CPI da pandemia

Com Nise Yamaguchi, CPI enfrenta o dilema de dar palco ao negacionismo da pandemia

Durante a sessão desta terça-feira, a médica oncologista, ferrenha defensora da cloroquina no tratamento de covid-19 não apresentou nenhuma evidência científica e apenas insistiu em seu discurso a favor do chamado “tratamento precoce”

A médica oncologista Nise Yamaguchi, que foi ouvida pela CPI da pandemia nesta terça-feira.
A médica oncologista Nise Yamaguchi, que foi ouvida pela CPI da pandemia nesta terça-feira.JEFFERSON RUDY / AFP

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Em seu depoimento como convidada na CPI da Pandemia, a médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi, ferrenha defensora da prescrição de cloroquina para pacientes com covid-19, apesar da comprova ineficácia do remédio, limitou-se a repetir seu discurso negacionista sem apresentar evidências científicas, além de citar dados incorretos e fazer declarações falsas sobre as vacinas contra essa doença. Munida de uma pilha de papéis que consultava, muitas vezes, além dos cochichos ao pé do ouvido por parte de um de seus advogados, quase todas as afirmações da médica foram contestadas pelos senadores que compõem a comissão. “É inaceitável uma profissional de alta qualidade rejeitar estudos qualificados e tentar valorizar estudos que foram encerrados”, afirmou senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), quando Yamaguchi citou vagamente um estudo realizado pela Fundação Henry Ford ao ser questionada sobre quais “revistas científicas conceituadas” teriam publicado pesquisas em defesa do uso da cloroquina no tratamento de covid-19. A médica pareceu surpresa ao ser informada de que tal estudo da Fundação Ford havia sido descontinuado por falta de evidências científicas. “A informação que eu tive é que foi publicado, tem um lastro científico e que tem ajudado os pacientes”, disse.

Apesar de fazer declarações a favor do uso de máscaras faciais, álcool em gel e do distanciamento social, Yamaguchi insistiu em diversas ocasiões sobre os supostos benefícios da cloroquina no que chama de “tratamento precoce” contra a covid-19. Quando foi questionada pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, sobre as consequências da postura do presidente Jair Bolsonaro ao minimizar os impactos da pandemia e do atraso na compra das vacinas contra a covid-19, Yamaguchi chegou a dizer que é o “atraso que existe no início do tratamento” que tem “determinado tantos mortos”. Nesta terça-feira, o Brasil soma 465.199 óbitos causados pela doença, de acordo com o Ministério da Saúde.

Em seu depoimento, Nise Yamaguchi repetiu a fórmula já usada por aliados de Bolsonaro na CPI e esquivou-se e de opinar sobre diversas condutas do presidente na gestão da pandemia, inclusive sobre o programa de imunização contra a covid-19. “Não estou aqui para desapoiar ou apoiar conduta de nenhuma pessoa, isso é do fórum individual”, afirmou a médica, que acrescentou depois: “Não estou aqui para julgar o presidente da República.” A aparição no palco televisionado também expôs um dilema: quais os riscos de sabatinar, por horas a fio, alguém sem cargo público e que segue repetindo convicções sem lastro científico? O uso dos chamados remédios do tratamento precoce não são defendidos apenas por Bolsonaro ou Yamaguchi. Clínicas privadas e planos de saúde seguem ministrando o tratamento, já abandonado praticamente no resto do mundo. O depoimento da médica na CPI ajuda a retratar a questão como se fosse uma disputa política, exatamente a estratégia governista de politizar o tratamento da doença.

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Em outro momento, Yamaguchi afirmou que vacinação e tratamento precoce são estratégias diferentes, mas igualmente importantes, uma fala que que provocou uma contundente reação do presidente da CPI, o senador Omar Aziz (PSD-AM): “Quem estiver nos assistindo, peço para desconsiderar o que ela está dizendo.” Renan Calheiros exibiu um vídeo no qual a médica afirmava que existem evidências “robustas” de que o tratamento precoce salva vidas e de que a vacinação aleatória e obrigatória da população não seria a melhor estratégia para controlar a pandemia. “Quem está nos vendo não acredite nela. Tem que vacinar. A vacina salva. Tratamento precoce não salva”, insistiu Aziz.

