Garimpeiro que invadiu terra Yanomami nos anos 80 é líder dos lobistas a favor da exploração em área indígena

Ex-deputado, Elton Rohnelt, que já foi dono de garimpo, atua no Instituto do Desenvolvimento da Mineração e diz que cobiça em área Yanomami não vai parar

Indígena yanomami acompanha agentes do órgão ambiental brasileiro durante operação contra mineração ilegal de ouro em terras indígenas, em 2016.
Indígena yanomami acompanha agentes do órgão ambiental brasileiro durante operação contra mineração ilegal de ouro em terras indígenas, em 2016.Bruno Kelly (Reuters)

A vida do gaúcho Elton Rohnelt , de 80 anos, explica muito o Brasil do Governo Jair Bolsonaro. Com longa história de atuação empresarial e política na Amazônia, foi protagonista e defensor da exploração de minério em terras indígenas muito antes de Bolsonaro ser um homem público. Rohnelt já foi diretor de madeireira, dono de garimpo, um dos líderes da invasão garimpeira nas terras Yanomami nos anos 80, e deputado federal por Roraima de 1995 a 2003. Ocupou diversos cargos públicos em Roraima, foi vice-líder do governo Fernando Henrique Cardoso e assessor direto de Michel Temer. Hoje, Rohnelt atua como presidente emérito da Câmara de Gestão e Estudos Superiores do Instituto do Desenvolvimento da Mineração (IDM Brasil) ― a organização responsável por toda a assessoria técnica a e interlocução com o setor mineral feita para a Frente Parlamentar da Mineração em Brasília.

Em tempos de preservação ambiental, Rohnelt defende os interesses de quem pretende explorar minério e minimiza, por exemplo, a invasão de garimpeiros do Rio Madeira, cujas imagens chocaram o mundo na semana passada. De acordo com o empresário, os conflitos têm que ser resolvidos pelo Estado brasileiro. “O garimpeiro não está fora da lei, quem está fora da lei é o Estado brasileiro que não legisla, deixa o cara fora da lei para levar porrada”. Na visão de Rohnelt, quem descobre ouro nos Estados Unidos ou Canadá “vira herói”, e tem auxílio do Governo. “Não interessa se é área indígena. Onde for, o Governo vai ajudar. Aqui no Brasil não, preferem que vá tudo para o contrabando”, diz.

É um dos maiores defensores do Projeto de Lei 191, enviado ao Congresso pelo próprio Governo, com o intuito de liberar mineração, agronegócio e outras atividades em terra indígena. “O subsolo não é do índio, é da União, do Governo brasileiro. Pronto, acabou, se o Governo brasileiro tem interesse no subsolo, o índio não pode fazer nada. O Governo pode fazer o que bem entender”, diz Rohnelt, em entrevista por telefone. Para ele, Bolsonaro está “patinando” e é atrapalhado por “servidores que estão dentro do governo e são contrários ao país, gente infiltrada da esquerda”, incluindo Ibama e Funai, que sabotam a gestão federal, em sua opinião.

O sonho de Rohnelt de explorar a Amazônia vem de longa data. Em sua época de deputado, Rohnelt foi relator do Projeto de Lei n. 1610 de 1996, do ex-senador Romero Jucá, o primeiro a tratar sobre a exploração mineral em terras indígenas. A relatoria de Rohnelt foi simples: apoiou integralmente o projeto. Segundo o empresário, Jair Bolsonaro fez diversas viagens em sua companhia por volta de 1997, quando ambos eram deputados, especialmente na área da Cabeça do Cachorro, na fronteira com a Colômbia e a Venezuela. O objetivo das visitas, que incluiu São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, cidade com 90% de indígenas, era “conhecer a região e ver a atuação do Exército”. Bolsonaro conheceu Seis Lagos, na mesma área, considerada a maior reserva de nióbio do planeta. É possível que venha daí a obsessão de Bolsonaro com o nióbio.

Apesar da empolgação em aumentar as exportações, o mercado afirma que as reservas conhecidas e em exploração de nióbio hoje no mundo ― com destaque para Araxá, em Minas Gerais ― são suficientes para os próximos 200 anos.

O último cargo político que Rohnelt tentou foi em 2014: obteve 920 votos para deputado federal por Roraima, concorrendo pelo PSDB. Declarou patrimônio de R$ 926 mil ao TSE e bens que incluem tratores, uma aeronave e uma balsa. Sobre o PL 191/2020, enviado por Bolsonaro ao Congresso em fevereiro de 2020, Rohnelt é totalmente a favor. A única condição seria não assassinar indígenas e respeitar os povos que vivem em isolamento. O governo pode fazer o que quiser, “desde que não prejudique o índio”, diz. “Não vai matar o índio, vai negociar, pagar royalty, como é nos EUA. Não tem diferença nenhuma”, acredita.

