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Bolsonaro defendia há 22 anos que o Brasil só se salvaria com uma guerra civil

Se na ocasião instituições do Estado tivessem intervindo, expulsando-o do cargo, hoje o Brasil certamente não teria acumulado mais de 300.000 mortos na pandemia

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em ato para lembrar o golpe de 1964, em Brasília, nesta quarta.
Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em ato para lembrar o golpe de 1964, em Brasília, nesta quarta.Eraldo Peres / AP

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Aqueles que, como este colunista, viveram durante a infância a Guerra Civil Espanhola, em que morreram quase um milhão de pessoas e cerca de 30.000 crianças, sentem calafrios só de falar sobre uma guerra entre irmãos. Lembro que minha mãe fechava as janelas que davam para a estrada para que eu não visse os fuzilamentos. Só ouvia os tiros dos fuzis e das metralhadoras. Era uma guerra entre irmãos. E lembro-me de quando alguns camponeses escondiam de noite o meu pai, que era professor primário, por medo de que viessem fuzilá-lo.

É isso que o presidente Bolsonaro deseja para o Brasil?

Sim, esse era o seu sonho há 22 anos, quando era deputado do chamado baixo clero sem que se destacasse por nada além de sua homofobia, seu desprezo pelas mulheres e a sua defesa da ditadura e da tortura. Em 1999, em uma entrevista ao programa Câmera Aberta, da TV Bandeirantes, disse textualmente: “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar infelizmente quando partirmos para uma guerra civil, fazendo um trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30.000”.

Infelizmente o Congresso considerou então apenas como extravagâncias as ameaças do deputado militar. Se tivesse sido processado na época, hoje não seria presidente nem sofreríamos as contínuas ameaças de golpes autoritários. Em qualquer democracia do mundo, um deputado que defendesse uma guerra civil na televisão seria processado e destituído do cargo. A Bolsonaro permitiu-se desde o primeiro momento fazer todos os ataques mais ferozes à liberdade e aos valores democráticos e defender os torturadores durante a ditadura que, segundo ele, foi demasiado leve porque deveria ter matado muitos mais. E isso foi defendido em pleno Congresso.

Se na ocasião as instituições do Estado, o Congresso e o STF tivessem intervindo, expulsando-o do cargo, hoje o Brasil certamente não teria mais de 300.000 mortos na pandemia e teria poupado tanta dor.

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Bolsonaro já deveria ter sido julgado por seu negacionismo da pandemia e por zombar daqueles que lutavam para salvar vidas. As consequências da inércia das instituições em enfrentar o defensor da ditadura fizeram com que o Brasil chegasse até a se perguntar se estamos na iminência de um novo golpe militar. Pelo que se sabe até agora, as Forças Armadas decidiram interromper essa narrativa quando o ministro da Defesa e seus comandantes deixaram seus cargos, sinalizando que para tudo há limites.

Aqueles que continuam defendendo que ainda não é hora de abrir um processo de impeachment contra ele deveriam pensar que amanhã pode ser tarde demais. Pois imaginar que o frustrado capitão ainda possa se converter à democracia é apenas loucura. Ele carrega no sangue o gosto pela morte e pelas armas.

Estes dias de convulsão política, às vésperas do aniversário do golpe de 1964, com a renúncia do alto comando militar, revelam a gravidade da situação do Brasil. Até quando esperarão os que detêm o poder constitucional para destituir do cargo o capitão do Exército, reformado por subversão? Enquanto isso, o presidente se prepara para dar força e poder às Polícias Militares e, se puder, transformá-las em sua milícia pessoal, um atalho para seus sonhos golpistas.

Até quando o Brasil, em que cerca de 80% da população quer viver em democracia, aceitará passivamente que o chefe do Estado, ao invés de governar o país em um de seus momentos mais dramáticos, trame todos os dias para dar um golpe autoritário? O fato de ter colocado um policial amigo da família do presidente como ministro da Justiça é de uma gravidade difícil de qualificar. É uma ofensa à Justiça e revela os instintos do capitão obcecado pelo mundo das armas, pelo desafio da vida e por tudo o que significa morte e violência.

Para alimentar seu rebanho de fanáticos violentos, o presidente esquece e despreza aqueles que preferem apostar na vida, na empatia e na solidariedade com todos aqueles que sofrem e choram com a dor própria e alheia. Para o presidente, hoje abandonado até pelo que chamava de “meu Exército”, quem se defende da pandemia ouvindo a ciência não passa de um bando de covardes com medo de morrer.

Até quando o Brasil são, o que anseia viver em paz e segurança e que não falte comida no prato de seus filhos, continuará ameaçado por fantasmas de golpes e guerras civis? O Brasil já sofre com seus índices de violência que ceifam mais de 40.000 vidas a cada ano, a maioria de jovens e negros.

O escritor norte-americano Ernest Hemingway se perguntava por quem os sinos dobravam. Oxalá neste Brasil que sabe aproveitar a vida os sinos deixem de soar para anunciar mais mortos e repiquem para festejar de novo a vida.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

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