Uma Thurman relata pela primeira vez o aborto que viveu na adolescência: “Fiquei de coração partido”

Em um artigo no qual protesta contra uma restritiva lei do aborto no Texas, a atriz revela o seu “segredo mais sombrio”

Uma Thurman numa entrevista em Milão (Itália), em janeiro de 2020.
Uma Thurman numa entrevista em Milão (Itália), em janeiro de 2020.Tony Clifton / SplashNews.com (GTRES)
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“Compartilho minha dor pessoal para apoiar o que está acontecendo junto com nossas filhas e irmãs. Estamos juntas nisto.” Com essa frase,a atriz Uma Thurman anunciou aos seus 1,2 milhão de seguidores no Instagram que havia escrito um artigo para o jornal The Washington Post falando sobre o aborto e a restritiva lei contra ele aprovada em 1º de setembro no Texas, onde na prática a interrupção voluntária da gravidez ficou quase totalmente proibida. Mas, para se queixar dessa decisão judicial, a atriz sentiu a necessidade de se abrir e relatar sua própria experiência de ter feito um aborto quando era muito jovem – algo que até agora nunca tinha discutido publicamente.

A atriz inicia seu texto quase se desculpando. “Talvez vocês não estejam interessados nas opiniões de uma atriz, mas, dada esta atrocidade, sinto que é minha responsabilidade erguer a voz”, escreve. Depois, Thurman conta que começou sua carreira com apenas 15 anos, “trabalhando num ambiente onde eu era frequentemente a única menina do lugar”. “Ao final dos meus anos de adolescência, um homem muito mais velho me engravidou de forma acidental. Eu vivia com uma mala pela Europa, longe da minha família, a ponto de começar um trabalho. Passei muito mal pensando no que fazer. Queria ficar com o bebê, mas como?”, reflete.

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Conta então que ligou para casa, e que sua mãe estava internada em estado grave. O pai foi até o leito da mulher para pedir a ela que conversasse com a filha sobre o que estava ocorrendo. “Jamais tínhamos falado sobre sexo antes, aquela foi a primeira vez, e foi terrível para todos. Perguntaram-me sobre a situação de minha relação, que não era viável, e me advertiram para a dificuldade de criar um bebê sozinha, adolescente. Minha fantasia infantil de maternidade foi sendo corrigida em voz alta enquanto eu pesava as respostas a perguntas muito concretas. Estava começando minha carreira, não tinha meios para dar um lar estável [ao bebê], nem sequer para mim. Como família, decidimos que eu não podia prosseguir com aquela gestação e chegamos à decisão de que interrompê-la era o certo. Fiquei de coração partido”, admite, relembrando aquela conversa que teve com os pais. Embora ela não especifique a data, tudo isso deve ter acontecido em meados ou final da década de oitenta.

Na época, uma amiga mais velha, que morava na Alemanha, se ofereceu para ajudá-la, levando-a até seu médico em Colônia, onde foi submetida a um aborto com anestesia local. Permaneceu completamente consciente na maca “enquanto o doutor, um homem muito amável, explicava cada passo do processo conforme ia avançando. Doeu muitíssimo, mas não me queixei. Eu tinha internalizado tanto aquela vergonha que senti que merecia a dor”. Thurman ainda recorda a compreensão e amabilidade daquele médico, que lhe disse que a jovem norte-americana lembrava a sua própria filha. “Um gesto de humanidade que ficou na minha mente como um dos maiores momentos de compaixão que já vivi”, afirma.

“Nesta história há muita dor. Até agora foi meu segredo mais sombrio. Tenho 51 anos e o compartilho isto com vocês no lar onde criei meus três filhos, que são meu orgulho e minha alegria”, escreve Thurman em seu artigo. “Minha vida foi extraordinária, às vezes com dor, desafios, medos e perdas, como tantas outras mulheres, mas também esteve marcada, como para tantas, pela força e a compaixão. Concebi meus mágicos e lindos filhos com homens que amei e em quem confiei o suficiente para trazer uma criança a este mundo. Não me arrependo do meu caminho. Aplaudo e apoio as mulheres que escolhem outras opções. O aborto que vivi quando adolescente foi a decisão mais dura da minha vida, que me causou angústia e a que até hoje ainda me entristece, mas foi o caminho para a vida cheia de alegria e amor que experimentei. Escolher não manter aquela prematura gestação me permitiu crescer e me transformar no tipo de mãe que eu queria e precisava ser.”

A atriz tem três filhos de dois parceiros diferentes. Em 1990 se casou com Gary Oldman, de quem se separou em 1992 sem ter filhos. Em maio de 1998 se casou com o também ator Ethan Hawke, com quem teve dois filhos – Maya, de 23 anos que está começando sua carreira de atriz, e Levon, de 21. O casal se separou cinco anos depois e concluiu seu divórcio em 2005. Além disso, no ano 2007 a protagonista de Pulp Fiction e Kill Bill começou a sair com o financista francês Arpad Busson, de quem chegou a ficar noiva em 2008. Romperam pouco depois, mas voltaram a se relacionar em 2014, embora sua relação tenha acabado rapidamente. Em julho de 2012 a atriz deu à luz uma menina chamada Luna, cujo acordo de custódia a levou a um longo confronto com Busson, numa disputa afinal vencida pela atriz.

Em sua carta, Thurman admite que não tem nada a ganhar ao fazer esta revelação, “e talvez muito a perder”. Mas acredita que contando sua duríssima experiência talvez possa ajudar a “lançar uma luz que chegue a mulheres e meninas que sintam vergonha e não possam proteger a si mesmas nem tenham quem o faça”. “Garanto que ninguém se encontra nesta situação de propósito”, acrescenta.

Para a atriz, a lei texana é um ataque às mulheres, uma “ferramenta discriminatória contra quem está em desvantagem econômica e contra seus parceiros”. “As mulheres e os filhos de famílias ricas têm todas as possibilidades do mundo e enfrentam poucos riscos”, argumenta. Além disso, afirma que lhe dói que esta seja uma lei que ponha os cidadãos uns contra os outros, e que além disso impeça que as mulheres deixem de ter filhos dos quais não podem cuidar. “Elas extinguem suas esperanças de escolher a família que querem ter no futuro”, disse. E, para concluir sua carta, lança uma mensagem “a todas as mulheres e meninas do Texas, com medo de ficarem traumatizadas e serem perseguidas por predadores caça-recompensas; a todas as mulheres indignadas porque o Estado lhes tirou o direito sobre seu corpo; a todas as que foram transformadas em vulneráveis e que sofrem vergonha por terem um útero”. A todas elas, Thurman diz: “Eu vejo vocês. Vocês têm coragem. São lindas. Lembram minhas filhas”.

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