Investigação de Queiroga, Pazuello, Ernesto Araújo e mais 11 testa poder da CPI da Pandemia

Senadores decidem fechar cerco sobre nomes que podem confirmar a existência de um gabinete paralelo que deu suporte ao presidente em decisões equivocadas que negligenciaram a gestão da covid-19 e elevaram o número de mortes no Brasil

Marcelo Queiroga em 8 de junho, em depoimento à CPI da Pandemia no Senado.
Marcelo Queiroga em 8 de junho, em depoimento à CPI da Pandemia no Senado.Eraldo Peres (AP)
Marina Rossi
São Paulo -

Aviso aos leitores: o EL PAÍS mantém abertas as informações essenciais sobre o coronavírus durante a crise. Se você quer apoiar nosso jornalismo, clique aqui para assinar.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e os ex-ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), além de outras 11 autoridades serão investigados pela CPI da Pandemia. É um passo além na Comissão depois de dois meses e meio de audiências sobre erros na gestão da pandemia no Brasil e as responsabilidades do presidente Jair Bolsonaro. Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social da Presidência; Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde; Nise Yamaguchi, médica defensora da cloroquina e suposta integrante do “gabinete paralelo”; Paolo Zanotto, virologista defensor da cloroquina, também suposto integrante do “gabinete paralelo” e o empresário Carlos Wizard, empresário e conselheiro de Pazuello, também estão na lista. Luciano Dias Azevedo, anestesista da Marinha apontado como autor de proposta para alterar a bula da cloroquina, substância sem efeito contra a Covid, também será investigado. Em entrevista coletiva, Randolfe Rodrigues anunciou que a CPI retirou a classificação sigilosa dada a documentos recebidos pela comissão.

O anúncio foi feito nesta sexta, num momento em que o poder de fogo da CPI começa a ser questionado. Quais frutos efetivamente a CPI pode trazer para o Brasil, enquanto o presidente da República continua desafiando a ciência, sugerindo às pessoas que contrair a covid é mais eficiente que se vacinar, ou que o uso de máscara depois da vacinação é desnecessária? Quais medidas legais podem ser extraídas a partir das conclusões dos senadores que integram a CPI? Com a decisão por investigar, a comissão pode requisitar, por exemplo, documentos e informações de órgãos públicos em prazo determinado, além de convocar novos depoimentos de testemunhas e autoridades, além de “requisitar os serviços de quaisquer autoridades, inclusive policiais”.

A Comissão trouxe a público ex-ministros da Saúde e especialistas que reforçaram as críticas ao presidente e fortaleceram a percepção de que um esquema foi montado no Brasil para apostar na imunidade de rebanho. Mas também deu palco para negacionistas que dão sustentação à política de Bolsonaro. Nesta sexta, os médicos infectologistas Ricardo Zimerman e Francisco Eduardo Cardoso Alves defendiamm o tratamento precoce da covid-19 com medicamentos como a cloroquina e a hidroxicloroquina. Enquanto isso, o senador e relator da CPI, Renan Calheiros (MDB-AL), marcava posição contrária com o anúncio sobre os investigados, do lado de fora da sessão.

Mais informações

Calheiros havia deixado a sessão alegando que não faria perguntas aos convidados. “Nós chegaremos sábado provavelmente a meio milhão de mortes pela covid-19 no Brasil e continuamos a ouvir esse tipo de irresponsabilidade”, afirmou. Ele se retirou e, juntamente com os senadores Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI, e Humberto Costa (PT-PE), anunciou para a imprensa a lista dos investigados.

A sessão foi esvaziada desde o princípio, pois já havia rumores sobre a divulgação dos investigados desde a véspera. No início, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), anunciou que os requerimentos que seriam votados nesta sexta-feira só entrarão na pauta na próxima terça-feira. Ao todo, 317 requerimentos aguardam apreciação. Diante do esvaziamento, senadores governistas chegaram a pedir desculpas aos médicos convidados pelo quórum baixo. “Peço desculpas pelo esvaziamento”, afirmou o senador Jorginho Mello (PL-SC), aos médicos. Zimerman e Alves são infectologistas. O primeiro é ex-presidente da Associação Gaúcha de Profissionais em Controle de Infecção e Epidemiologia Hospitalar. Ele afirmou em vídeo que medicamentos para o “tratamento precoce” da covid-19, como ivermectina e hidroxicloroquina, já têm eficácia comprovada. Alves é especialista em Infectologia pelo Instituto Emílio Ribas e diretor-presidente da Associação Nacional dos Médicos Peritos da Previdência Social (ANMP) , apontado como um dos coautores da nota informativa do Ministério da Saúde que dava orientações para o “tratamento precoce” da covid-19.

Em sua fala, Alves pediu que o debate sobre o tratamento da covid-19 fique no âmbito da medicina. “Estranhamente a partir de maio de 2020 começamos a assistir a politização do tratamento”, disse, sem esclarecer que a partir daquela data a ciência atestava a ineficácia da cloroquina para o tratamento de covid-19. Sua sugestão para evitar os desencontros foi silenciar quem se apoiava nas orientações científicas. “Urge e é necessário retirar juízes e repórteres das salas de emergência deste país”, afirmou. Já Zimerman colocou em debate a eficácia do lockdown. “Muitas vezes lockdown é o contrário do distanciamento social”, afirmou.

Ainda nesta sexta-feira, Randolfe Rodrigues protocolou requerimento pedindo que representantes do Google e do Facebook compareçam à CPI. Isso porque na quinta-feira o presidente Jair Bolsonaro afirmou em live transmitida por suas redes sociais que já estava imunizado contra a covid-19 pois já havia contraído o vírus. “Eu já me considero. Eu não me considero não, eu estou vacinado, entre aspas. Todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina porque você pegou o vírus para valer. Então, quem contraiu o vírus, não se discute, esse está imunizado”, afirmou o presidente. “Por muito menos, o Twitter baniu o Donald Trump. Não se trata de censura. O presidente pode falar a besteira que quiser, mas não pode disseminar notícias sem lastro na ciência e que contribua para o aumento deste número de mortos”, afirmou o senador Randolfe Rodrigues.

Além dos dois ex-ministros e do atual comandante da pasta da Saúde, a CPI anunciou que investigará integrantes do chamado “gabinete paralelo”: Arthur Weintraub, ex-assessor especial da Presidência, Francieli Fantinato, coordenadora do Programa Nacional de Imunização, Marcellus Campêlo, ex-secretário de Saúde do Amazonas; Elcio Franco, ex-secretário executivo do Ministério da Saúde; Hélio Angotti Neto, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde. Resta saber em quanto tempo a CPI vai entregar um quebra-cabeça com as informações coletadas e qual impacto ele pode ter no Brasil de meio milhão de vítimas da covid-19 que ainda mantém mais de 2.000 mortes por dia.

Inscreva-se aqui para receber a newsletter diária do EL PAÍS Brasil: reportagens, análises, entrevistas exclusivas e as principais informações do dia no seu e-mail, de segunda a sexta. Inscreva-se também para receber nossa newsletter semanal aos sábados, com os destaques da cobertura na semana.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: