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Países da América do Sul fecham fronteiras e ensaiam cooperação diplomática para conter pandemia

A exceção é o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, único a enviar o chanceler à videoconferência entre mandatários da região na qual foram discutidas possíveis ações conjuntas

Cidade do México / Guayaquil / Caracas -
Ponte Simon Bolívar, fronteira terrestre entre a Colômbia e a Venezuela, fechada, nesta segunda-feira.
Ponte Simon Bolívar, fronteira terrestre entre a Colômbia e a Venezuela, fechada, nesta segunda-feira.SCHNEYDER MENDOZA (AFP)
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Brazilian President Jair Bolsonaro greets supporters in front of the Planalto Palace, after a protest against the National Congress and the Supreme Court, in Brasilia, on March 15, 2020. (Photo by Sergio LIMA / AFP)
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Commuters board a bus in Rio de Janeiro, Brazil, Monday, March 16, 2020. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
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A man wears a face mask as a preventive measure against the spread of the new coronavirus, COVID-19, as he walks his dog in Bogota, on March 16, 2020. - The Colombian government announced the indefinite suspension of face-to-face classes in public schools and universities as a preventive measure against the COVID-19 pandemic. (Photo by Raul ARBOLEDA / AFP)
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A América do Sul está a caminho de virar uma foto fixa. As fronteiras, o acesso de estrangeiros, a mobilidade, mas também as aulas, os eventos culturais e, em última instância, a agenda política. Tudo está sendo paralisado numa tentativa de conter a propagação regional da pandemia de coronavírus (Covid-19). O fechamento dos territórios nacionais não é total, mas não tem precedentes nessa escala. Colômbia, Argentina e Peru decretaram no domingo restrições à entrada de todos os estrangeiros não residentes. Antes, tinham adotado medidas semelhantes a Venezuela, o Equador e a Bolívia. O último país a fechar suas fronteiras foi o Uruguai, que nesta segunda-feira ordenou a suspensão das entradas procedentes da Argentina e informou que também tomará medidas em sua fronteira com o Brasil. A estas decisões se somam a imposição de quarentenas para os retornados, a proibição de reuniões e atos com grande afluência de público e o fechamento de escolas.

Esse instantâneo tem uma exceção, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que chegou a qualificar a preocupação social como “histeria”. Nesta segunda-feira, Bolsonaro afirmou que o país não tem espaço de lei para fechar as fronteiras. “Pode até fechar com a Venezuela, mas [a entrada] vazaria por outro lugar”, disse em entrevista à rádio Bandeirantes.

O isolamento e a repercussão da crise nas economias locais levaram governantes a ensaiar fórmulas de colaboração diplomática. Na manhã desta terca-feira, mantiveram uma reunião por videoconferência os presidentes da Colômbia, Chile, Argentina, Equador, Peru, Bolívia e Uruguai. Só o Brasil foi representado por seu chanceler. O objetivo, segundo o mandatário peruano, Martín Vizcarra, era avaliar e coordenar ações de contenção contra a propagação da Covid-19. "Concordamos que juntos sairemos adiante”, disse. “Revisamos em detalhe as ações conjuntas para enfrentar a pandemia de coronavírus”, acrescentou Duque.

Se em alguns casos reforça-se a cooperação, em outros, como na tensa relação entre os governos do colombiano Iván Duque e do venezuelano Nicolás Maduro, a pandemia derivou em um recrudescimento da tensão, com a fronteiras de ambos países fechadas e troca de acusações.

Mesmo que o número de contágios seja muito inferior às cifras na Europa, a suspensão da rotina e as restrições aos deslocamentos obrigam a região, habituada a conviver com os sobressaltos, a adiar seus enormes desafios. Neste primeiro momento, os aeroportos se tornaram um dos principais focos do mal-estar dos cidadãos. O ministro colombiano da Saúde, Fernando Ruiz Gómez, teve que fazer um apelo à calma diante da avalanche de queixas pela gestão do aeroporto de El Dorado, em Bogotá, um dos principais polos de tráfego aéreo na região. “Hoje todas as operações aéreas no planeta são de retorno, procurando essencialmente proteger a população que retorna aos seus países de origem", afirmou.