O gaúcho Elton Rohnelt é o terceiro da esquerda para a direita.
O gaúcho Elton Rohnelt é o terceiro da esquerda para a direita.Isac Nóbrega (Presidência da República)

A experiência americana está longe de ser referência, porém. O histórico de contaminações é vasto, incluindo centenas de minas radioativas de urânio abandonadas em terras indígenas, ameaças constantes a locais sagrados, acordos desrespeitados e completa assimetria de forças. O cenário se repete no Canadá, na Austrália e no Chile, todos tidos como exemplo pelo Governo Bolsonaro.

Elton Rohnelt diz que “o índio isolado” tem que “ser defendido pela sociedade brasileira”. No entanto, o PL 191 prevê que, em caso de exploração mineral em terras com indígenas isolados, “a Funai estabelecerá os limites necessários à proteção destas comunidades”. Hoje, eles circulam livres. Em caso de TI’s com presença mista, em que convivem os isolados com as demais comunidades, como na TI Yanomami, isso no mínimo causaria novos conflitos. Rohnelt considera que o indígena que vive em cidades ― cerca de 40% população, segundo o IBGE ― “nem índio é mais”.

Negação do genocídio Yanomami

Ao falar sobre a realidade na TI Yanomami, que enfrenta graves conflitos causados pelo garimpo, Elton Rohnelt nega que ocorreu um genocídio na TI Yanomami nos anos 80 e se apresenta como um dos líderes da invasão garimpeira. Segundo o empresário, que afirma que estava na região tirando ouro na época, “não tinha nada”.

De acordo com relatório da Comissão Nacional da Verdade, Romero Jucá, presidente da Funai de 1986 a 1988, foi o principal responsável por permitir a invasão de 40.000 garimpeiros no território Yanomami. A negligência “ceifou milhares de vidas e aniquilou aldeias inteiras”. Os garimpeiros contaram com o apoio direto de Jucá e do Governo federal, destaca o relatório. “Não há um número oficial de mortos em decorrência dessas invasões, mas se estima que chegue aos milhares. Comunidades inteiras desapareceram em decorrência das epidemias, dos conflitos com garimpeiros, ou assoladas pela fome”, afirma o texto.

Para Elton Rohnelt, isso é “mentira” e o relatório “seria coisa de gente da esquerda”. “Me prova onde houve genocídio. Prove, porra. Genocídio, oh, que horror. Quantos morreram lá? Onde foi? Em que lugar? Nunca ouve genocídio na Amazônia”, disse Rohnelt. Segundo o empresário com décadas de atuação no garimpo, a exploração na TI Yanomami não vai acabar porque “é muito ouro” e os garimpeiros “não vão parar” porque “pegam o ouro com a mão”.

Negócios na Cabeça do Cachorro

Desde o final dos anos 80 que Elton Rohnelt tem dezenas de requerimentos para exploração mineral em terras indígenas, incluindo a TI Yanomami. Isso causou controvérsia na época da sua relatoria do projeto de lei de Romero Jucá.

O assunto voltou a ser questionado quando Rohnelt assumiu o cargo de assessor direto de Michel Temer, em 2018. Matéria do jornal Folha de S. Paulo relatou que Rohnelt, junto com seu sócio Otávio Lacombe, estava assediando comunidades indígenas da TI Alto Rio Negro, na Cabeça do Cachorro, para explorar tantalita, usada na indústria eletrônica. As investidas incluiriam doações de barco e outros equipamentos, pagamento por amostra de minério e promessas de cesta básica, afirma a reportagem. A justificativa técnica usada seria o Estatuto do Índio de 1973, que permitiria a garimpagem rudimentar. Mas Lacombe também incentiva e assessora a criação de cooperativas indígenas, inclusive com o estatuto já pronto, diz a matéria. É a mesma estratégia usada por empresários ligados a Bolsonaro no Pará, na TI Kayapó, por exemplo.

Segundo Rohnelt, é Lacombe que na época estava “tentando fazer negócios com os índios” e criar cooperativas para mineração, inclusive em outros Estados como o Pará. Hoje, os sócios estão separados, diz Rohnelt, que manteve 30% de participação na Gold Amazon / Mineração da Amazônia, “no nome de outras pessoas”, admite. O empreendimento de sociedade começou no início da década de 80 entre Rohnelt e o pai de Otávio Lacombe.

Segundo o presidente emérito do IDM Brasil, Lacombe continua trabalhando da mesma maneira no Alto Rio Negro e na Cabeça do Cachorro. “Meu relacionamento com ele hoje é muito ruim, não nos falamos. Ele foi usando meu nome, entrando, porque não era conhecido [pelos indígenas], e me prejudicou”, alega Rohnelt.

Segundo dados recentes da Agência Nacional de Mineração, 75 requerimentos incidem sobre a TI Alto Rio Negro, sendo dois da Mineração da Amazônia, ambos dos anos 80, com movimentação em 2019, para explorar prata e ouro. Na TI Yanomami, a Mineração da Amazônia possui 28 requerimentos, todos de 1988 e a grande maioria com movimentação mais recente de 2001. Ouro, estanho, nióbio, tântalo, tungstênio e manganês são as substâncias visadas. No geral, a TI Yanomami registra quase 500 requerimentos minerários.

*Esta reportagem foi originalmente publicada em Observatório da Mineração

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