Pandemia de coronavírus

‘Pirata da vacina’ que negociou com ministério, Davati montou esquema para lucrar com prefeituras de Minas

EL PAÍS reconstrói passos da empresa que, com ‘kit prefeituras’ composto por documentos toscos, obteve autorização de municípios mineiros para negociar imunizantes em seu nome. Eles ofereciam doses da Janssen, sem a chancela da farmacêutica

Davati oferecia vacinas da Janssen sem ter vínculo com a farmacêutica.
Davati oferecia vacinas da Janssen sem ter vínculo com a farmacêutica.SANDER KONING / EFE

Isaías Nunes é um vendedor autônomo com experiência em comércio exterior. Ele vende praticamente qualquer coisa que dê lucro, inclusive material hospitalar, mas sua especialidade, hoje, é um triciclo elétrico com pintura que imita o uniforme do Homem Aranha conhecido como drift car. Foi com este currículo que Nunes mobilizou dezenas de prefeituras no interior de Minas Gerais prometendo milhares de doses da vacina Janssen em nome da Davati Medical Supply, empresa que negociou imunizantes com o Ministério da Saúde e cujo representante diz ter ouvido proposta de propina de um diretor da pasta.

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A prefeitura da pequena Borda da Mata, com 20.000 habitantes e a 350 km de Belo Horizonte, chegou a autorizar a Davati a negociar em seu nome a compra de entre 15.000 e 200 milhões de doses da Janssen que poderiam ser revendidas a municípios de outros Estados e até outros países da América do Sul. Detalhe: embora assinada pelo prefeito, a carta autorizava a negociação em nome do Ministério da Saúde.

“Nunca vendi vacina. Vendo brinquedos, drift car. Este é o meu negócio. Tudo o que aparece a gente vai vendendo”, explicou Nunes.

Documentos, diálogos e trocas de mensagens aos quais o EL PAÍS teve acesso mostram como a Davati, com um esquema tosco e falsificações grosseiras, arregimentou um batalhão de pessoas sem qualquer intimidade com a área da saúde, mas com algum trânsito junto a pequenas prefeituras, para se aproveitar da ansiedade gerada pela falta de vacinas e tentar obter lucro fácil no momento mais grave da pandemia da covid-19 no Brasil.

A Davati está na mira da CPI da Pandemia depois que um representante dela, o PM Luiz Paulo Dominguetti Pereira, afirmou à Folha de S. Paulo ter ouvido uma exigência de pagamento de propina do então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, enquanto negiociava a venda de imunizantes da AstraZeneca. Exonerado em meio meio ao escândalo, Dias nega ter feito a proposta e deve depor nesta quarta ao senadores. Seja como for, documentos do ministério mostram que a negociação com a Davati, que contou com o apoio de uma ONG religiosa e de um deputado bolsonarista, foi, sim, levada a sério na pasta apesar de ser autorizada pela farmacêutica.

“O que eu não entendo é como o Governo federal não percebeu que este esquema tinha alguma coisa de errado a ponto de negociarem 400 milhões de doses com pessoas desqualificadas. A gente percebeu logo que era um golpe. Não é possível o presidente [Jair] Bolsonaro continuar em silêncio”, disse o ex-sindicalista Wagner Cinchetto, um dos envolvidos na negociação com as prefeituras mineiras.

Cinchetto é um velho conhecido de quem acompanha os escândalos da política nacional. Duas décadas atrás ele integrou o bunker montado pela pré-campanha do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva para produzir dossiês contra adversários. Depois passou a denunciar corrupção no meio sindical, contribuiu na apuração de irregularidades na emissão de cartas sindicais durante os Governos do PT, investigados na Operação Registro Espúrio, da Polícia Federal, e em 2018 se aproximou de Bolsonaro. Nunca trabalhou na área da saúde, mas foi cooptado pela Davati por ter bom trânsito em algumas prefeituras do Sul de Minas. Ele diz que foi apresentado a Isaías Nunes por um amigo em comum, Antonio Olimpio, que mora em Montes Claros, Norte de Minas.