Ante o aumento de contágios no Equador, com 58 casos confirmados, sendo 21 deles no último dia, o presidente desse país, Lenín Moreno, decretou à noite o estado de exceção em todo o território nacional e impôs um fechamento obrigatório generalizado que suspende a jornada de trabalho presencial tanto no setor público como no privado. Ninguém poderá ir trabalhar a partir desta terça-feira ―mas pode-se fazê-lo de casa―, exceto o pessoal de serviços de emergências, das cadeias de alimentação, de exportação, das forças de segurança e de outras exceções pontuais. E ninguém poderá sair de casa entre 21h e 5h. O presidente equatoriano não especificou até que data se manterá o toque de recolher e a restrição à circulação de pessoas e veículos, medidas que qualificou de “excepcionais” perante uma “situação excepcional”.

Para a compra de alimentos, remédios e para fazer outras atividades essenciais, estabeleceu-se um horário de circulação em função da placa dos veículos. Às segundas, quartas, sextas e domingos poderão circular veículos com final ímpar, e os de cifra par nos demais dias. Mas sempre antes do toque de recolher.

Tensão entre Bogotá e Caracas

Iván Duque anunciou nesta segunda-feira o fechamento de todas as fronteiras ―terrestres, marítimas e fluviais― válido entre esta terça e 30 de maio. A medida impedirá a saída e entrada de “cidadãos nacionais e estrangeiros”. Os colombianos e residentes poderão ingressar por via aérea ao país, que contabiliza 57 casos do coronavírus (Covid-19). Quase ao mesmo tempo, Nicolás Maduro decretou quarentena total na Venezuela a partir desta terça.

Em permanente disputa com Maduro, o mandatário colombiano já havia anunciado na sexta-feira passada o fechamento dos acessos fronteiriços à Venezuela. Essa medida, que recebeu duras críticas do Governo venezuelano, não representa em si uma novidade. Devido à grave crise política e social no país caribenho e às tensões entre Caracas e Bogotá, que apoia sem matizes o líder opositor Juan Guaidó e o reconhece como presidente legítimo, a fronteira ― a mais porosa da América, com mais de 2.200 quilômetros repletos de atalhos e trilhas ―, permaneceu temporariamente fechada em várias ocasiões nos últimos anos.

Para Duque, a medida serve para proteger a população colombiana. “A capacidade de detecção da Venezuela é mínima, a capacidade de administrar a situação é mínima”, defendeu-se nesta segunda-feira numa entrevista à rádio La FM. E afirmou que não vale a pena trabalhar diretamente com o Governo do país vizinho, por isso prefere deixar as tarefas de coordenação nas mãos da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). “O regime [chavista] sempre procura tirar proveito político de tudo. Aqui não há discursos políticos e os canais diretos nisto pouco ou nada servem, pela própria situação do sistema de saúde lá”, salientou.

Maduro num primeiro momento impôs a quarentena em sete Estados do país, incluindo as cidades mais povoadas, Caracas e Maracaibo, e se dirigiu à Organização Mundial da Saúde e à OPAS para “propiciar a coordenação e comunicação” com a Colômbia. A Venezuela, golpeada há anos por uma catástrofe econômica e uma hiperinflação sem freio, tem um sistema sanitário deteriorado e ineficiente. E o impacto da pandemia no setor petroleiro, o único que ainda sustenta a precária economia do país, limita ainda mais a margem de ação de suas autoridades para fazer frente a esta crise. A quarentena inclui a suspensão das atividades profissionais, exceto a distribuição de alimentos, serviços básicos, transporte e centros de saúde. As aulas tinham sido suspensas na semana passada com o primeiro exame positivo. A segurança nacional está a cargo da Força Armada, que instalou controles para impedir a circulação entre cidades.

Além disso, as autoridades, que contabilizam 33 casos, ordenaram a todas as pessoas que ponham algum tipo de máscara ao saírem para comprar comida e remédios ou usarem o transporte público, embora não haja abastecimento pleno desse artigo nem sequer nos hospitais. Nesta segunda-feira, a polícia obrigou pessoas sem máscara a voltarem para casa. Segundo Maduro, o maior número de casos corresponde a pessoas de 20 a 39 anos de idade, e todos são importados da Europa e Colômbia. Entretanto, um dos casos divulgados nesta segunda foi o do encarregado de negócios da Embaixada da Argentina, Eduardo Porreti, que disse não ter saído da Venezuela nos últimos meses.

Em todo caso, o coronavírus congelou por enquanto as prioridades das agendas políticas e legislativas da região e inclusive eclipsou os escândalos que cercam alguns Governos, como ocorreu na Colômbia a propósito da investigação dos vínculos entre um narcotraficante já falecido e o Centro Democrático, partido que sustenta o Executivo, liderado pelo ex-presidente e senador Álvaro Uribe.

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