significativa. Uma afirmação que questiona não tanto a medida de março, quando o vírus começava a se tornar conhecido, mas a tímida reabertura do sistema em maio e junho, quando a informação era maior. A grande incógnita é se as medidas aprovadas serão suficientes para manter o vírus controlado nos centros escolares: se o calendário letivo poderá transcorrer de forma relativamente normal, evitando assim a perda de conteúdo e o dramático aumento da desigualdade, que, segundo os especialistas, foram gerados pelo fechamento das escolas.

A “recriação” dos centros educativos se baseia nos elementos comuns dos 17 planos autonômicos da Espanha, nas diretrizes de medidas higiênicas e sanitárias aprovadas pelos ministérios da Educação e da Saúde e no acordo fechado entre o Governo e as comunidades para o novo calendário letivo.

1. O trajeto até o colégio

As autoridades recomendam que os alunos se dirijam à escola caminhando ou de bicicleta, considerando que essas opções facilitam a distância de segurança, são “saudáveis” e evitam dividir “espaços fechados”, como acontece no ônibus. Caso se utilize o transporte escolar, a máscara é obrigatória a partir dos seis anos e recomendável a partir dos três, e os estudantes ocuparão o mesmo lugar durante o ano inteiro.

Será medida a temperatura de todos os alunos antes que eles entrem na sala de aula. Em parte das comunidades espanholas, essa obrigação caberá aos pais: o controle da temperatura deve ser feito antes que o aluno saia de casa, e os responsáveis têm que assinar uma declaração responsável (um documento em que se comprometem com isso). Outras comunidades farão o controle na porta do colégio ou da sala. E alguns centros adotarão ambas as precauções. Alunos com febre não poderão entrar na escola. E se o aumento da temperatura corporal for detectado quando o estudante já estiver lá dentro, ele será conduzido a uma sala de isolamento para casos suspeitos de covid, acondicionada em todos os colégios, onde esperará que um familiar venha buscá-lo.

2. Entrada no colégio

A entrada na escola deve ser escalonada em pequenos intervalos de tempo ou realizada simultaneamente por vários acessos, a fim de evitar as aglomerações. Salvo os alunos do jardim, os estudantes entrarão de máscara e com a obrigação de manter a distância de segurança. Somente eles e os funcionários podem passar, como regra geral, pela porta da instituição. Os pais deverão se despedir deles do lado de fora – onde também deverão esperar para buscá-los. As atividades em sala de aula com pais ou especialistas externos ficam suspensas. As gestões administrativas e o contato entre as famílias e o colégio serão realizados sempre que possível por telefone, e-mail ou outro meio eletrônico.

Dentro da escola foram estabelecidos itinerários fixos, assim como escadas diferenciadas para subir e descer, de modo a reduzir o contato entre os alunos. Tanto eles como os docentes e outros profissionais devem realizar os trajetos imprescindíveis pelo interior das instalações. Antes do início das aulas, os estudantes devem lavar as mãos – e repetirão a operação cinco vezes por dia. De preferência com água e sabão, embora as classes também contem com álcool em gel. Todas as normas contemplam a limpeza dos banheiros e demais dependências da instituição.

3. Grupos “bolha” e salas com distanciamento

Inicialmente, os ministérios da Educação e da Saúde da Espanha propuseram duas opções para a formação de aulas seguras. Para os alunos mais novos, do jardim e dos primeiros anos do primário, sugeriram os chamados grupos de convivência estável ou grupos “bolha”, de 15 ou 20 alunos, cujos integrantes, por não se misturar com os membros de outras turmas, não precisariam usar máscaras nem manter a distância geral de 1,5 metro entre si. Para os outros níveis educativos, o Governo pediu que fosse mantida a distância interpessoal.

O aumento de contágios em agosto e os grandes tamanhos de grupos “bolha” projetados por algumas comunidades (até 30 alunos na Catalunha, por exemplo) levaram o Governo a promover um novo acordo, assinado em 27 de agosto, pelo qual as máscaras se tornaram obrigatórias para todos os maiores de seis anos – sejam ou não parte do grupo de convivência estável. Apenas para os alunos do jardim (de três aos cinco anos) foram mantidos os grupos de convivência estável com sua fórmula inicial: nem máscara, nem distância.

Os grupos de convivência estável serão também muito comuns no primário, mas com máscara. Os especialistas os consideram uma boa forma de evitar os contágios entre diferentes grupos, o que facilita o controle dos contatos e as quarentenas seletivas. Seu tamanho não deve superar, em teoria, os 25 estudantes. Os grupos que não são bolhas devem manter, em princípio, uma distância de 1,5 metro. As comunidades realizaram adaptações com intensidade variável, contratando mais professores e aproveitando todo o espaço disponível para dar aulas – de ginásios a capelas. Mas a ampliação não foi suficiente, e quase todas as comunidades preveem em suas diretrizes que, quando não for possível manter a distância, esta poderá ser suprida pelo uso de máscaras. Por isso é esperado que haja salas muito cheias em algumas localidades da Espanha, com até 30 alunos, sobretudo no ensino médio, a não ser que os colégios optem pela semipresença.

A prevenção dos contágios reduzirá o trabalho em equipe e as técnicas pedagógicas mais inovadoras, em benefício da aula tipo palestra. “Teremos que tratar os meninos e as meninas de forma diferente. Atitudes que os professores vinham incentivando, como a interação mais próxima e o compartilhamento de material, agora não poderão ser feitas. Precisamos criar com eles uma nova linguagem educativa”, afirma Iñigo Salaberría, presidente da federação basca de diretores de colégios e institutos públicos Heize.

