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Especialistas da OEA questionam versão oficial do massacre de Iguala

Especialistas dizem que os 43 estudantes não foram queimados no aterro de Cocula

Busca de restos no aterro de Cocula.
Busca de restos no aterro de Cocula.

A 20 dias do aniversário do caso Ayotzinapa, o desaparecimento no México de 43 estudantes nas mãos de traficantes de drogas em colaboração com policiais locais, o grupo de especialistas designados pela Organização dos Estados Americanos (OEA), com a aprovação do Governo mexicano para estudar o caso, apresentou um relatório que questiona a versão oficial. Com base em uma perícia independente feita por um especialista, afirma-se, contra o que foi estabelecido pela investigação da Procuradoria Geral da República, que os jovens não foram queimados no aterro de Cocula, município vizinho ao do sequestro, Iguala, ambos situados em Guerrero, um Estado sufocado pela pobreza e pelo crime organizado.

Os peritos, cuja tarefa de verificar a investigação oficial é uma ordem da Corte Interamericana de Direitos Humanos, órgão pertencente à OEA, afirmam que, com base na perícia, têm “a convicção de que os 43 estudantes não foram queimados no aterro”. A conclusão se choca com as confissões de vários presos, que segundo a Procuradoria reconheceram que os levaram a esse lugar em um caminhão e uma caminhonete e que, ao chegar ao aterro, vários já haviam morrido por asfixia por viajarem empilhados nos veículos, e o resto foi eliminado a tiros. De acordo com essas confissões dos assassinos e seus chefes, que pertencem ao cartel Guerreros Unidos e são aliados do prefeito de Iguala, os estudantes foram confundidos com membros do grupo rival Los Rojos.

A análise do local da suposta fogueira foi feita pelo perito em incêndios José Torero, no terreno e com provas científicas no laboratório da universidade australiana de Queensland, do qual é professor e pesquisador. Torero – que tem experiência em casos como o ataque às Torres Gêmeas – determinou, de acordo com o relatório, que “não há nenhuma evidência que indique a presença de um incêndio do tamanho de uma fogueira para a cremação de inclusive um só corpo”. “As confissões feitas pelos supostos responsáveis”, acrescentam os especialistas, que enfatizam que o Governo mexicano lhes deu “pleno acesso” à investigação, “não correspondem à realidade das provas apresentadas neste estudo”. A perícia de fogo também indica “as limitações científicas e técnicas dos estudos realizados até agora (...), de modo que suas conclusões são em sua maioria erradas”.

“Não há nenhuma evidência que indique a presença de um incêndio do tamanho de uma fogueira para a cremação de inclusive um só corpo”, diz o relatório

O aterro de Cocula havia sido usado durante anos por moradores locais para queimar coisas, e quando, em novembro, o Governo concluiu que os estudantes tinham sido incinerados ali com uma fogueira feita com pneus e combustível, a área apresentava uma ampla zona queimada. O que o laudo pericial coloca em questão é que esses rastros de fogo correspondam à fogueira onde os assassinos afirmam ter reduzido a cinzas os estudantes. “Todas as evidências mostram que o mínimo fogo necessário para a cremação dos corpos não pode ter acontecido”. “Se tivesse havido um incêndio dessa magnitude, seriam visíveis danos generalizados na vegetação e no lixo”, afirma o relatório. Além disso, no laboratório australiano foram examinadas pedras e pedaços de madeira recolhidos no lugar do suposto incêndio para determinar se apresentavam indícios da alta combustão requerida para queimar 43 corpos.

A versão oficial, que os estudantes foram queimados no aterro, foi consequência de uma bateria de testes entre as quais figuram 487 relatórios de peritos, 386 declarações, 99 presos, 95 telefones celulares investigados e 14 fichas de investigação, além de restos ósseos. Alguns desses restos mortais foram encontrados dentro de um saco em um rio da região e foram enviados a um laboratório austríaco, onde um fragmento foi identificado, por testes genéticos, como correspondendo a um dos 43 alunos da escola de magistério rural de Ayotzinapa. Até o momento é o único dos desaparecidos que foi identificado. De acordo com os presos, as cinzas dos corpos incinerados foram colocadas em sacos e lançadas por eles mesmos no rio.

Os especialistas designados pela OEA consideram que os estudantes não devem ser dados como mortos, mas como “desaparecidos”, e que a busca tem de continuar. Em relação aos autores do crime, concordam com a Procuradoria em apontar as polícias municipais de Cocula e Iguala como “autoras materiais”. A investigação oficial esclareceu que os estudantes que tinham tomado ônibus de passageiros para ir à Cidade do México no evento anual em memória do massacre de Tlatelolco, em 1968, foram atacados a bala pela polícia local, sem motivo aparente, e foram finalmente entregues aos assassinos dos Guerreros Unidos para sumir com eles.

Os especialistas divergem em relação a que a responsabilidade seja limitada a traficantes de drogas e policiais locais. Eles afirmam que ficou comprovada a presença de membros da Polícia Federal e do Exército em diferentes momentos e cenários dos ataques. “Nenhuma força do Estado, que tinha conhecimento dos fatos (...) e testemunhou o nível das agressões e violações dos direitos humanos agiu na proteção dos estudantes”, diz o relatório. Os especialistas solicitaram ao Governo entrevistas com soldados do batalhão de Iguala, mas o pedido foi negado.

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