CPI mira suspeita de crime na compra da vacina Covaxin enquanto confronta mentiras de Osmar Terra

Comissão gastou mais de 9 horas ouvindo aliado de Bolsonaro, um dos maiores difusores de ‘fake news’ durante a pandemia. Nos bastidores, a expectativa maior é por depoimentos ligados à compra da vacina indiana, agora investigada pelo MPF

O ex-ministro da Cidadania, deputado Osmar Terra (MDB-RS) em depoimento na CPI da Pandemia, no Senado, nesta terça.
O ex-ministro da Cidadania, deputado Osmar Terra (MDB-RS) em depoimento na CPI da Pandemia, no Senado, nesta terça.Marcos Oliveira (Marcos Oliveira/Agência Senado)

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A CPI da Pandemia gastou mais de nove horas nesta terça-feira ouvindo o deputado Osmar Terra (MDB-RS), um aliado de Jair Bolsonaro que repetiu, diante da confrontação de senadores, todas as avaliações com mentiras ou fatos distorcidos a respeito da crise sanitária e admitiu ter aconselhado o presidente. As atenções dos senadores da comissão se dividiu, no entanto, entre Terra e os próximos capítulos da apuração. Nesta terça-feira, o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação preliminar para avaliar se houve crime no contrato firmado entre o Ministério da Saúde e a empresa Precisa Medicamentos para a compra da vacina indiana Covaxin contra a covid-19. O mais caro imunizante negociado pela pasta, em tempo recorde, custou de 80 reais contra 15 reais da Pfizer, considerando o câmbio quando o acordo foi fechado, no fim de fevereiro.

O contrato já estava na mira da CPI e do TCU (Tribunal de Contas da União), mas esquentou os ânimos a divulgação de que Luciana Loureiro, procuradora do MPF do Distrito Federal que apurava o caso na esfera cível, disse não haver justificativa para as inconsistências na negociação para a compra, “a não ser atender a interesses divorciados do interesse público”. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo também mostrou que a vacina acabou sendo comprada por um valor 1.000% acima do negociado inicialmente, de acordo com documentos diplomáticos citados no texto e já em poder da CPI. No total, o contrato tem valor de 1,6 bilhão de reais por 20 milhões de doses.

O Brasil ainda não começou a receber as doses da Covaxin e, agora, o Ministério da Saúde diz que o contrato, fechado na gestão de Eduardo Pazuello, está sob observação. Em março, um servidor da pasta já havia prestado depoimento aos procuradores dizendo ter sofrido “pressões inusuais” para fechar o negócio e ele deve falar à CPI.

“Para a Pfizer não havia nem resposta. Qual era o negócio com a Covaxin? Amanhã iremos receber na CPI o senhor Francisco Emerson Maximiano, da Medicamentos Precisa, empresa investigada por intermediar a compra da Covaxin pelo Governo”, escreveu o vice-presidente da CPI da Pandemia, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), no Twitter. Mais tarde, no entanto, Maximiano apresentou à comissão petição na qual informa que não poderá comparecer ao seu depoimento nesta quarta porque voltou em 15 de junho da Índia e precisa cumprir quarentena determinada pela Anvisa. A esperada fala de Maximiano, cuja empresa nega qualquer irregularidade, ficou para a semana que vem.

Terra nega fazer parte de ‘gabinete paralelo’

Nesta terça, Osmar Terra usou seu depoimento como testemunha na CPI reafirmar suas próprias incoerências se valendo da repetição de mentiras como a propagada fake news de que o Supremo Tribunal Federal teria limitado o poder do presidente de gerir a pandemia, deixando a crise sanitária apenas a cargo de governadores e prefeitos ―na verdade, a corte apenas reafirmou que é “responsabilidade de todos os entes da federação adotarem medidas em benefício da população brasileira” na pandemia.

Não parou por aí. Terra seguiu pregando contra as medidas de lockdown e quarentena. Mentiu duplamente. Diversos estudos mostram a eficiência do isolamento social para interromper a transmissão do vírus. A insistência de citar a Suécia como exemplo irritou alguns senadores. Trata-se do país escandinavo com pior gestão da pandemia ―pela insistência em apostar na falácia da imunidade de rebanho―, o que deu munição à oposição para afastar nessa segunda-feira o primeiro-ministro, o social-democrata Stefan Lofven.

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Terra se defendeu de ter subestimado a pandemia em 2020: “As previsões que fiz foram baseadas não num estudo apocalíptico, mas nos fatos que existiam em fevereiro e março”, disse. Mentiu. Ele manteve previsões equivocadas durante todo o ano. Também defendeu Bolsonaro. “O presidente é genocida? E o presidente da Argentina, que vai passar o Brasil em número de mortes? E o Reino Unido que fechou? A política infectou a ciência”, afirmou, sem apresentar dados que corroborem sua hipótese de que a Argentina irá ultrapassar o país em óbitos. O Brasil tem mais de meio milhão de mortos oficiais pela covid-19 (233 óbitos por 100.000 habitantes), enquanto a Argentina passa por um novo pico de crise e acumula mais de 80.000 mortos (193.000 por 100.000 habitantes).

O deputado disse que nunca defendeu “imunidade de rebanho”. Mentiu. Não é preciso pesquisar muito em sua rede social para encontrar postagens em que defende sua teoria. Em 4 de março, ele afirma que a imunidade de rebanho vai acontecer quando “60% da população” estiver infectada pelo vírus.