4. Aulas semipresenciais

As Comunidades autônomas e o Governo insistem em que o ano letivo tem que ser o mais presencial possível. No entanto, o esforço no sentido de aumentar o quadro de pessoal e habilitar espaços é insuficiente para cumprir este objetivo na prática, respeitando as normas de segurança, ou seja, evitando salas de aula superlotadas. O acordo da Conferência Setorial de Educação, do final de agosto, admite indiretamente essa fragilidade --que será mais perceptível nas comunidades com maior população escolar e onde houve menos investimento em infraestrutura educacional nas últimas décadas--, pois ressalta que as aulas presenciais devem ser garantidas, de todo modo, “para os alunos de menor idade, pelo menos até o segundo ano do Ensino Secundário Obrigatório”.

Algumas regiões autônomas (como a Comunidade Valenciana, as Ilhas Baleares e La Rioja) já incluíram em seus protocolos de julho um esquema semipresencial a partir do segundo ou terceiro ano do secundário nas escolas onde o ensino à distância não puder ser garantido. Aragão anunciou isso pouco depois e Madri o fez no final de agosto. E também Múrcia (onde o ensino semipresencial começará no nível fundamental). A Andaluzia optou por deixar a decisão a cargo de cada escola, fórmula que será aplicada em outras comunidades, já que a maioria dos protocolos deixa para as unidades a última palavra em termos de garantia de segurança. As formas de articular o ensino semipresencial são diversas, mas o atendimento em dias alternados --um dia o aluno vai às aulas e no dia seguinte faz em casa as tarefas ministradas pelo professor -- parece mais eficaz para manter os adolescentes conectados ao sistema. O Governo e as regiões se comprometeram a fornecer dispositivos e conexão à Internet para todos os alunos que deles precisarem.

5. O pátio, lugar seguro

Os protocolos das regiões e as diretrizes sanitárias do Governo dedicam muito pouco espaço para o pátio das escolas. Isto porque, à medida que aumentava o conhecimento sobre o vírus, crescia a preocupação com os espaços fechados (onde o risco de contágio é 20 vezes maior do que ao ar livre) e os pátios representam o contrário. Algumas comunidades autônomas proíbem esportes com bola e de contato, mas, em geral, a única orientação, além do uso da máscara a partir dos seis anos, é tentar manter distância interpessoal e reforçar a vigilância por meio dos professores e monitores.

“O pátio não nos preocupa, nem que joguem futebol. O que nos preocupa é a ventilação dos espaços fechados”, afirma Salvador Peiró, especialista em Medicina Preventiva e Saúde Pública da Fundação de Pesquisa em Saúde da Generalitat Valenciana (Fisabio).

As diretrizes impõem a obrigação de arejar as classes várias vezes ao dia e, se possível, manter as janelas e portas abertas durante as aulas. E também recomendam o uso de espaços ao ar livre sempre que possível --”tanto para atividades educacionais como de lazer”, indicam algumas das normas. Mas os protocolos não dão outras especificações, nem as regiões autônomas anunciaram planos para instalar, por exemplo, toldos e deslocar parte das classes para a parte externa.

6. Um caso de Covid na escola

As escolas têm que designar um responsável por coordenar as ações relacionadas à Covid e atuar como interlocutor com a unidade pública de saúde de sua área. Normalmente, a função é atribuída a um membro da direção ou um professor (as diretrizes não especificam que precisa ser um profissional da área da saúde). As escolas precisam ter uma sala de isolamento para onde serão encaminhados os alunos que apresentarem sintomas compatíveis com a doença, de preferência fácil de ventilar, mobiliada de forma austera e equipada com uma lixeira de pedal e lenços descartáveis.

O aluno permanecerá no local, acompanhado por um funcionário até que um familiar o venha buscar. Este deve entrar em contato o mais rápido possível com o centro de saúde em que está registrado ou telefonar para o número indicado pela comunidade autônoma. O responsável pelas ações da Covid na escola também deverá informar a saúde pública sobre o caso suspeito. Enquanto estiver no local, o aluno terá que usar uma máscara cirúrgica (se tiver mais de seis anos) que a escola lhe dará, como também o adulto que o acompanhará na sala. Se a criança estiver sem máscara (por causa da idade ou patologia subjacente), seu acompanhante usará uma de tipo FPP2 sem válvula.

O objetivo das autoridades educacionais é evitar ao máximo o fechamento de uma escola. Se for detectado um caso suspeito, apenas a pessoa afetada permanecerá isolada (a menos que a saúde pública decida de outra forma) até que saiam os resultados dos testes. Se der positivo e ela fizer parte de um grupo “bolha”, todos da sua turma serão considerados contatos próximos e cumprirão 14 dias de quarentena. Se não fizer parte de um grupo bolha, caberá aos serviços de saúde determinar quem são os contatos próximos e a quarentena. A escola só será fechada se a saúde pública concluir que existe “uma transmissão fora do controle no local, com elevado número de casos” em diferentes grupos.

7. A cantina

Alguns planos regionais anteriores ao verão contemplavam o fechamento das cantinas, por considerá-las espaço crítico para contágio --os alunos ficam sem máscara em um local fechado e costumam falar alto, fatores que aumentam o risco. Mas o Governo e as comunidades concordaram em garantir o serviço a todo o custo, por se tratar de uma segurança de alimentação saudável, o que é especialmente importante para os alunos em situação de vulnerabilidade social.

As cantinas organizarão turnos ou terão seu espaço ampliado, ocupando até mesmo as de aula de cada turma, de forma a garantir que os alunos fiquem sentados a uma distância de pelo menos 1,5 metro (exceto no caso de grupos de convivência estável, que poderão ficar mais próximos) e os lugares de cada um serão fixos para todo o ano.

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