CASO AYOTZINAPA

Identificação de um dos 43 estudantes de Ayotzinapa derruba a versão histórica do Governo de Peña Nieto

Promotores acham os restos de Christian Rodríguez perto de Iguala, num lugar que havia sido descartado pelas autoridades durante o Governo do antecessor de López Obrador

Familiares dos 43 estudantes desaparecidos em 2014 na localidade mexicana de Ayotzinapa se manifestam na Cidade do México, em janeiro.
Familiares dos 43 estudantes desaparecidos em 2014 na localidade mexicana de Ayotzinapa se manifestam na Cidade do México, em janeiro.LUIS CORTES / Reuters

Desdenhada pelas famílias das 43 vítimas, por seus advogados e pelas equipes independentes de investigação que estudaram o Caso Ayotzinapa desde 2014, a explicação para aquele crime oferecida pelo então Governo do PRI (Partido Revolucionário Institucional, de centro) ficou agora definitivamente sepultada. A ciência acabou de desbaratar a narrativa que o Governo de Enrique Peña Nieto tentou impor há quase seis anos. Os estudantes não morreram assassinados no aterro sanitário de Cocula, pelo menos não todos. Nesta terça-feira, promotores encarregados do caso revelaram que um dos restos achados em novembro passado, num lugar diferente do aterro sanitário, pertenceu em vida a Christian Alfonso Rodríguez, um dos 43 estudantes sequestrados e mortos por bandidos em setembro de 2014.

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Omar Gómez Trejo, diretor da Unidade Especial de Investigação e Litígio para o Caso Ayotzinapa, revelou a descoberta em uma mensagem publicada na tarde de terça nas redes sociais do Ministério Público Federal mexicano. “Esta identificação rompe com a narrativa de uma mentira que fechou possibilidades de procurar. Hoje dizemos às famílias que a busca por seus filhos continuará”, afirmou. Gómez informou também que os promotores mandarão os novos restos para serem analisados em laboratório forense de Innsbruck, na Áustria.

Enquanto isto acontecia, as famílias das 43 vítimas se reuniam com o subsecretário de Direitos Humanos do Governo federal, Alejandro Encinas, na Cidade do México. Ele informou aos familiares sobre a descoberta, embora muitos já soubessem de algo, pois funcionários de Gómez comunicaram há alguns dias aos pais de Rodríguez que o corpo dele havia sido identificado. Depois da reunião, Encinas, que preside a comissão de investigação instituída pelo atual presidente, Andrés Manuel López Obrador, afirmou que “a identificação do estudante gera as condições para esclarecer os fatos daquela lamentável noite”.

O promotor Gómez explicou que a ossada em questão foi achada em novembro numa paragem conhecida como barranco do açougue, que se encontra a 800 metros do aterro sanitário de Cocula. Em dezembro de 2014, várias unidades da extinta Procuradoria Geral da República (PGR, um órgão sem relação com o Ministério Público), então dirigida por Jesús Murillo Karam, rastrearam o lugar, mas não encontraram nada. Na época, as investigações do caso eram encabadas pelo titular da Agência de Investigação Criminal da PGR, Tomás Zerón, hoje foragido da Justiça.

O ataque contra os estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa ocorreu entre a noite de 26 e a madrugada de 27 de setembro de 2014 no município de Iguala, no Estado de Guerrero (190 quilômetros ao sul da capital mexicana). Um grupo de alunos havia chegado a Iguala na tarde do dia 26. Sua versão sempre foi que viajaram ao município para se apropriar de vários ônibus de linha, com os quais pretendia fazer uma viagem da escola à Cidade do México. Os estudantes tomaram vários veículos à força e procuraram a saída de Iguala, de volta à escola, a cerca de três horas de distância.

Mas, na saída, um grupo de criminosos em conluio com policiais de Iguala e outros municípios próximos os atacaram. Foi em vários pontos, porque os ônibus que os estudantes tinham tomado seguiram rotas de saída diferentes. Os agressores impediram sua passagem em uma rua perto do anel periférico, a avenida que contorna Iguala. Também os interceptaram junto ao Palácio de Justiça.

Foi uma caçada. Os criminosos e policiais em conluio atacaram os estudantes a tiros, como se fossem um exército invasor, e os estudantes só puderam correr. Alguns caíram mortos em Iguala, como Julio César Mondragón, assassinado a golpes durante a madrugada. Seu corpo apareceu no dia seguinte numa estrada rural do município.

Ao todo, seis pessoas morreram naquela noite durante o ataque em Iguala. Mas, além disso, os criminosos sequestraram 43 estudantes, entre eles Christian Rodríguez, na época com 19 anos. Não está claro onde os criminosos apanharam o rapaz, se na rua próxima ao anel periférico ou nos arredores do Palácio de Justiça. Nem sequer a investigação da Comissão Nacional de Direitos Humanos, muito mais exaustiva que a apresentada na época pela PGR, conseguiu estabelecer o lugar de onde o jovem foi levado.