No primeiro momento o objetivo era negociar testes de covid-19 e material hospitalar, mas a ideia logo evoluiu para as vacinas, mediante uma comissão que seria adicionada ao custo dos imunizantes. Além dele, um outro homem, identificado apenas como Bruno, também passou a integrar o grupo que oferecia a vacina aos municípios. No final de fevereiro Cinchetto e Nunes combinaram um encontro na divisa entre Minas Gerais e São Paulo para acertar detalhes. O período coincide com as negociações da Medida Provisória aprovada pelo Senado e a autorização dada pelo Superior Tribunal Federal (STF) para que prefeituras e governos estaduais também pudessem comprar os imunizantes e precedia o início da segunda onda da covid-19 no país. Antes o monopólio era do Ministério da Saúde.

Isaías Nunes chegou ao encontro em uma Harley Davidson e, segundo Cinchetto, se apresentou como representante de Cristiano Carvalho, homem que fala oficialmente em nome da norte-americana Davati no Brasil. “Minha moto foi até multada na estrada”, lembra o vendedor. Para convencer os prefeitos de que o negócio, apesar de todas as evidências, era legal, Nunes encaminhou aos parceiros cópias de “documentos”, segundo eles repassadas por Carvalho, que compunham uma espécie de “kit prefeituras”.

Compunham o kit uma carta em inglês na qual a Davati apresentava Carvalho como seu representante no Brasil; cópias de textos publicados no site do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, a agência de saúde dos EUA) e da Johnson & Johnson, fabricante da Janssen, sobre aspectos técnicos da vacina; uma carta da Frente Nacional de Prefeitos falando sobre a autorização de aquisição pelas prefeituras e a montagem grosseira de uma “credencial” da farmacêutica que apresenta a Davati como “facilitator” (intermediária) da empresa no Brasil. No panfleto intitulado “como adquirir!”, ilustrado com imagens da Janssen, a Davati dizia que “o fator tempo hoje é crucial” e “desejamos que nosso modus operandi seja dinâmico”. Além disso, segundo uma das mensagens, Cristiano Carvalho alegava estar em negociação com grandes prefeituras como a de São Paulo ―”a maior da América Latina”― e prometia entregar as doses 72 horas depois da compra.

A Janssen, por meio de sua assessoria, negou qualquer relação com a Davati. “A Janssen não tem nenhuma relação contratual ou de representação com a empresa Davati Medical Supply. Reiteramos que as negociações para o fornecimento da vacina desenvolvida pela Janssen contra a covid-19 estão sendo efetuadas somente e diretamente pela liderança da empresa no Brasil e exclusivamente com o Ministério da Saúde. Nenhuma pessoa física ou empresa está autorizada a negociar em nome da Janssen com nenhum ente público ou privado, seja direta ou indiretamente.” O secretário municipal de Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, também negou que a prefeitura tenha conversado com a Davati. “Fizemos conversas com os CEOS da Jhonson & Jhonson. Acha que aceitaríamos isso? Esses caras são golpistas”, disse ele.

Segundo Cinchetto, cerca de dez prefeituras assinaram cartas de intenção de compra. Escritas em inglês, as minutas eram enviadas pela Davati. Como alguns prefeitos não dominam o idioma estrangeiro, acabaram assinando os documentos sem saber qual era o conteúdo. Isso explica o fato de Borda da Mata ter autorizado a Davati a comprar 15.000 doses, ampliáveis para até 200 milhões (o suficiente para vacinar 10.000 vezes toda a população da cidade) em uma carta datada do dia 19 de março. O documento fala em repassar o imunizante para cidades do Estado de São Paulo e outros países da América do Sul e chega a dar detalhes sobre frete, certificação e embarque. Outra minuta, sem data e com teor mais detalhado, dizia que a compra seria para o Ministério da Saúde. O pagamento seria feito a uma “conta de garantia de terceiro, estabelecida pela Davati”.

