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O luto por Marília Mendonça escancara o sucesso sem fronteiras do sertanejo

A cantora, que morreu aos 26 anos em um acidente de avião há uma semana, reinava no gênero e chegou a ser a artista feminina mais ouvida do mundo no Spotify

Fã de Marília Mendonça levanta cartaz em sua homenagem no jogo entre Brasil e Colômbia, nesta quinta, em São Paulo.
Fã de Marília Mendonça levanta cartaz em sua homenagem no jogo entre Brasil e Colômbia, nesta quinta, em São Paulo.NELSON ALMEIDA (AFP)
Naiara Galarraga Gortázar

O Brasil está há uma semana de luto pela morte de uma de suas cantoras mais populares. A comoção e a incredulidade persistem diante da tragédia que tirou a vida de Marília Mendonça na sexta-feira passada, quando caiu o avião em que viajava para fazer um show em Caratinga, leste de Minas Gerais. Aos 26 anos, tinha uma carreira consolidada como cantora e compositora e era enaltecida como rainha do sertanejo —e do feminejo, estilo que ajudou a consolidar. Sua morte deslocou as atenções para o gênero que na última década se tornou o maior sucesso musical no país, assim como para o preconceito em relação ao que já é a vitrine da música brasileira no mundo.

Um dia após sua morte, Marília Mendonça se tornou a artista feminina mais ouvida do planeta no Spotify, desbancando nomes como Taylor Swift, Adele e Dua Lipa. A plataforma de streaming, assim como o YouTube, têm intensificado a trilha internacional das melodias sobre paixões, sofrimento, amores e desamores nascidas no interior do Brasil. Algo que já tinha acontecido com músicos como Michel Teló, que se tornou um fenômeno depois que Neymar e Cristiano Ronaldo dançaram Ai se eu te pego para comemorar seus gols em 2011.

A voz potente e rouca de Mendonça era uma das melhores da música brasileira contemporânea, apesar da resistência de uma certa elite cultural em admiti-lo. Ainda que os cantores sertanejos continuem a serem vistos de cima por sua origem rural e seus valores conservadores —é um meio considerado bolsonarista, apesar de a própria cantora ter se manifestado contra a eleição do presidente em 2018—, os acenos se multiplicam. “Não é fácil falar. Marília me impressionou muito pela potência vocal e também pelo modo de ver as coisas. Ela era uma afirmação da força da canção popular no Brasil”, declarou Caetano Veloso. Jair Bolsonaro, pouco dado a enaltecer figuras públicas brasileiras quando morrem, de artistas a políticos, apressou-se em elogiar seu legado.

São provas de que sua música ultrapassou qualquer fronteira —geográfica, cultural ou política.

Mas a jovem nascida em Cristianópolis, no interior de Goiás, também se destacou como inovadora. Liderou uma legião mulheres que revolucionaram o sertanejo com canções com mensagem feminista, com letras que deixaram de falar das mulheres como submissas e que refletiam os anseios das eternas secundárias, que as incentivavam para ser livres. “Inovou no palco e na música. [Em suas canções], a mulher também sofria por amor. Já não era feio sofrer em um bar, ou com um homem, como amigos”, explica de Goiânia o cantor Vitor Zara, de 33 anos, que conhecia Marília Mendonça desde quando era uma compositora que oferecia suas canções para outros músicos profissionais. No final, ela se tornou uma estrela enquanto ele ainda busca o sucesso no ofício em que estreou aos 10 anos. Está convencido de que o legado de Mendonça será duradouro no sertanejo e que muitas jovens trilharão o caminho que ela abriu.

A mãe de Marília Mendonça, Ruth Moreira Dias, durante o velório da cantora.
A mãe de Marília Mendonça, Ruth Moreira Dias, durante o velório da cantora.MATEUS BONOMI (Getty Images)

Goiânia concentra dezenas de estúdios transformados em autênticas fábricas de hits. “Havia muito preconceito contra nós, éramos vistos como provincianos. Mas como hoje o agronegócio domina a economia brasileira, já olham para o agro e para nós de outra maneira”, explica o cantor sertanejo. Existe um renascimento do orgulho do campo. Ele acredita que o gênero faz sucesso “porque é música positiva, para relaxar e dançar com a namorada”. Além disso, diz ele, porque “se identifica com o povo brasileiro, com todos os brasileiros”. Conta que uma vez foi cantar para alguns indígenas no rio Xingu “e todos conheciam as letras”.

Marília Mendonça lotava estádios e, depois de hibernar no YouTube durante a pandemia, estava retomando os shows ao vivo. Este mês faria uma turnê na Europa com paradas em Londres, Bruxelas, Lisboa e no Porto. Também era uma artista 2.0, daquelas que relatam seu dia a dia nas redes sociais. Quando sua morte foi confirmada, a artista tinha 36 milhões de seguidores no Instagram (agora são 41 milhões).

Marília Mendonça em um show em 30 de outubro.
Marília Mendonça em um show em 30 de outubro.Cortesía

Investigação

Uma semana depois do acidente, em que morreram outras duas pessoas de sua equipe e os dois pilotos, as causas são investigadas. Sabe-se que a aeronave estava prestes a aterrissar em Caratinga quando se chocou com fios de alta tensão de uma torre de transmissão de energia da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e caiu na serra de uma cidade próxima. Os investigadores encontraram um cabo enrolado em uma das hélices do avião, mas a polícia afirma que só a perícia poderá confirmar se ele pertence à torre.

Especialistas apontam que o piloto voava baixo e tentou um pouso de emergência em um rio porque o terreno é montanhoso, mas o impacto foi fatal. Os destroços foram levados para análise no Rio e em São Paulo, e não há prazo para concluir a apuração.

Caixão de Marília Mendonça é levado para o enterro em Goiânia, no sábado passado.
Caixão de Marília Mendonça é levado para o enterro em Goiânia, no sábado passado.Weimer Carvalho (EFE)

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