Rodríguez é o terceiro estudante a ser identificado até hoje. Em 2014 e 2015, o mesmo laboratório que analisou seus restos, na Universidade de Innsbruck, identificou outros dois estudantes. O primeiro, em 2014, foi Alexander Mora, e depois, em setembro de 2015, Jhosivani Guerrero. Em ambos os casos, seus restos apareceram, segundo a equipe então liderada por Tomás Zerón, no rio San Juan, muito próximo do aterro sanitário onde, disseram, os estudantes haviam sido assassinados e queimados.

À medida que o ataque contra os estudantes se transformava em uma tempestade política para o Governo de Peña Nieto, a PGR interveio no caso, substituindo o Ministério Público estadual. Foi em outubro de 2014. Os investigadores detiveram e interrogaram dezenas de pessoas, entre elas supostos integrantes da facção criminal Guerreros Unidos, que tinha coordenado o ataque. Os avanços foram rápidos e em novembro, o procurador Murillo Karam compareceu perante a imprensa para apresentar os resultados.

Murillo explicou que o ataque contra os estudantes tinha sido ordenado pelos Guerreros Unidos, para “defender seu território”. Segundo sua versão, essa facção pensou que os estudantes eram na verdade integrantes de um grupo contrário, ou que, pelo menos, camuflavam integrantes de um grupo contrário. A partir dos depoimentos de vários detidos, Murillo contou que policiais mancomunados com os Guerreros Unidos conduziram os estudantes ao aterro de Cocula, não muito longe de Iguala. Lá, os criminosos mataram os sobreviventes dos ataques anteriores, juntaram os cadáveres em uma pilha e atearam fogo. Depois, os mesmos bandidos teriam recolhido os restos, triturado e colocado em sacos de plástico para serem atirados no rio San Juan.

Em janeiro seguinte, Murillo e Zerón depuseram de novo para ampliar o que haviam dito em novembro. O núcleo de sua versão pouco variou, mas eles divulgaram os resultados de um novo inquérito que, no seu entender, comprovava a grande fogueira no aterro de Cocula.

Os meses seguintes foram de luta pelo controle do relato. Para o Governo do PRI e da PGR, a verdade era o que tinham contado. Para as famílias e seus advogados, aquilo deixava muitas dúvidas. A sociedade, além disso, estava ao seu lado. Fazia anos que o México não via mobilizações como as registradas nos meses posteriores ao desaparecimento dos 43. A pressão era tanta que Peña Nieto aceitou que um grupo de investigadores independentes, patrocinados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, fizesse seu próprio inquérito.

Em dezembro de 2015, os investigadores independentes, conhecidos no México como GIEI, deram seu veredicto: não houve naquela noite em Cocula um incêndio com as dimensões necessárias para desintegrar tantas pessoas. O debate estava aberto. Os especialistas observaram também que era possível que parte dos detidos tivesse sido torturada durante os interrogatórios. A pouca confiança das famílias no Governo minguou. Meses mais tarde, o GIEI denunciou que Tomás Zerón e seus investigadores haviam incorrido em irregularidades durante suas primeiras semanas à frente da investigação. Em outubro de 2104, segundo denúncia do GIEI, Zerón foi à zona do aterro e ao rio com um dos detidos, sem que aquela diligência constasse no inquérito. Aquele choque com Zerón fez inclusive que as famílias dos 43 duvidassem sobre os achados de restos da PGR no rio San Juan.

Àquela altura, meados de 2016, Murillo já tinha saído da procuradoria. Zerón faria o mesmo meses mais tarde. Nos dois anos e meio que se seguiram, não houve mais notícias a respeito da investigação oficial. Peña Nieto não renovou a autorização para que o GIEI continuasse investigando, e a confiança das famílias no Estado era nula. Em março de 2018, as suspeitas de que os detidos tinham sido torturados se confirmaram. O escritório no México do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos publicou um relatório denunciando que pelo menos 34 detidos pelo caso tinham sido torturados. A ouvidoria pública chegou a conclusões semelhantes meses mais tarde.

Quando o centro-esquerdista López Obrador tomou posse, em dezembro de 2018, uma de suas primeiras medidas foi criar a comissão presidencial para esclarecer o caso Ayotzinapa. Pôs Encinas no comando e estabeleceu reuniões mensais com as famílias. No Ministério Público, o novo titular, Alejandro Gertz, nomeou Omar Gómez, muito próximo dos integrantes do GIEI, como promotor especial encarregado do caso.

Um ano e meio se passou desde então. A identificação de Christian Rodríguez é sem dúvida o maior feito da nova Administração. Entretanto, ainda restam 40 estudantes desaparecidos e uma narrativa cheia de buracos. Se a versão que Murillo e Zerón apresentaram era falsa, se os 43 não foram assassinados e queimados no aterro sanitário de Cocula, então qual é a verdade?

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