Pessoas envolvidas no esquema acham que a Davati queria se aproveitar da autorização conferida pelo Senado e pelo STF às prefeituras para transformar as pequenas administrações municipais em intermediárias de seus negócios. O esquema começou a ruir quando Nunes e seus parceiros passaram a cobrar mais garantias da Davati.

“Quis saber mais informações sobre a vacina, documentos, certificados etc., mas não foi enviado pela pessoa que me ofereceu a possibilidade de negócio. Foi uma pessoa chamada Cristiano. Disse que era representante de uma empresa”, disse Nunes.

Àquela altura, o vendedor de triciclos do Homem Aranha sofria forte pressão dos outros envolvidos. “Você vem querer dar 171 e me colocar numa fria? Já fiz contato com dois agentes da Polícia Federal. Espero que não tenha complicação para mim porque se queimar meu filme com os prefeitos vou arrolar todo mundo. Acha que estão mexendo com bobo? Boto no rabo de todo mundo. Vocês não sabem o mato em que estão lenhando”, disse o homem identificado apenas como Bruno em mensagem de áudio para Nunes já em meados de março.

O vendedor então fez uma nota na qual abortava o negócio. “A [sic} aproximadamente duas semanas fomos procurados pelo Sr. Cristiano Carvalho, representante da Davati Medical, o mesmo se apresentou como representante para vendas de vacina da Jhonson e Jhonson [sic], inclusive foi apresentado documentos e negociações com grandes prefeituras, como a de São Paulo (maior cidade da América Latina), em diversas reuniões por vídeo conferência Carvalho foi tachativo em afirmar que após o contrato assinado com a farmacêutica em até 72 horas as vacinas seriam entregues no Brasil”, diz a nota.

De acordo com prefeitos ouvidos pelo EL PAÍS, em momento algum se falou em preço das vacinas e formas de pagamento. Em uma troca de mensagens, no entanto, Isaías dizia que a Janssen seria vendida a 10 dólares a dose para São Paulo e seus parceiros poderiam ganhar 20 centavos de dólar por unidade a título de comissão.

Nunes diz que só levou o negócio adiante porque não havia pedido de pagamento adiantado e, portanto, segundo ele, nenhum risco de golpe. Cinchetto, no entanto, diz que uma parcela do pagamento deveria ser feita no ato do suposto embarque dos imunizantes e que se chegou a cogitar o acréscimo de 2 dólares por dose como forma de lucro pela intermediação.

Nunes tem memória fraca. No primeiro contato, disse que ofereceu a AstraZeneca e, só depois de confrontado com a nota escrita por ele próprio, se lembrou de ter ofertado a Janssen. Ele também disse não se recordar do preço e não explicou como chegou à Davati e a Cristiano Carvalho. “Fiquei sabendo de uma possível oferta de vacina que estava sendo disponibilizada para municípios. Daí quis saber mais informações sobre a vacina, documentos, certificados etc. e como não tive logo em seguida abortei essa possível negociação”, afirmou ele.

Além de Minas Gerais, a Davati tentou vender vacinas a cidades de São Paulo, Goiás e Paraná. A empresa, segundo reportagem da Folha de S. Paulo, possui apenas três funcionários em sua sede nos EUA e também tentou vender imunizantes a reservas indígenas do Canadá, sem sucesso.

Procurada, a Davati, por meio de sua assessoria, enviou a seguinte nota: “Os advogados no Brasil da Davati Medical Supply, Silveiro Advogados, informam que estão analisando o caso. Em relação à proposta de intermediação na venda de vacinas, consigna-se que não houve concretização de venda no país por não se ter recebido manifestação de interesse de compra por parte do Ministério da Saúde, pois nunca foi assinado nenhum documento. A empresa estará à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos juridicamente necessários, certa de que não houve, de sua parte, qualquer procedimento indevido”.

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