Pandemia de coronavírus

Cresce pressão para Pazuello deixar comando da Saúde em meio a colapso hospitalar e aumento de mortes no país

Discutida por Bolsonaro no fim de semana, saída de ministro tenta dissociar presidente da má condução da crise e dissolver incômodo do centrão e do mercado. Cardiologistas Ludhmila Abrahão Hajjar e Marcelo Queiroga são sondados para o cargo

O presidente Jair Bolsonaro gesticula para o ministro Eduardo Pazuello, durante cerimônia em Brasília, no dia 10 de março.
O presidente Jair Bolsonaro gesticula para o ministro Eduardo Pazuello, durante cerimônia em Brasília, no dia 10 de março.UESLEI MARCELINO / Reuters

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Em meio a um intenso desgaste pelo colapso do sistema de saúde em várias regiões do país, seguidos recordes de mortes causadas pelo coronavírus e atrasos na vacinação, aumenta a pressão política para que o ministro Eduardo Pazuello deixe o comando da Saúde. Por ora, o militar nega ter se demitido ou que o presidente Jair Bolsonaro tenha lhe pedido o cargo, mas diz que entregará o ministério assim que o presidente pedir. Bolsonaro se reuniu neste domingo com a médica Ludhmila Abrahão Hajjar, cotada para substituir o militar, mas não tomou a decisão final. Nos bastidores, fontes do Planalto relataram a vários jornais, inclusive ao EL PAÍS, que Pazuello deve deixar a pasta ainda nesta semana.

O desligamento de Pazuello é articulado por meio de uma exoneração “a pedido”, em que o militar justificaria a necessidade de um afastamento para cuidar da saúde. Mas, na prática, a mudança é orquestrada por pressão de parlamentares do Centrão ―que agora formam a base do Governo― como parte da mudança de postura que é exigida de Bolsonaro diante da gravidade da pandemia e da consequente crise econômica gerada por ela. Nos últimos dias, o presidente, entusiasta de uma postura negacionista, passou a adotar um discurso pró-vacina, para enviar sinais ao mercado de que pretende trabalhar em prol da vacinação em massa, única maneira de retomar a vida normal e reduzir, por exemplo, as restrições comerciais impostas pela pandemia. Depois de a notícia da saída de Pazuello começar a circular, entretanto, o próprio ministro sinalizou contra a estratégia. E mandou um recado pelo Twitter de seu assessor de comunicação, conhecido como Markinho Show: “Não estou doente, não entreguei o meu cargo e o presidente não o pediu, mas o entregarei assim que o presidente solicitar. Sigo como ministro da Saúde no combate ao coronavírus e salvando mais vidas”, declarou o general.

Caso a saída de Pazuello se concretize, ele será o terceiro ministro a deixar a pasta da Saúde desde o início da pandemia, há um ano. Em abril do ano passado, o médico Luiz Henrique Mandetta foi demitido pelo presidente, que não concordava com as medidas de isolamento social defendidas pelo Ministério da Saúde. Nelson Teich, que o substituiu, durou menos de um mês no comando da pasta—deixou o órgão também por discordâncias com o presidente, que recomendava o uso de cloroquina, remédio que não tem qualquer respaldo da ciência para proteção contra a covid-19. Sem experiência na área, Pazuello assumiu no início da gestão que ainda estava conhecendo o SUS e passou um longo período comandando a pasta interinamente. Uma de suas primeiras ações foi a publicação de um protocolo que recomendava o uso de cloroquina para o tratamento da doença.

Pazuello permaneceu como ministro interino por meses, até que fosse efetivado pelo presidente no cargo. O militar, que costuma seguir as bravatas e imposições do presidente, deve deixar o ministério no momento mais crítico da pandemia no Brasil, com vários Estados já enfrentando um colapso hospitalar com superlotação de UTIs e seguidos recordes de mortes. Neste domingo, foram registradas mais 1.127 óbitos e 43.812 infecções causados pelo coronavírus, números elevados considerando a subnotificação que ocorre nos fins de semana, quando laboratórios funcionam em regime de plantão. O país já soma mais de 278.000 mortes causadas pela doença.

Os rumores sobre a decisão de substituir Pazuello começaram depois que Bolsonaro discutiu o assunto com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Em seguida, ele tratou do assunto com o próprio ministro da Saúde e com outros três generais do primeiro escalão do Governo, Walter Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo (Defesa). Azevedo teria ido ao encontro para apresentar possibilidades de remoção de Pazuello, já que ele ainda é um general da ativa. Ao longo das articulações no fim de semana, dois médicos foram sondados para assumir o cargo: Ludhmila Abrahão Hajjar e Marcelo Queiroga.

