Linha de frente na guerra entre facções no Amazonas, bairro da Compensa em Manaus vive dias sangrentos

Autoridades investigam aliança entre a Família do Norte e o Terceiro Comando Puro contra o CV, que domina parcialmente a região. Um novo grupo, Cartel do Norte, também pode estar envolvido nas mortes

Mulher caminha diante de pichações do Comando Vermelho no bairro da Compensa, em Manaus, no final de janeiro.
Mulher caminha diante de pichações do Comando Vermelho no bairro da Compensa, em Manaus, no final de janeiro.Euzivaldo Queiroz/Pawe
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“Atenção: Uber ou moradores da Compensa 1, 2 e 3, ao entrar no bairro por favor baixar os vidros do carro e desligar o farol para a sua própria segurança. Estamos em guerra. Assinado CV”. A mensagem, pichada em uma mureta na avenida Brasil, em Manaus, é destinada aos forasteiros: os mais de 75.000 habitantes do bairro da Compensa sabem que o local se tornou, nos últimos anos, uma das principais linhas de frente no violento embate entre facções criminosas.

Encravado na zona oeste da capital, o bairro é cobiçado pelo crime organizado por sua localização estratégica, às margens do Rio Negro. Suas dezenas de ancoradouros e píeres com pouca fiscalização facilitam o embarque e desembarque por via fluvial de cargas de cocaína vindas diretamente da Colômbia —ou então atravessadas pela Venezuela. A Compensa está no meio da Rota do Solimões, principal corredor do tráfico internacional de drogas no país que utiliza os rios Negro, Içá, Japurá e o próprio Solimões para trazer a droga ao Brasil e posteriormente despachá-la aos portos europeus e africanos.

O tom alarmista do recado pintado no muro se justifica. Fevereiro, março e abril foram meses sangrentos na Compensa, com uma chacina que deixou quatro mortos e outros 20 homicídios por arma de fogo (um deles o de uma adolescente de 15 anos), fazendo do local o mais violento de Manaus este ano segundo estatísticas oficiais. O secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Louismar Bonates, confirmou que o local passa por problemas. “Nós estamos atuando no bairro, que está tendo uma certa dificuldade em questão de segurança”, afirmou no início de fevereiro.

Atualmente a Compensa está majoritariamente sob o controle do Comando Vermelho. Após uma ofensiva realizada no início de 2020 os traficantes ligados ao grupo fluminense consolidaram seu domínio e hegemonia sobre boa parte das comunidades de Manaus. Para comemorar patrocinaram uma queima de fogos a cada tomada dos territórios de rivais, fazendo as noites do mês de fevereiro daquele ano parecerem a virada de Ano Novo: a cada bairro conquistado, nova apoteose do crime.

Mas nem sempre a Compensa contou com forte presença do CV. O bairro é considerado histórico para os traficantes amazonenses justamente por ter visto nascer, em 2007, a primeira facção manauara, a Família do Norte. Um de seus fundadores, José Roberto Barbosa, vulgo Zé da Compensa, morou no local e ajudou até mesmo a criar um time de futebol do bairro, o Compensão, que com a ajuda do dinheiro do tráfico foi campeão da segunda divisão do amazonense em 2009.

Desconhecida da maioria dos brasileiros, em 2017 a FDN apresentou seu cartão de visita ao país após massacrar mais de 50 presos do Primeiro Comando da Capital durante rebelião no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, feito repetido pelos criminosos em 2019 naquela mesma unidade. A facção, então aliada do CV, parecia ter triunfado dentro do sistema penitenciário e nas ruas, tendo brecado o expansionismo do PCC. Mas no mercado do tráfico as vitórias tendem a ser efêmeras.

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Com suas principais lideranças presas e enviadas para penitenciárias federais após os massacres prisionais, a FDN rachou, perdeu força e começou a se esfacelar, tendo sido em grande parte canibalizada e absorvida pelo CV. Como resultado, o grupo fluminense se tornou a maior força no Amazonas. “A situação é essa. Nas ruas e nos presídios, o CV agora é dominante em Manaus e no Estado”, afirma Armando Gurgel Maia, promotor Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Amazonas (Gaeco).

O período que se seguiu à tomada de poder por parte do grupo fluminense na Compensa em 2020 foi de relativa tranquilidade para os moradores —com episódios de violência pontuais. A facção impôs a sua versão do tribunal do crime, atuando na mediação de conflitos entre a população, nos moldes do que o PCC faz em São Paulo. “Tinha uma vizinha que todo santo dia ela levava uma surra do marido. Aí uma vez resolveu chamar a polícia. A viatura veio e levou o safado. Passou uns dois dias ele voltou pra casa. Foi quando eles [do CV] se juntaram, arrastaram ele lá pra fora, deram um surra e avisaram que não queriam polícia aqui. Na próxima vez que ele batesse na mulher, eles davam um fim nele. Nunca mas essa mulher apanhou”, conta M. L. de 37 anos, moradora do bairro. Em janeiro a aposentada V.S.S., 74 anos (30 deles vividos na Compensa), comemorava a paz vigente: “Faz mais de ano que não tem tiro aqui. Se continuar do jeito que está, pra mim está ótimo. Se eu quiser, durmo de janela aberta”.

Mas o equilíbrio de forças em um local tão central para o tráfico de drogas é efêmero. Segundo Maia, do Gaeco, a interceptação de alguns salves (os comunicados emitidos pelos criminosos) dão conta de que para manter-se viva a FDN tem firmado alianças pontuais com a facção fluminense Terceiro Comando Puro, o TCP, rival do CV e, ironicamente, próxima do PCC (massacrado pela própria FDN em Manaus). Isso mostra o quão fluida e instável é qualquer acomodação do crime organizado no Estado: “Dinâmicas de facções são panelas de pressão, tudo pode mudar em instantes”, diz o promotor.

Ainda não está claro para as autoridades se as mortes ocorridas na Compensa de fevereiro a abril são fruto de embates entre CV e essa aliança ainda incipiente entre a FDN e o TCP, ou se é um acerto de contas interno da facção fluminense. Existe ainda uma outra linha de investigação, que teria relação com o surgimento de um novo grupo, chamado de Cartel do Norte, pichou muros em algumas comunidades manauaras e ameaçou traficantes do CV. Seja como for, a guerra entre facções no maior Estado do Norte ainda está longe do final.

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