O Brasil busca o ‘novo normal’ pós-covid, sob alerta de especialistas para não queimar a largada

Com o aumento da população totalmente imunizada e a queda no número de mortes diárias, mais pessoas buscam retomar hábitos de lazer e convívio social. Especialistas pregam prudência

Rita toma um café em área ao ar livre na Vila Madalena, em São Paulo
Rita toma um café em área ao ar livre na Vila Madalena, em São PauloLela Beltrão

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Desde o início da pandemia da covid-19 a família da professora Maria Rita Bicudo Rosa, 53, cumpriu uma quarentena estrita. “Eu, meu marido e nossos dois filhos chegamos a ficar 75 dias sem colocar o pé na rua para nada”, lembra. Agora, após ter recebido as duas doses da vacina, ela começa a redescobrir pequenos prazeres ao furar a bolha do isolamento social total. “A primeira coisa que eu fiz após completar a imunização foi ir à manicure, ainda que de máscara, algo que eu não fazia há mais de um ano e meio”, conta. Aos poucos foi ganhando confiança, e no último final de semana se encontrou com amigos pela primeira vez em mais de 17 meses: “Fizemos um happy hour, todos já com a segunda dose e em um local super aberto e ventilado”.

Conforme a vacinação avança no país — mais de 35% da população está completamente imunizada —, os números de casos e mortes provocados pela covid-19 registram tendência de queda. A média de mortes diárias, por exemplo, hoje está em 565, segundo o consórcio de veículos que monitora os dados da pandemia junto às secretarias de Saúde dos Estados. Este cenário, bem menos apocalíptico quando comparado ao auge da crise sanitária vivido em março deste ano em que o país registrou de 3.000 a 4.000 mortes ao dia, faz com que milhões de brasileiros que se mantiveram confinados comecem a tatear uma vida mais normal e menos isolada, assim como a professora Rosa. Atividades antes vistas como perigosas em meio à pandemia, como tomar um chopp com amigos ou ir ao cinema, começam a ganhar cada vez mais força.

Mas especialistas da área de saúde afirmam que o momento atual do país ainda não permite relaxar com as medidas de proteção, ao menos não completamente. “Acho que é muito complicado falar sobre voltar ao normal com a transmissão do vírus ainda em ritmos elevados”, afirma Mellanie Fontes-Dutra, biomédica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e divulgadora científica pela Rede Análise Covid-19. “Restaurantes e bares são propícios para aglomerações. E nos locais onde alimentos e bebidas são servidos, as pessoas tiram a máscara, o que aumenta o risco de transmissão”, diz.

Nestes casos, o risco não é só de quem resolve bebericar em um bar lotado. “Mesmo tendo só pessoas completamente vacinadas na mesa, existe o risco de que um indivíduo imunizado e assintomático possa infectar um vulnerável”, diz Fontes-Dutra. A pesquisadora recomenda que caso haja a necessidade de realizar um encontro, que seja em um ambiente aberto, bem ventilado, “onde se possa manter um certo distanciamento, ainda mais se for haver consumo de alimentos”. “Existem formas de fazer algumas coisas com o avanço da vacinação, mas não podemos flexibilizar demais”, afirma, citando como exemplo países que “queimaram a largada” e tiveram aumento e casos. “É preciso que as pessoas busquem entender os riscos envolvidos em cada ambiente que elas pretendem frequentar”.

É isso que a professora Rosa tem feito. Apesar de ter participado de um happy hour com amigos também imunizados e em um local ventilado, ela coloca barreiras para algumas outras atividades. “Ainda não me sinto confortável para ir ao cinema, por exemplo, tampouco para viajar de avião. São duas coisas das quais sinto falta, mas acho que não é a hora, tenho medo de ir agora”, afirma a professora. “É um processo [o retorno às antigas atividades]. Achei que seria bem difícil voltar a encontrar as pessoas, mas depois que acontece o reencontro... Não me arrependo não”.

