Pandemia de coronavírus

Banco Mundial alerta que a recuperação econômica ficará pela metade se a vacinação demorar

Relatório aponta um crescimento de 4% no PIB global em 2021, ficando em apenas 1,6% se o processo de imunização atrasar. Brasil deve crescer 3% neste ano, após queda de 4,5% em 2020

Enfermeiras preparam as vacinas para sua aplicação em Montpellier (França).
Enfermeiras preparam as vacinas para sua aplicação em Montpellier (França).Guillaume Horcajuelo / EFE

Quando o Banco Mundial publicou suas últimas projeções econômicas globais, em meados de 2020, a dúvida que pairava no ambiente era se seria possível desenvolver uma vacina contra um novo coronavírus em menos de um ano. Seis meses depois, esse prodígio científico foi operado, com várias imunizações aprovadas pelas autoridades sanitárias dos principais países, outras tantas a caminho, e as fábricas já em pleno funcionamento. Agora, as interrogações têm mais a ver com o ritmo das campanhas de vacinação: quanto antes ocorrerem, mais rápida e robusta será a recuperação. Tudo, absolutamente tudo, está nas mãos do coquetel de antígenos. E as primeiras notícias não são das melhores.

O cenário-base projetado nesta terça-feira pelo organismo com sede em Washington aponta para um crescimento global de 4% neste ano, com o que se recuperaria praticamente toda a perda de 2020 (-4,3%). Mas os dois caminhos alternativos são absolutamente divergentes. No mais otimista, o “controle bem-sucedido da pandemia e um processo de vacinação mais rápido” permitiriam ao PIB global escalar 5%: em menos de um ano, já se superaria o nível prévio à pandemia. No mais pessimista, os riscos associados a eventos extremos imporiam sua lei, e o atraso no calendário de vacinação provocaria também um aumento no número de doentes e pressionaria notavelmente o crescimento para baixo: os 4% virariam um enxuto 1,6%, o segundo menor registro anual em quase três décadas, depois do estrondo de 2009 (-1,7%), derivado da explosão financeira em Wall Street e, sobretudo, do afundamento do ano passado.

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“As principais prioridades políticas de curto prazo são o controle da propagação da covid-19 e a garantia de uma distribuição rápida e ampla das vacinas”, salientam os técnicos do organismo multilateral, que temem dois freios na administração da vacina: o gargalo logístico e a reticência de amplas camadas da população a serem vacinadas, o que complicaria a necessária imunidade coletiva. Em um cenário ainda mais severo, no qual as crises financeiras se generalizassem mundo afora —algo que praticamente nenhuma casa de análise sequer leva em conta nos seus prognósticos, depois de um 2020 em que, apesar da recessão, os riscos no setor bancário foram contidos graças à ação dos bancos centrais—, “o crescimento mundial poderia inclusive ser negativo em 2021”.

Ligeira melhora do quadro de 2020

À margem da rapidez ou lentidão na imunização da população, em sua revisão do quadro macroeconômico publicada nesta terça-feira o Banco Mundial melhora ligeiramente seus números para o ano recém-terminado: frente à implosão de 5,2% prevista para junho, seus cálculos agora indicam que a economia global limitou a queda a 4,3%. Os vetores desta relativa melhora são dois: uma queda menor que a esperada nos países ricos —apesar de a recuperação ter estacando nos últimos compassos do ano, dado o avanço da segunda onda— e uma recuperação “mais sólida que o antecipado” na China, que salvou a mobília com sobras (+2%) e neste ano crescerá 7,9%. No lado contrário, o dano na sala de máquinas econômica no resto do bloco emergente foi “mais grave que o esperado”. No Brasil, o órgão estima um crescimento de 3% neste ano, após queda de 4,5% em 2020.

“A economia mundial parece ter entrado em uma fase de recuperação moderada, mas os encarregados da formulação de políticas enfrentam enormes desafios —em matéria de saúde pública, gestão da dívida, orçamentos, bancos centrais e reformas estruturais— para tratar de assegurar que este repique, ainda frágil, ganhe impulso e lance as bases para um crescimento robusto”, afirma o presidente do organismo, David Malpass.

Preocupação com a ‘quarta onda’ da dívida

A crise sanitária está sendo, entre muitas outras coisas, um potente acelerador da dívida. E chegou quando o mundo ainda acumulava um importante passivo de décadas anteriores e cresciam as vozes de alerta sobre sua sustentabilidade, especialmente nos países emergentes. O mundo está no que o órgão credor cataloga como “quarta onda” de endividamento, após as dos anos setenta e oitenta na América Latina e alguns países da África Subsaariana, a dos noventa e começo dos 2000 na Ásia-Pacífico e a do início deste século nos países ricos, que se concentrou no setor privado e derivou na Grande Recessão. As três, recorda, acabaram derivando em explosões financeiras com reverberações de alcance global.

“A pandemia tornou ainda mais perigosa esta quarta onda, exacerbando os riscos associados à dívida”, salienta o Banco Mundial em um relatório que aborda sobretudo os países de renda média e baixa, de longe o elo mais frágil. “A comunidade internacional deve agir de forma rápida e contundente para assegurar que esta não acabará sendo, como as anteriores, em um encadeamento de crises da dívida nos emergentes”.

Nos últimos meses, como resultado dos confinamentos e das medidas de controle do vírus, o peso da dívida cresceu com força: Governos de todo o mundo —muito especialmente os dos países ricos, que também são os que têm mais musculatura financeira e melhor acesso ao mercado— redobraram suas emissões para fazer frente aos enormes gastos derivados da crise sanitária. “Isto chega depois de uma década em que a dívida global [pública e privada] já tinha crescido até atingir um recorde de 230% do PIB. Um nível alto, que deixa os devedores em uma situação de vulnerabilidade perante qualquer mudança repentina no apetite dos investidores por risco”, advertem os economistas do Banco Mundial em sua revisão.

“O relaxamento das condições financeiras —com baixos custos de endividamento, abundantes emissões e uma recuperação das avaliações mercantis graças às notícias positivas sobre as vacinas— mascaram as crescentes vulnerabilidades subjacentes”, afirma o estudo. “Já desde antes da pandemia não havia margem para complacência: com frequência, as crises eram desencadeadas por choques exógenos que aumentaram com força a aversão ao risco dos investidores e freadas repentinas nos fluxos de capitais. E as desacelerações do crescimento mundial foram frequentemente catalisadores de crises.”

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