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CIDH e ONU querem nova investigação sobre o desaparecimento de 43 estudantes no México

Instituições internacionais e os advogados das famílias divergem da promotoria mexicana em diversos pontos do caso que aconteceu em 2014

Familiares dos 43 estudantes na escola rural de Ayotzinapa.
Familiares dos 43 estudantes na escola rural de Ayotzinapa. El País

As novas gerações de Ayotzinapa gritam pelas anteriores. E gritam forte. Na segunda-feira, uma centena de estudantes normalistas fechou o caminho de entrada à escola vociferando os velhos refrãos, todos em lembrança de seus colegas desaparecidos: “Vivos foram levados, vivos os queremos!”. Eram as boas-vindas à missão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que foi apresentar seu novo relatório à escola.

Os 43 continuam presentes na vida cotidiana da escola. Após quatro anos de seu desaparecimento, o pátio continua decorado com a recordação dos ausentes. Cartazes enormes pendurados no teto da quadra de basquete, cada um com o rosto de um dos jovens, 43 cartazes: Jorge Luis González, Antonio Santana, Leonel Castro… Na entrada, os refrãos se tornaram parte da fachada. Enormes pedras em formato de letra, pintadas de vermelho - V-I-V-O-S... - mudaram sua fisionomia.

A visita da missão da CIDH deu ânimo às famílias e às novas gerações de estudantes. Foram quatro anos de dor, de não saber onde os seus estão. E quatro anos, também, de luta com a promotoria mexicana. De um lado, as famílias e seus advogados, a CIDH, a ONU, até mesmo a Comissão Nacional de Direitos Humanos, todos reunidos na segunda-feira na escola. Do outro, a Promotoria e o Governo de Enrique Peña Nieto. E como pano de fundo uma grande dor, uma ausência que revela as falhas da Procuradoria de Justiça no México.

O desencontro é total e ocorre faz tempo. A principal diferença diz respeito nada menos à vida dos estudantes. A promotoria defende que os jovens morreram assassinados e que seus corpos foram queimados em um lixão. As famílias, a CIDH, etc., que não existem provas de que isso aconteceu.

Há um ponto de acordo: o desaparecimento dos 43 em Iguala, no Estado de Guerrero, entre 26 e 27 de setembro de 2014. Há, também, uma parte que todos aceitam: uma quadrilha de delinquentes regionais, apoiada por policiais municipais de Iguala e outros povoados próximos se encarregaram de fazê-lo. A discrepância cresce a partir daí. E tudo leva a crer que a falha é da promotoria. Em junho, um tribunal federal ordenou a criação de uma comissão da verdade ao caso, uma vez que a investigação da promotoria não foi “rápida, efetiva, independente e imparcial”.

A primeira a falar na escola foi Esmeralda Arosemena, integrante da missão da CIDH. Uma de suas primeiras frases foi dirigida ao Governo: “Até agora não foram realizadas mudanças na narrativa para enfocar as linhas de investigação. É preciso deixar de uma vez por todas essa posição que o senhor presidente em final de mandato coloca como verdade histórica. O que a CIDH refutou. O que a CIDH não aceita”.

Arosemena se referia às palavras de Peña Nieto sobre o caso na semana passada. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o mandatário afirmou que os garotos foram incinerados. Arosemena, herdeira do grupo de especialistas da comissão que investigou o caso na região durante dois anos, disse: “Deve existir, hoje, uma nova forma de enfocar as investigações de acordo com as linhas identificas pela CIDH e a ONU”.

Essas linhas têm relação com os telefones dos garotos, por exemplo. Pelo menos nove continuaram funcionando após a meia-noite de 26 de setembro de 2014. E um estava nas mãos de um policial do Estado de Guerrero. E à possível participação de policiais federais no desaparecimento dos jovens. A CIDH pede a investigação de todos os agentes ativos naquele dia em Iguala. E o papel desempenhado pelo Exército, cercado de dúvidas desde o primeiro momento. A comissão detectou contradições nas declarações dos militares do batalhão de Iguala. E o papel do tráfico de drogas internacional na caçada desatada contra os delinquentes, definitivo, de acordo com Arosemena.

Jan Jarab, representante no México do Alto Comissariado das Nações Unidas aos Direitos Humanos, lembrou por sua vez o resultado do relatório que a instituição apresentou há alguns meses. Em Dupla Injustiça, a ONU informou que pelo menos 34 presos foram torturados, quando o caso passou à promotoria federal. Até agora, as denúncias do relatório não tiveram repercussões.

São muitas as linhas de investigação a percorrer e as famílias passaram muitos meses sem respostas.

Alguns dos pais dos 43 encerraram o evento. Um deles, Mario César, disse: “Agradecemos muito a vocês por pelo menos virem e falarem pessoalmente com a gente. Agradecemos que caminhem conosco”.

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