Legislativo

Mistério ronda a agressão a Joice Hasselmann

Deputada acordou no chão do seu quarto ensanguentada e diz ter achado que havia tido um AVC. Mas exames revelaram fraturas que sugerem uso de força. Chegou-se a suspeitar de que marido a tivesse agredido, o que ambos negam. Parlamentar vê possível ataque quando estava dormindo e apontou dois suspeitos para o Departamento da Polícia Legislativa, que investiga o caso

A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) é fotografada com hematomas no rosto em seu apartamento funcional em Brasília, na última sexta-feira.
A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) é fotografada com hematomas no rosto em seu apartamento funcional em Brasília, na última sexta-feira.GABRIELA BILO / ESTADÃO CONTEÚDO

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A deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) surpreendeu o Brasil na semana passada ao expor seu rosto inchado, o queixo machucado e vários hematomas, além de imagens de um dente que quebrou. Segundo ela mesma relatou a vários jornais, ela acordou de bruços no chão do seu quarto, no domingo, 17, e notou que havia sangue no chão. A deputada sentiu dor em várias partes do corpo e procurou recobrar os últimos acontecimentos para entender o que pode ter acontecido. Havia adormecido vendo uma série na TV por volta da uma hora da manhã e dali em diante não lembrou mais de nada. Foi se arrastando até a mesa de cabeceira para pegar o celular e descobriu que eram 7h03. Ligou para o marido, o neurocirurgião Daniel França, que dormia em outro quarto e fez os primeiros socorros da esposa.

Hasselmann vive no edifício funcional a que os parlamentares têm direito em Brasília, na Asa Norte da cidade. Tem a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, como sua vizinha de baixo. Sem memórias dos momentos anteriores, acreditou, a priori, tratar-se de um tombo que pudesse ter impactado a cabeça, ou ainda um eventual mal súbito ou AVC, como contou em várias entrevistas, incluindo uma coletiva neste domingo em sua casa ao lado do marido, com quem se casou em 2016. De mãos dadas, responderam a todos os questionamentos, inclusive sobre a suspeita que correu no país todo de que fosse um caso de violência doméstica. “Todo mundo me conhece, eu seria a primeira pessoa a fazer todo barulho, trazer polícia aqui para dentro e o colocando para fora se ele ousasse falar alto comigo”, disse a deputada com firmeza, sem soltar a mão de França, que garantiu: “Nunca agredi ninguém”.

A parlamentar é famosa por se expor nas redes sociais e não é dada a dissimulações. Ao contrário, ganhou inimigos políticos por não ter freios para falar em qualquer circunstância. Já chorou em público quando sofreu ataques virtuais de toda sorte, incluindo aqueles referentes a sua aparência. É aqui que entra um mistério que a deputada espera que as autoridades decifrem. França dorme em outro quarto porque, segundo ele, ronca muito. “Eu estava dormindo com a porta fechada no meu quarto, que não é do lado do quarto dela. Eu imaginei que tinha caído já sem consciência”, disse França na coletiva. “Ela me disse ‘eu caí' e imaginei que era um acidente doméstico”, conta.

Embora a esposa reagisse bem, o marido diz que insistiu para que ela fizesse exames mais detalhados diante dos ferimentos pois ela sentia muita dor na face e nos joelhos. Foi quando os exames saíram que o casal passou a se preocupar. Os médicos acreditavam que ela havia caído da escada ou havia sofrido um acidente, pois havia galos na cabeça, na nuca, além de fraturas no rosto e na coluna.

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“Até quarta de manhã eu achava que era um tombo. Minha mãe já teve princípio de AVC mais ou menos na minha idade”, relatou Hasselmann, ainda com curativos no queixo. O histórico familiar poderia justificar uma queda, acreditou. Diante da surpresa dos exames, a deputada e o marido descartaram essa hipótese ou a de um apagão inesperado. E começaram a pensar em algo mais grave. Um ataque que a tivesse deixado desacordada enquanto apanhava. Alguém que possa ter entrado no apartamento e dado uma surra na deputada, algum desafeto de Brasília que conhecesse sua rotina. Uma hipótese que pode configurar uma tortura sofisticada, da qual o mundo político ainda não tinha notícia. “Eu tenho duas suspeitas”, contou a deputada, que denunciou o caso ao Departamento de Polícia Legislativa (Depol), incluindo os nomes que ela cogita como responsáveis.

Suas suspeitas ficaram mais fortes quando expôs sua situação e a foto do rosto inchado e machucado na última quinta-feira. Enfrentou a fúria das milícias virtuais, que começaram a desacreditá-la e passaram a atacar o seu marido. A máquina de fake news atuou a todo vapor, incluindo montagem de um jornal com o logotipo do Estadão de que ela na verdade teria sofrido um acidente. “Uma fonte do GSI [Gabinete de Segurança Institucional] me contou que queriam vazar a tese do acidente”, relatou ela, que virou inimiga número 1 dos bolsonaristas depois que rompeu com o presidente Jair Bolsonaro, de quem chegou a ser líder de Governo.

A tese levantada pelo casal despertou toda sorte de questionamentos. Se ela era sonâmbula, se não era uma reação a algum remédio, se não estariam ocultando uma briga, se de fato não teria saído de casa, ou misturado bebida com medicação. Na coletiva deste domingo, eles responderam a tudo por mais de uma hora de conversa. Falando com serenidade. Ela contou que sofre de insônia e há 20 anos toma uma dose de sonífero que a deixa dormir por três horas. “Não houve nada de diferente de outros finais de semana em casa”, diz. Contaram que os apartamentos funcionais têm algumas falhas de segurança. Como não avisar quando um convidado está chegando, e ele bater à porta sem prévio aviso. Ela relatou que a Câmara tem cópias de chaves dos apartamentos funcionais. Detalhes que a deputada pediu pra serem investigados pelo Depol. “Eu recebo ameaças de morte, que eles já investigam”, relata Hasselmann, que teme qualquer interferência em investigação num Governo que pressiona a Polícia Federal sobre seus desafetos.

Ao tornar o assunto público, a deputada ajuda a blindar a investigação. A expectativa agora é levantar evidências em câmeras de segurança do prédio e dos arredores, bem como uma pesquisa acurada dos que circulam no imóvel só frequentado por parlamentares para chegar a alguma conclusão. “Três meses atrás apareceu um caixa de cigarros aqui. Ninguém fuma”, contou, aumentando o mistério em torno do episódio.

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