Qual é o caminho para se tornar um músico sertanejo de sucesso?

Em Goiânia, os cantores buscam atrair a atenção de artistas famosos e empresários Se apresentam em pequenos bares do setor Marista, no centro da cidade

O cantor Cristiano Araújo.
O cantor Cristiano Araújo.Facebook

Goiânia, capital de Goiás, no centro-oeste do Brasil, é o principal destino de cantores sertanejos que desejam ser reconhecidos em todo o país. Mas, em meio a tanta concorrência, qual é o caminho para atingir esse tão esperado sucesso?

Além de ser necessário ter muita paciência, o caminho é assim: o cantor (ou a dupla), seja do próprio município ou do interior, procura seu espaço em pequenos bares e restaurantes do setor Marista, centro efervescente do sertanejo na capital de Goiás. "Quando chegamos aqui, ficamos uns três meses sem cantar até conseguirmos finalmente um espaço no antigo bar Jatobá", explica Deluca, da dupla Dyogo e Deluca, do interior de Minas Gerais e que mora na cidade desde 2012.

Mais informações

No bairro também vão os principais artistas consagrados e empresários do setor. O objetivo então é se exibir ao máximo nesses pequenos lugares, conseguir cada vez mais seguidores e começar a tocar também em cidades do interior, onde algumas cidades são ainda mais ricas que Goiânia. O próximo escalão é cantar em pubs e boates do mesmo bairro, ao mesmo tempo que começa a lançar músicas na internet e na rádio. E a partir daí, tentar ganhar o Brasil. A dupla Dyogo e Deluca —que abandonaram suas carreiras em 2011 para se dedicar exclusivamente a música— se encontra neste último estágio. "Já temos três CDs gravados e cinco músicas que se tornaram um sucesso. Fizemos no ano passado uma turnê por países europeus e estamos muito contentes com a aceitação do público", conta Dyogo.

Outros artistas, como o jovem Gabriel Vitor, de 18 anos, ainda estão começando. Quando tinha 9, seu avô lhe ensinou a tocar viola e violão e a cantar. Chegou a participar de programas de rádio com ele, mas não pensou em seguir a carreira artística até pouco tempo. “Sempre me chamavam para fazer apresentação na escola, mas nunca topava porque era muito tímido. Até que com 16 anos, finalmente participei de uma apresentação cultural. Foi uma energia muito positiva, a escola gritava, coisas que eu nunca tinha visto acontecer comigo”, conta. Decidiu então, um ano antes de terminar o ensino médio, que queria se tornar músico profissional.

Depois de tentar com duas duplas, preferiu seguir a carreira solo. Hoje, apresenta sua voz grave em bares e choperias do setor Marista, assim como pelo interior de Goiás em eventos de pecuária e festas de Peão de Boiadeiro. Já começou a gravar o seu primeiro trabalho, o qual pretende lançar nacionalmente. “Quero estudar agronomia, mas estou focado na música agora, para aprofundar meu trabalho, ser reconhecido nacionalmente e viver dela. E acho que hoje as portas estão mais abertas. A gente tem mais oportunidade”.

Um fator fundamental tanto na carreira de Gabriel Vitor como da dupla Dyogo e Deluca e todas as demais é o apoio familiar que vem acompanhado. Na maioria das vezes, pais e tios se mobilizam para gerenciar o início da vida artística: agendam shows, ajudam a pagar a banda e fazem a produção até que uma empresa tome conta da carreira. A jornada rumo ao estrelato acaba envolvendo toda a família. "Além disso, já não existe aquele estereótipo do jovem humilde que busca na música uma forma de vencer na vida”, diz Castro da Audiomix. Isso foi bem retratado no filme Dois Filhos de Francisco, do diretor Breno Silveira, que retratou a trajetória da família humilde de Zezé Di Camargo e Luciano que fez tudo para que a dupla alcançasse o estrelato nacional. “Ainda existe isso sim, mas não apenas isso. Hoje, há também muitas famílias de classe média que apoiam seus filhos, porque sabem que é isso o que querem”.

Interior, base de sustentação do sertanejo

Ainda que em Goiânia esteja o centro nervoso do sertanejo, seus principais artistas e os instrumentos necessários para alcançar o sucesso nacional, o interior continua sendo a base de sustentação desse estilo. Os pequenos municípios, com suas festas populares e pequenas casas de show, mantêm sempre cheia a agenda de concertos de um artista —Cristiano Araújo, por exemplo, possuía uma média de 20 por mês. Entre essas pequenas cidades, Itumbiara, com quase 100.000 habitantes e a 208 quilômetros ao sul de Goiânia, é considerada uma das mais sertanejas da região. Ganhou visibilidade quando a dupla Jorge e Mateus, nascidos e criados lá, estourou no país.

Município de Itumbiara, no sul de Goiânia.
Município de Itumbiara, no sul de Goiânia.F. BETIM

A última semana foi de festa para os moradores de Itumbiara. O arraial da cidade, organizado pela prefeitura e em sua 11ª edição, recebeu artistas de peso. “Toda a estrutura é bancada pelo poder municipal e a entrada é gratuita. O evento faz parte do calendário regional”, explica um dos organizadores. Na última terça-feira, Araújo reuniu lá 30.000 pessoas no último show de sua vida.

Três dias depois de sua morte, numa sexta-feira, o clima voltou a ser de festa. Milhares de famílias lotavam o lugar que abrigava o evento para ver a dupla Guilherme e Santiago. Entre composições próprias e clássicos do sertanejo, todos dançavam e cantavam juntos. Mais que uma festa, era uma celebração familiar.

Perto dali, o bar Laredo, um dos principais da cidade por ter música ao vivo entre quarta e domingo, estava praticamente vazio devido ao Arraiá da cidade. Ainda assim, Fábio, de 32 anos, e Gabriel, de 27, estavam lá para o seu compromisso. A dupla da cidade tocou e cantou durante duas horas e meia desde clássicos de Chitãozinho e Xororó até sucessos recentes de Jorge e Mateus para um pequeno grupo de fãs.

A dupla Fábio e Gabriel, em Itumbiara.
A dupla Fábio e Gabriel, em Itumbiara.F. B.

Fábio é pintor de automóveis e faz a voz principal; Gabriel, metalúrgico, toca violão e faz a segunda voz. Estão juntos há alguns anos profissionalmente, ainda que não possuam empresário e nem lançamentos próprios. Perguntados sobre o principal objetivo deles, respondem sem pestanejar: "Poder viver de música".

Para isso já pensam no dia em que tomarão coragem, farão as malas e juntarão suas famílias em um ônibus. E irão para Goiânia, claro.