“O maior risco para a democracia no momento é de que revoltas nas polícias sejam incentivadas”

Para João Roberto Martins Filho, estudioso das Forças Armadas no Brasil, parte dos militares busca uma terceira via eleitoral alternativa a Lula e ao presidente Bolsonaro

João Roberto Martins Filho, autor do livro 'Os militares e a crise brasileira'
João Roberto Martins Filho, autor do livro 'Os militares e a crise brasileira'Gabriela Di Bella/The Intercept Brasil
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O Brasil está diante de uma “crise militar grave”, que não teria ocorrido caso alguns generais do Exército não tivessem “se aventurado a fundo em um Governo tão instável”. Essa é a leitura de João Roberto Martins Filho, estudioso das Forças Armadas no Brasil e autor do livro Os militares e a crise brasileira (Alameda Editorial), sobre a demissão do ministro da Defesa Fernando Azevedo, e o afastamento posterior dos comandantes das três forças —Exército, Marinha e Aeronáutica. Isso escancarou “fissuras no grupo militar, que até então eram pouco visíveis”.

Apesar da turbulência na caserna provocada pela “bomba” lançada por Jair Bolsonaro, Martins Filho, professor da Universidade Federal de São Carlos, não vê risco de ruptura institucional com participação das Forças Armadas, mas mostra preocupação com o incentivo feito por bolsonaristas a motins e revoltas dentro das polícias estaduais: “Isso pode levar a um nível de violência difícil de prever”. Ele cita como exemplo o tratamento dado ao policial militar Wesley Soares Góes, morto por equipes da corporação após atirar contra agentes em Salvador. Ele foi chamado de “herói” por deputadas da base do presidente, que ainda incentivaram uma rebelião contra o governador baiano, Rui Costa (PT). Posteriormente elas apagaram as postagens. Confira abaixo a entrevista:

Pergunta. O que podemos esperar do general Braga Netto na chefia do Ministério da Defesa?

Resposta. Braga Netto tinha uma carreira militar bastante destacada. Ele foi comandante do Leste, na região do Rio de Janeiro, e depois passou a ser o chefe da intervenção militar no Estado, onde eles assumiram o poder de fato no Rio. Até então ele era um dos mais destacados de sua geração, que é a mesma do Bolsonaro. É um grupo de generais formados nos anos 1970, durante a Guerra Fria, e que tiveram algum contato com a realidade da época. Dizem que ele é um dos mais bolsonaristas dentre os generais. Então com a saída do Azevedo o presidente colocou em seu lugar um homem de confiança. É uma trinca de generais que estão bastante fechados com o Bolsonaro: Netto, na Defesa, Luiz Eduardo Ramos, na Casa Civil, e Augusto Heleno, no Gabinete de Segurança Institucional.

P. O que significa a saída dos comandantes das Forças Armadas?

R. Estamos acostumados a falar que não havia fissuras no grupo militar. Mas o contato com a política provoca fissuras com o tempo. Até então essa cisão era pouco visível, alguns chegavam a se referir a alguns generais do Governo como o “Partido Militar”. É importante dizer que estamos diante de uma crise militar, e que isso não teria ocorrido se não tivéssemos um militar à frente da Defesa. Não teríamos esse impacto se fosse um civil no lugar do general Azevedo. Essa aventura militar de entrar no Governo está saindo muito caro para as Forças Armadas. É proximidade demais com um Governo instável.

P. Bolsonaro foi eleito com forte apoio dos militares. Você acha que parte deles agora busca um outro candidato para 2022?

R. Existe sim a busca por parte dos generais de uma terceira via [nem Lula nem Bolsonaro]. Isso fica claro, por exemplo, quando alguns generais se manifestaram contra o julgamento que atestou a suspeição [parcialidade] de Sergio Moro, que seria uma opção de candidato do centro a ser apoiado no meio militar —e um rival do próprio presidente.

P. O presidente demitiu o ministro como uma reação a estas movimentações?

R. O Bolsonaro deve ter percebido esta operação, ele tem instinto de sobrevivência. Há algum tempo o Centro de Comunicação do Exército começou uma operação de relações públicas e psicológicas de tentar mostrar para a sociedade, após demissão do Eduardo Pazuello [ex-ministro da Saúde], de que eles teriam feito melhor. E Bolsonaro sentiu isso, e nesse processo jogou uma bomba no meio de tudo [ao demitir Azevedo].

Paralelamente a isso, o presidente não estava conseguindo fazer com que as Forças Armadas concordassem em participar de algumas de suas loucuras. Do ponto de vista eleitoral, ele também achou ruim que o ministro e os comandantes das forças não se manifestassem contra a decisão do ministro Edson Fachin que devolveu os direitos políticos ao Lula, por exemplo.

P. Qual o maior risco para a democracia neste momento?

R. O maior risco no momento é incentivar revoltas nas policiais estaduais. Ou por parte do próprio presidente Bolsonaro ou de seu estafe de inspirações neofascistas, como seus filhos dele, o assessor Filipe Martins e alguns deputados mais radicais da base aliada, como a Bia Kicis. Essa turma já tentou incentivar essa rebelião antes, e essa sempre foi na minha análise a pior hipótese possível, pois pode levar a uma situação de grande violência em uma país que já é violento. Mas é preciso frisar que há muita diferença entre os Estados. O apoio ao Bolsonaro nas corporações e a situação das policiais não é homogêneo. Mas com certeza ele gostaria de contar com essa possibilidade [de fomentar as revoltas].

P. O presidente teve algumas rusgas com o ex-comandante do Exército, o general Edson Pujol, principalmente no que diz respeito à condução da luta contra a pandemia. Agora existe a expectativa de que os indicados por Braga Netto para ocupar os cargos de chefia nas Forças Armadas serão pessoas mais alinhadas com o presidente. Esta possibilidade existe?

R. Se você me fizesse esta pergunta um ano atrás eu diria que ele conseguiria colocar gente flexível no comando das forças, gente que fosse mais palatável para ele. Acho que a situação agora é complicada. Não acho que o Bolsonaro conseguirá colocar quem ele quiser. É claro que o Braga Netto vai apresentar nomes que não sejam muito independentes, mas a questão é que o comandante de uma das forças precisa ter legitimidade [tradicionalmente o ministro da Defesa apresenta três nomes ao presidente para cada chefia das Forças Armadas, e o mandatário seleciona um]. Não pode ser alguém que o alto comando das não reconheça como um homem digno de comandar o Exército, por exemplo.

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