Yamaguchi foi desacreditada até mesmo pela Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) ao afirmar que não se vacinará contra a covid-19 por padecer da Síndrome de Raynaud, uma doença autoimune que causa vasculites. A SBR informa, no entanto, que não há um “impeditivo definitivo” para a imunização: “A Sociedade Brasileira de Reumatologia destaca que essas pessoas foram incluídas no grupo prioritário para vacinação contra o novo coronavírus, dentre os descritos com comorbidades. Neste grupo, estão portadores de artrite reumatoide, espondiloartrites, artrite psoriásica, lúpus, a esclerose sistêmica (esclerodermia), síndrome de Sjögren, miopatias inflamatórias e as vasculites”, diz a entidade.

Confrontada com um vídeo dos depoimentos do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que afirmaram à CPI que ela havia tentado mudar a bula de recomendação da cloroquina, a médica negou tal fato: “Não fiz nenhuma minuta para mudar a bula”, afirmou. Yamaguchi confirmou que participou de uma reunião com ambos para debater tratamentos para a covid-19, mas disse que o que se discutiu foi a “inclusão do uso do medicamento”. “Esse papel que estava em cima da mesa só falava sobre dispensação de medicamentos. Sou especialista em regulação, isso jamais aconteceria”, afirmou fazendo Aziz sugerir uma acareação entre a médica e Barra Torres.

Yamaguchi negou ter sido convidada para ocupar o posto de ministra da Saúde ou ocupar qualquer outro cargo no Governo e disse que se reuniu com Bolsonaro pessoalmente apenas uma vez, no início da pandemia, em abril 2020. Segundo ela, foi o presidente que introduziu o tema dos tratamentos precoces. “Ele queria saber o que tinha de dados científicos da hidroxicloroquina. E eu fiz essa reunião a seguir com o Conselho Federal de Medicina para caracterizar o que tinha de científico (...) O que eu disse para ele é que os médicos estavam divididos”, afirmou. Na época, um estudo conduzido pelo médico francês Didier Raoult indicava a hidroxicloroquina no tratamento dessa doença, mas a pesquisa foi questionada pelos pares e por entidades médicas do país, por conta da metodologia usada pelo médico e pelo número reduzido de pacientes incluídos no estudo. Raoult já publicou carta no site do Centro Nacional de Informações sobre Biotecnologia da França, em que reconheceu que o medicamento não reduz a mortalidade.

Sobre a existência de um chamado “gabinete paralelo” em Brasília para lidar com a crise sanitária, a médica disse desconhecer tal gabinete e que participou apenas de “reuniões pontuais” como conselheira técnica. Ela admitiu, no entanto, formar, ao lado do empresário Carlos Wizard, um “conselho voluntário científico” um grupo de médicos —segundo ela, já são 10.000 médicos voluntários em todo o país— para discutir ações durante a pandemia. “Desconheço um gabinete paralelo e muito menos que eu integre. Sou uma colaboradora eventual. Participo como médica, cientista, em reuniões técnicas”, afirmou.

Apesar de negar qualquer vinculação formal com o Governo, sua proximidade com o presidente Bolsonaro ficou ainda mais explícita quando ela mesma apresentou uma mensagem na qual orientava o tenente-médico Luciano Azevedo a não avançar com a proposta de um decreto relacionado à cloroquina porque o ato “exporia muito” o presidente.

Estratégia

Desde a sua apresentação, nos primeiros minutos da sessão, a Yamaguchi tentou colocar-se como suprapartidária, citando sua participação em ações de combate ao câncer durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso e na crise de H1N1, em 2009, durante o Governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “Não tenho nenhum partido político e estou aqui sem conflito de interesse”, afirmou. A médica também frisou a importância do tratamento rápido em outras crises, como a do H1N1, em 2009, quando o medicamento Tamiflu foi usado já nos primeiros dias. Ela considera que os cientistas terão uma “eterna” discussão sobre os benefícios e malefícios de medicamentos, e que os médicos precisam ter autonomia médica para realizar os tratamentos que julgam necessários. Yamaguchi foi acusada por alguns senadores, incluindo Alessandro Vieira (Cidadania-ES) de adotar as falas prolixas como uma “estratégia” ao tentar transformar seu depoimento em uma “palestra científica”.

“Não estamos falando de autonomia do médico no trato de um paciente”, reclamou Vieira. “Estamos falando sobre políticas públicas executadas sem base científica concreta. E já são 462.966 mortos [até a tarde desta terça-feira].”

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