A orientação dos especialistas continua sendo o uso de máscaras, se possível PFF2, em locais fechados, e distanciamento social. “Estas atividades de lazer são importantes, existe uma questão de saúde mental. Agora, é preciso avaliar a questão do risco. Quem mora com idosos, por exemplo, precisa ter um cuidado redobrado, uma vez que as vacinas têm um efeito reduzido nesta população mais velha”, diz Ana Freitas Ribeiro, medica sanitarista do serviço de epidemiologia do hospital Emilio Ribas. “Tire a máscara para comer ou beber preferencialmente em um local ventilado e aberto. Vai ao cinema? Não há necessidade de ficar sem máscara, qualquer um aguenta duas horas de filme sem se alimentar dentro da sala”, afirma.

O retorno ao trabalho presencial

Não é apenas no campo do lazer que a população começa a sentir mudanças. Com o aparente declínio da pandemia, empresas que adotaram o home office durante o período mais agudo da crise aos poucos começam a discutir um retorno do trabalho presencial. “Nestes casos um ambiente bem ventilado e o uso de uma máscara boa são fundamentais”, afirma Ribeiro. Há ainda um agravante: conforme o fim do ano se aproxima, as temperaturas começam a subir em boa parte do país. Neste contexto climático, o ar-condicionado, amigo do frescor mas inimigo da ventilação dos ambientes, costuma ser acionado nos escritórios. “Aí é necessário que se invista em distanciamento e máscara PFF2”.

Aos poucos as empresas começam a estudar modelos de trabalho parte presencial e parte remoto para seu pessoal que atua em home office. É o caso da multinacional do setor de alumínio Novelis, cuja equipe do setor administrativo do escritório em São Paulo trabalha de casa desde o início da pandemia. “Para estes funcionários estamos fazendo uma experiência piloto de retorno no modelo híbrido, um pouco em casa e um pouco no espaço da empresa. Apenas quem já está 100% vacinado ou quem tomou apenas uma dose mas realizou um teste PCR pode, de forma voluntária, voltar ao escritório”, afirma Glaucia Teixeira, vice-presidente de recursos humanos da Novelis América do Sul.

Nos últimos meses a companhia mudou para um novo prédio, onde adotou o conceito de salas abertas, abolindo portas e paredes. “Toda a equipe, incluindo diretoria e o presidente, ficam em um espaço aberto e mais ventilado”, afirma Teixeira. Além disso, divisórias de acrílico foram colocadas nas mesas, e espaços que devem ser deixados vagos para garantir o distanciamento social foram identificados com um X. A máscara é obrigatória o tempo todo, menos na hora da alimentação. Para este grupo de 17 funcionários voluntários que participam desta experiência piloto, o almoço fora do escritório também está vedado: “Podem levar a própria marmita ou pedir delivery. Neste primeiro momento queremos evitar que comam fora, porque a refeição é um momento de exposição também”.

A vacinação no ambiente de trabalho também é uma preocupação por parte dos funcionários brasileiros. Um levantamento feito pela rede social Linkedin, que ouviu 1.000 trabalhadores que migraram para o home office durante a pandemia, aponta que 90% deles defendem que as empresas exijam a imunização contra covid-19 na volta aos escritórios. Nos Estados Unidos a obrigação da vacina para o retorno ao trabalho presencial já é uma exigência por parte de corporações como o Citigroup, Facebook, Google e McDonalds. No Brasil, a Gol foi uma das primeiras a se posicionar neste sentido: em agosto a companhia aérea divulgou comunicado afirmando que irá exigir vacinação completa de seus funcionários até novembro.

Além disso, a pesquisa da LinkedIn aponta que 30% dos funcionários preferiria manter o modelo de home office em tempo integral, 27% desejam retornar ao escritório e 43% gostariam de um modelo híbrido de trabalho, parte em casa e parte na empresa.

Mas para além da vacinação obrigatória “e necessária”, Ribeiro sugere uma política de testagem por parte das empresas para que funcionários infectados, ainda que assintomáticos, sejam afastados do convívio no escritório. “Assim você garante que o vírus não está se propagando livremente entre os funcionários no ambiente de trabalho. Mas não é algo que deve ser feito uma vez por semestre, é necessária uma política que envolve testagens recorrentes”, afirma.

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