Pandemia de coronavírus

Argentina e México produzirão vacina de Oxford para a América Latina. Brasil já tem acordo próprio

Acordo permitirá abastecer a região com até 250 milhões de doses da imunização contra o coronavírus no primeiro semestre do próximo ano, caso os testes sejam bem-sucedidos

Cientista do Instituto Jenner, em Oxford, manipula amostra de sangue dos testes da vacina contra o coronavírus, em 25 de junho de 2020.
Cientista do Instituto Jenner, em Oxford, manipula amostra de sangue dos testes da vacina contra o coronavírus, em 25 de junho de 2020.John Cairns / AP

Argentina e México se colocam na linha de frente da luta contra a pandemia de coronavírus na América Latina. O presidente argentino, Alberto Fernández, anunciou nesta quarta-feira, em Buenos Aires, que os dois países produzirão até 250 milhões de doses da vacina experimental que a Universidade de Oxford está desenvolvendo em conjunto com o laboratório britânico AstraZeneca. As doses ficarão prontas durante o primeiro semestre do próximo ano. Cada dose custará entre dois e quatro dólares, um preço “de custo”, possível graças a um acordo com a Fundação Slim para o desenvolvimento do projeto regional.

A vacina já está sendo produzida com risco, pois sua eficácia ainda não é conhecida. As pesquisas estão na fase 3, a última de um longo processo de desenvolvimento. Se o sucesso da vacina for confirmado, a América Latina garantirá doses a baixo custo e de produção regional, afirmou Fernández. “Serão distribuídas de forma equitativa em todos os países, de acordo com a demanda dos Governos. A produção latino-americana ficará a cargo da Argentina e do México. Este acordo permite que a América Latina tenha acesso à vacina entre 6 e 12 meses antes”, disse Fernández em uma entrevista coletiva. Mais tarde, a assessoria de imprensa do presidente informou que o argentino havia entrado em contato com seu colega mexicano, Andrés Manuel López Obrador, para “compartilhar o entusiasmo de encarar em conjunto o desenvolvimento e a fabricação da vacina”.

O projeto exige uma divisão regional do trabalho. O laboratório argentino mAbxience, do grupo Insud, fabricará a substância ativa da potencial vacina. O laboratório mexicano Liomont concluirá o processo de acabamento e embalagem. “Este é um empreendimento privado que se tornou um projeto sem fins lucrativos. A conduta da empresa e da Universidade de Oxford é para ser comemorada, pois estão garantindo uma vacina sem buscar lucro. Os proprietários da vacina são a AstraZeneca e Oxford. Confiaram à Argentina a produção do componente central e ao México o resto do processo”, declarou Fernández. A ideia é produzir um piso de 150 milhões de doses e um teto de 250 milhões. “Os especialistas calculam que a América Latina precisa de 230 milhões de doses”, disse o presidente.

O caso do Brasil

O Brasil está fora do programa porque já tem seu próprio acordo com a Universidade de Oxford para adquirir 100 milhões de doses, além da tecnologia para produzi-las no país. Com o acordo, o Brasil assumiu os riscos da pesquisa e se comprometeu a pagar pelo menos 30,4 milhões de doses, num total de 127 milhões de dólares (cerca de 690 milhões de reais). Esse valor inclui os custos de transferência de tecnologia e o processo de produção da Fiocruz, responsável pela fabricação local.

Ao mesmo tempo, o Governo de São Paulo também assinou um acordo de cooperação com o laboratório chinês Sinovac para aquisição de outra vacina, também em fase de testes em voluntários. Já o Estado do Paraná apresentou os primeiros documentos para um acordo de aquisição da vacina russa, que gerou críticas da comunidade científica sobre a pouca transparência do processo de desenvolvimento, informa Beatriz Jucá, de São Paulo.

A vacina experimental desenvolvida pela Universidade de Oxford, chamada Chadox, é uma das mais avançadas e com resultados mais promissores. Cada dose provoca uma forte resposta imunológica sem causar efeitos adversos graves, de acordo com dados de seu primeiro teste em humanos, publicado em 20 de julho na revista médica The Lancet. Os testes, que começaram em abril, tiveram a participação de 1.000 voluntários saudáveis no Reino Unido.

Sua fórmula é elaborada a partir de uma versão enfraquecida de um adenovírus do resfriado comum dos chimpanzés. O vírus é geneticamente modificado para impedir sua multiplicação e acrescentar genes com a instrução de fabricar apenas as proteínas da espícula do coronavírus, que servem de chave para o vírus entrar nas células humanas. Essas proteínas estranhas geradas pela vacina treinam o sistema imunológico e, como mostram os novos resultados, provocam a criação de uma barreira dupla: aos 14 dias, os pacientes desenvolvem anticorpos neutralizantes que bloqueiam as partículas estranhas, e aos 28 dias criam linfócitos T, um tipo de glóbulo branco que destrói as células infectadas. Os primeiros testes indicaram que provavelmente sejam necessárias duas doses.

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