Hajjar defende publicamente o que preconiza a ciência no combate à pandemia: é a favor do distanciamento social, defende a vacinação em massa e admite que não existe um tratamento precoce contra a covid-19. Segundo os jornais nacionais, ela se encontrou com Bolsonaro neste domingo, mas teria perdido a preferência depois de o presidente escutar um áudio antigo, em que ela o teria chamado de “psicopata”. O nome da médica foi duramente criticado pelos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais. Seus seguidores continuam dando sustentação a ele, mesmo depois de ele ter adotado um discurso pró-vacina, e realizaram atos contra o lockdown em vários Estados do país neste domingo.


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Pazuello acumula fortes críticas pela má condução nas ações de enfrentamento à pandemia. Já pressionado pelas investigações sobre sua suposta omissão para agir durante o colapso de oxigênio em Manaus, o general caiu em descrédito diante de gestores e parlamentares ―inclusive aliados― pelas sucessivas reduções no cronograma de vacinas contra a covid-19 nas últimas semanas. Também causou mal estar recentemente ao declarar que a situação brasileira é “grave”, mas que o país “não entrou nem entrará em colapso”. Foi desmentido publicamente pelo coordenador do Fórum Nacional de Governadores, Wellington Dias (PT/PI), que admitiu um “colapso nacional”, com milhares de pessoas aguardando nas filas por um leito de UTI em vários Estados. A declaração do general não caiu bem nem mesmo entre os correligionários do presidente, que avaliaram que os problemas de comunicação do general e as falhas na gestão da pandemia atrapalham a mudança de discurso que Bolsonaro ensaia adotar pró-vacinação por conta de pressões políticas e econômicas.

Agora, Bolsonaro quer deixar de ser considerado o principal responsável por essa condução equivocada e espera que a troca no comando da Saúde passe um sinal positivo para a opinião pública e para o mercado financeiro. A estratégia é associada em Brasília ao “efeito Lula” diante das críticas do ex-presidente, de volta ao páreo político, ao discurso negacionista do presidente. Apesar de ser especialista em logística, Pazuello não conseguiu distribuir testes para covid-19 em todo o país, falhou em negociar e comprar vacinas com antecedência, assim como foi ineficaz no fornecimento de oxigênio para a cidade de Manaus, quando diversas pessoas contaminadas com a doença e internadas em UTIs morreram asfixiadas. Todas as ações do ministro sempre tiveram o aval do presidente. Menos em outubro do ano passado, quando o militar foi publicamente desautorizado por Bolsonaro a firmar acordo de intenção de compra da vacina coronavac com o Instituto Butantan ―naquele momento rejeitada pelo presidente, que a chamava de “vacina chinesa do Doria”, em referência ao governador de São Paulo. Na ocasião, Pazuello participou de uma live com Bolsonaro e disse que “é simples assim: um manda, o outro obedece”.

A iminente queda de Pazuello também alimenta os anseios do Centrão, o fisiológico grupo de deputados de centro-direita que sustenta o Governo Bolsonaro e é comandado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Em princípio, esses políticos queriam indicar para o cargo os deputados Ricardo Barros (PP-PR) ou Luiz Antônio Teixeira Júnior (PP-RJ), o Dr. Luizinho. Porém, foram convencidos de que seria melhor indicar um técnico e que o ideal era manter Barros na Câmara, onde é o líder do Governo e tem participado das negociações dos principais projetos de interesse do Executivo. Por ora, Lira apoia a indicação da cardiologista Hajjar. A médica já criticou a condução do Governo Bolsonaro na pandemia. “Não era nunca para estarmos em crescimento do número de doentes e mortos sendo que o mundo todo demonstra uma queda. O Brasil está fazendo tudo errado e está pagando um preço por isso”, disse a ela em entrevista ao jornal Opção, de Goiás, no dia 7 de março.

General já sucumbia às pressões

Pazuello já vinha sinalizando que não estava aguentando as fortes pressões contra ele. Investigado pela Polícia Federal sobre a suposta omissão no grave colapso de Manaus, corria o risco também de enfrentar uma CPI no Senado. Chegou a ser sabatinado por senadores no último mês e sofreu duras críticas até de aliados do presidente ao alegar que não tinha como prever o problema de oxigênio na capital do Amazonas. Como teste de defesa, o general abraçou um verdadeiro malabarismo retórico que distorce as próprias medidas tomadas pela pasta que comanda. Na nova versão empunhada pelo general, nunca houve indicação da cloroquina por parte do ministério e a pasta se antecipou na corrida global pelas vacinas ―afirmações facilmente contrastáveis com os fatos dos últimos meses. Pazuello ainda prometeu imunização geral da população brasileira ainda neste ano, apesar de admitir dificuldades para comprar grandes quantitativos de doses neste momento. Desde então, sofre críticas pelas constantes reduções no cronograma de entregas que previu para março: de 46 milhões de doses, depois o general falou em 22 milhões.

As pressões pela vacina se fortaleceram no fim do ano passado, quando vários países iniciaram a imunização. Na época, Pazuello questionou “pra que esta ansiedade, esta angústia” com a vacinação. Poucos meses depois, a Frente Nacional de Prefeitos chegou a pedir sua exoneração por não considerá-lo apto ao cargo.

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