26 dias no submarino com cocaína que atravessou o Brasil

Veículo com três toneladas de droga saiu de Letícia, na fronteira com a Colômbia, viajou pelo rio Amazonas e pelo Atlântico até chegar na costa ibérica, onde abortou a missão

Agustín Álvarez pegou um avião em Madri com destino ao Brasil em 25 de outubro. Com 29 anos, os diversos títulos de navegação que possuía —o último, de piloto de lancha— em sua cidade natal, Vigo (Pontevedra, Espanha), iriam lhe servir para realizar a missão mais arriscada de sua vida: atravessar da América à Europa em um semissubmersível de 20 metros de comprimento de popa a proa com 3.000 quilos de cocaína a bordo. Um curso acelerado de navegação em um rio, dois equatorianos com experiência náutica como colegas de travessia, 20.000 litros de combustível, um pagamento de 100.000 dólares (408.000 reais) adiantado e um destino a 9.000 quilômetros: 3.000 quilômetros de trajeto fluvial mais 6.000 pelo Atlântico até a Galícia.

“Zarparam pelo rio de algum local remoto da região de Letícia”, capital do departamento do Amazonas e extremo sul da Colômbia, dizem fontes da Polícia Nacional da Espanha, que prossegue com a investigação além das fronteiras galegas: “Foi ampliada a Madri e Colômbia”. “O mar agitado ao chegar à costa espanhola e os problemas do motor, além do fato de ninguém aparecer para recolher a mercadoria, fizeram com que eles afundassem a embarcação na praia de Hío (Pontevedra) e tentassem escapar, mas sua ideia era voltar para recuperar a droga depois”, dizem fontes da investigação da chamada Operação Baluma, dirigida pela titular de um tribunal da região, Sonia Platas.

As mesmas fontes apontam os atuais grandes clãs do tráfico de drogas galego, “o de El Burro e o de El Pastelero” como os principais suspeitos. Álvarez era uma peça fundamental nessa missão quase suicida, como se deduz dos depoimentos que os tripulantes deram a colegas de cela e a funcionários da prisão, já que se negaram a depor à polícia. Ocorreram falhas do motor (“novo e de 2.000 cavalos de potência”, de acordo com fontes da investigação), problemas de ventilação no navio e até perda dos víveres e da água que levavam. “Restavam somente alguns chocolates de marca brasileira quando chegaram”, dizem fontes da investigação. “Antes de tentar fugir, se desfizeram do telefone por satélite e dos equipamentos eletrônicos que levavam, que não foram encontrados”, acrescentam.

Foram 26 dias em uma pequena embarcação que podia submergir até a dois metros de profundidade para evitar os radares dos barcos da Marinha e dormindo em catres sobre 152 pacotes de droga. Tiveram bom tempo quase até chegar à Espanha, segundo seus depoimentos, mas no décimo dia surgiu o primeiro problema mecânico. Os dois tubos que saem da popa, que servem para injetar ar no motor, quebraram. De acordo com seus relatos, o ar do submarino se tornou irrespirável. Incapazes de consertar, apesar de um dos equatorianos ser mecânico, se viram obrigados a abrir a escotilha durante algumas horas por dia para ventilar a nave até chegar à terra. Antes —e sempre segundo o relatado na prisão pelos tripulantes—, em um movimento do mar também perderam a bolsa com víveres e água que a embarcação levava pré-amarrada e ligada ao casco. E, por último, se rompeu o depósito de óleo, que impregnou toda a nave, incluindo os pacotes de cocaína.

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Por fim, desesperados, após uma primeira tentativa malsucedida de se aproximar da costa na cidade do Porto (Portugal), e após vários dias recebendo coordenadas diferentes da organização para entregar a mercadoria sem que ninguém aparecesse, veio a tentativa de fuga a nado com roupas de neoprene na praia de Hío, pertencente a Aldán (Cangas de Morrazo), na Galícia. O amplo dispositivo policial mobilizado na região, após um alerta da DEA (Drug Enforcement Administration, a Agência Antidrogas, ligada ao Departamento de Justiça dos EUA), acabou com as pretensões dos tripulantes.

A primeira coisa que Pedro Roberto Delgado (Equador, 1975) e Luis Tomás Benítez (Equador, 1977) pediram ao entrar na prisão foi se pentear. Fontes penitenciárias os descrevem: “Calados, tímidos e desconfiados”. Também quiseram saber quando começava o verão na Galícia porque não parava de chover.

Em sua fuga particular, Agustín Álvarez permaneceu escondido em um barracão durante os quatro dias que se seguiram à prisão de seus dois comparsas equatorianos. Antes, utilizou o celular e facilitou a prisão de outras três pessoas: seu primo Iago Serantes (Vigo, 1991), seu tio Enrique Serantes (Vigo, 1965) e um amigo, Rodrigo Hermida (Santiago de Compostela, 1993). “Agustín pediu ajuda a seu primo e ele, por sua vez, ligou para seu pai e Hermida para que fossem buscá-lo no local da costa em que permanecia escondido”, afirmam fontes da investigação que analisaram as ligações de seu telefone.