Encontros com Bolsonaro

O relator da CPI Renan Calheiros (MDB-AL) apresentou um vídeo de uma reunião de Bolsonaro com médicos, onde Terra é apresentado como assessor pelo próprio presidente. “A CPI já provou a existência de um gabinete paralelo de condução da pandemia”, afirmou Calheiros antes de perguntar se Terra é o líder do grupo. “Esse vídeo editado mostra uma reunião pública transmitida pela internet, não foi vazado com informações sigilosas. Foi um grupo de médicos que através da rede manifestou que queria conversar com o presidente. O presidente me colocou sentado do lado dele porque ele quis”, disse Terra. “As opiniões ali são opiniões pessoais. Ele [Bolsonaro] julga as opiniões do jeito que quer, ele não é teleguiado por ninguém”, justificou o deputado.

Segundo Terra, não tem sentido transformar essa reunião em “gabinete secreto”. “É ficção. Se assessores do presidente lhe dão algum conselho, é natural. O que eu faço é manifestar minha opinião”, disse, admitindo que aconselha o presidente de modo informal. “A relação que eu tenho com o presidente é de amizade. Fui ministro. Gosto do presidente. Tenho simpatia. Quando, de vez em quando, o presidente me pergunta alguma coisa eu falo. Isso não significa que tem gabinete paralelo”, disse o deputado federal.

O deputado disse não se lembra quando conversou inicialmente com Bolsonaro, mas que pode ter sido no início de fevereiro de 2020. “Conversei muitas vezes com o presidente sobre muitos assuntos. Uma vez por mês, uma vez a cada 15 dias, são encontros esporádicos. Eu me encontrei mais vezes com o presidente Michel Temer do que com Bolsonaro por conta da greve dos caminhoneiros. Isso é atividade normal do parlamento”, afirmou. Mentiu. Levantamento feito pelo G1 mostra que o deputado se encontrou mais vezes com Bolsonaro na pandemia (14 visitas entre 2020 e 2021) do que com Temer após deixar o ministério (11 visitas).

Calheiros também perguntou a relação de Terra com outras pessoas acusadas de fazerem parte do gabinete paralelo. Sobre o assessor da Presidência, Arthur Weintraub, Terra disse que “não tenho relação, com exceção de alguns churrascos e quando ele entrava na sala do presidente durante alguma reunião”. Quanto ao médico Paolo Zanotto, defensor da cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, afirmou que o conheceu no dia da reunião mostrada no vídeo, “Nunca mais falamos”. O deputado disse que conversou com a médica Nise Yamaguchi, defensora do ‘tratamento precoce’, apenas duas vezes: “Nem por telefone converso com ela”. Sobre Luciano Dias Azevedo, anestesista da Marinha autor da minuta do decreto que modificava a embalagem da cloroquina disse que ele estava presente em um almoço com o presidente, e que ele não participou do protocolo de cloroquina. Afirmou conhecer Carlos Wizard, empresário apoiador que supostamente financia o gabinete paralelo: “Falei uma vez, ele era um filantropo que estava ajudando a internalizar no país os venezuelanos, quando eu era ministro da Cidadania. Que eu saiba não tem grupo, nem financiamento”. Disse nunca ter falado com o filho do presidente, Carlos Bolsonaro, com quem cruzou em reuniões do ministério.

“O que eu conversei mais foi com [o ex-ministro Eduardo] Pazuello para levar voluntários médicos do Rio Grande do Sul para atuar na UTI do Amapá”, disse. Sobre o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga afirmou que teve “uma ou duas audiências” cujo principal assunto seu pleito por respiradores para seu Estado, Rio Grande do Sul, e pedido que de que o país fizesse um inquérito sorológico para fazer análise de contágio no Brasil.

Questionado pelo relator da CPI Renan Calheiros (MDB-AL) o que teria feito diferente tivesse sido nomeado ministro da Saúde, Terra respondeu que procuraria os melhores exemplos do mundo para isso, como a Coreia do Sul, o Japão e a Suécia, e investiria em testagem em massa, cuidado com idosos e lugares com maiores riscos.

Um dos momentos mais deselegantes da sessão foi protagonizado pelo senador bolsonarista Marcos Rogério (DEM-RO) que utilizou falas ditas pelo médico Drauzio Varella do início da pandemia para justificar os erros nas previsões de Osmar Terra. Ele lembrou que o médico falou em “resfriadinho”, disse que teríamos imunidade de rebanho, que as pessoas não precisavam ficar em casa e que não haveria um grande número de mortos. “O dr. Drauzio previu até mesmo a ocorrência de supernotificações de covid-19”, disse Rogério sem deixar claro quando o médico falou isso. O senador disse que “não apresentou a fala do dr. Drauzio para desqualificá-lo”, mas para demonstrar que “projeções erradas foram feitas por muitos”.

De fato, em um vídeo de 30 de janeiro de 2020, quando a Itália tinha somente dois casos confirmados, Varella tentou acalmar a população sobre a epidemia localizada em Wuhan. Mas a situação mudou rapidamente e já em março de 2020, publicou uma nota informando que o vídeo seria retirado. Ao contrário de Terra, o médico admitiu que subestimou a pandemia. Utilizar Varella como exemplo de negacionismo é no mínimo uma manobra desonesta.

Com informações da Reuters.

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