Após ajudá-lo, Serantes fugiu para Valência, onde foi preso no aeroporto. O enorme dispositivo policial mobilizado na foz interceptou depois o tio e o amigo, que levava roupas secas em mochilas. Por fim, caiu Álvarez, que tentou se passar por um pescador de mariscos ilegal. Os agentes fingiram acreditar nele, o deixaram passar e o seguiram até prendê-lo posteriormente. “A organização procurou para a missão um jovem como Álvarez, com habilidades marítimas e bom conhecimento da intricada costa galega, sem antecedentes criminais, que não levantasse nenhuma suspeita”, dizem fontes do caso.

As mesmas fontes, entretanto, alertam que a ausência de contas pendentes com a Justiça não significa que não estivesse envolvido no negócio do narcotráfico: “Se foi procurado e enviado ao Brasil um mês antes do envio da mercadoria é porque já se movia nos circuitos”, afirmam. Álvarez, segundo as mesmas fontes, não possui nenhum trabalho conhecido. “Um jovem esportista, apaixonado pelo mar e que também possuía um título de piloto”, acrescentam.

De acordo com seu próprio relato, entretanto, Agustín não foi a primeira opção da organização de traficantes que o contratou. Antes ofereceram a outro marinheiro galego, que por fim recusou por considerar que a embarcação não possuía as condições apropriadas.

“Construído expressamente para esse fim em algum estaleiro clandestino das selvas do Suriname e Guiana”, de acordo com os investigadores, os tripulantes realizaram as práticas com o semissubmersível ao longo do rio Amazonas, em seu trajeto rumo à desembocadura no mar”. “O casco, semelhante ao de um veleiro, apresentava danos no ponto de amarre à proa”, o que faz os investigadores suspeitarem de que foi rebocado durante alguns trechos desse trajeto fluvial. A polícia está convencida de que o submarino realizou toda a travessia marítima de uma vez, sem ser reabastecido e rebocado em alto-mar. Essa também é a dedução dos depoimentos dos tripulantes presos. Outras fontes, entretanto, apontam a possibilidade de ter sido ajudado por outros barcos.

A descoberta em 24 de novembro do primeiro narcosubmarino que chegou à Europa vindo do outro lado do Oceano Atlântico confirmou suspeitas que, durante mais de uma década, haviam se transformado em lenda. A informação da chegada de um submergível carregado de cocaína colombiana chegou ao Centro de Inteligência contra o Terrorismo e o Crime Organizado (CITCO) através do Centro de Análise Marinho (MAOC), com sede em Lisboa e pelas autoridades britânicas, de modo que foi planejada uma grande operação conjunta da Polícia Nacional, Guarda Civil e Vigilância Aduaneira. A investigação continua.

Um negócio com chefes sigilosos e discretos

Os grandes chefes da droga da Galícia se lamentam esses dias pelo foco midiático que o narcosubmarino colocou sobre a costa galega. É um grupo seleto de traficantes (podem ser contados no dedo de uma mão e ainda sobram dedos) que são desconhecidos, não têm antecedentes por tráfico de drogas e um deles sequer passou por um tribunal em sua vida. E querem que continue assim. Ficou para trás e para sempre a ostentação e arrogância dos Oubiña, Charlines e outros. E a mitificação de Sito Miñanco. Hoje, os principais senhores da droga na Galícia vivem no sigilo.

O anonimato os tornou mais eficazes. Pela costa galega continua entrando hoje uma grande quantidade de cocaína. Já não ocorre entre lanchas, perseguições e disparos. Entra em silêncio. E a atenção midiática no Estreito de Gibraltar contribui a esse silêncio. Os traficantes da Galícia vivem com menos estresse assim e contam com uma porcentagem de sucesso em suas operações maior do que nunca. Por isso a captura do submarino significa um barulho que detestam.

Esses grandes traficantes se especializaram em grandes contrabandos, descargas de 4.000 a 5.000 quilos de cocaína e poucas operações. Alguns a realizam somente uma vez por ano. Reinvestem o dinheiro em suas vastas redes de negócios legais e tentam passar por respeitáveis empresários.

As forças de segurança, entretanto, os controlam bem. É difícil levá-los a um tribunal, já que jamais entram em contato com a mercadoria. Mas os vigiam esperando um descuido. Na Galícia estão mobilizados o ECO e o UCO da Guarda Civil, os GRECO e UDYCO da Polícia Nacional, o SVA, a DEA norte-americana e os serviços de Inteligência britânicos. Não falta ninguém.

Os códigos de silêncio também mudaram: os traficantes de hoje não têm o poder e a compra impune de vontades de outrora. Um traficante veterano da foz de Vigo tem tanta aversão ao telefone celular que sequer permite que alguém o utilize na sua frente. O sigilo beira a paranoia em que alguns traficantes galegos estão. A descoberta do narcosubmarino é como gritar em uma biblioteca. Agora todos estão nervosos na costa galega. Os rumores, as delações, as suspeitas se sucedem... Todo mundo volta a falar do tráfico galego. Justamente o que não querem. Justamente o que a Galícia precisa para continuar lutando contra uma de suas piores máculas.