Ministério da Saúde admite que pode faltar vacina e crise da pandemia fecha cerco sobre Bolsonaro

Atraso na compra de imunizantes desgasta imagem do presidente enquanto Brasil bate novo recorde, com 1.972 mortes por covid-19. Em ofício, pasta de Pazuello admite precisar de mais doses para não interromper vacinação

O presidente Jair Bolsonaro saindo do Palácio da Alvorada, em 9 de março de 2021.
O presidente Jair Bolsonaro saindo do Palácio da Alvorada, em 9 de março de 2021.UESLEI MARCELINO (Reuters)

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O Brasil vive o momento mais crítico da pandemia. Registrou 1.972 mortes nesta terça-feira, um novo recorde para óbitos em 24 horas e um número elevado mesmo considerando o impacto do represamento de dados do fim de semana. Enquanto 25 das 27 capitais do país veem mais de 80% dos leitos de UTI do SUS ocupados e diversos setores pressionam o Governo Bolsonaro para dar celeridade na vacinação, o Ministério da Saúde o admite risco de interromper campanha por falta de doses em carta à China e busca negociar compras com novos laboratórios. As críticas à ineficiência do Governo Federal para acelerar ações que possam conter a pandemia vem apertando o cerco político contra o presidente Jair Bolsonaro, que durante toda a crise sanitária adotou um discurso negacionista e errático. Até aliados no Congresso e empresários agora cobram do Planalto um cronograma claro de vacinação.

O Governo Bolsonaro passou meses defendendo um tratamento precoce sem eficácia, criticou medidas de isolamento social e demorou a fechar acordos de compra de vacinas contra a covid-19. O presidente viu sua aprovação cair e parte de seus apoiadores abandonarem o discurso antivacina que alimentava. A falta de liderança nacional ainda levou governadores a se articularem entre si para afinar ações e tentar negociar vacinas enquanto o cronograma de entrega do Ministério da Saúde sofria uma série de atrasos. Até mesmo o Congresso Nacional ―cuja cúpula foi eleita com o apoio do presidente― têm sinalizado que nem só o Planalto representa o Governo do Brasil enquanto fazem reuniões diplomáticas para tentar importar mais vacinas. A pressão parte também do empresariado, que vê na vacinação em massa a saída para fazer a economia voltar a girar. E de partidos e entidades, que se movimentam para tentar afastar o presidente diante da má gestão da pandemia, que já custou mais de 260.000 vidas no país. É neste contexto que o presidente tenta, agora, modular o discurso e adotar uma estratégia pró-vacina para tentar escapar da perda de popularidade.

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O passo mais emblemático deste ensaio de mudança na retórica foi a reunião de Bolsonaro com representantes globais da Pfizer na última segunda-feira (8) depois de meses de críticas e ironias à farmacêutica. Em várias oportunidades, o presidente criticou cláusulas “draconianas” da Pfizer, especialmente pela exigência de que questões relacionadas a possíveis efeitos adversos da vacina fossem tratadas em tribunais internacionais. “Se você virar um jacaré, é problema seu”, disse em dezembro enquanto a Pfizer sustentava que as cláusulas eram um padrão dos acordos com outros países. Seu Governo recusou ao menos três ofertas da farmacêutica. Mas desde então a vacina foi a primeira a conseguir o registro definitivo no país, voltaram os panelaços e cresceu a pressão até dos setores econômicos pela vacinação em massa no país. Bolsonaro então adotou um plano para reduzir o desgaste na sua imagem e rebater críticas de ineficiência na compra de imunizantes e as ações da pandemia.

Por videoconferência, Bolsonaro pediu pessoalmente a representantes da Pfizer para acelerar a entrega de doses em um contrato a ser firmado, mas incumbiu que o ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciasse à imprensa que o contrato seria firmado e que a farmacêutica teria sinalizado com 14 milhões de doses no primeiro semestre. Nas redes sociais, publicou um pequeno vídeo do encontro, mas não chegou a defender diretamente a vacinação. O Governo também anunciou que a comitiva que viajou até Israel para conhecer um spray nasal anti covid-19 ainda em fase de testes também trataria de vacinas. São acenos a diversos setores para tentar mostrar esforço federal no momento em que a população brasileira está mais disposta a tomar o imunizante. Segundo uma pesquisa do PoderData/Band divulgada na semana passada, aumentou de 78% para 85% a parcela de brasileiros que querem se vacinar.

“Campanha corre o risco de ser interrompida”

Embora o Governo venha anunciando novas negociações com vários laboratórios neste ano para mostrar o esforço em correr atrás do prejuízo na aquisição dos imunizantes, na prática, o cronograma de entrega de vacinas já contratadas está repleto de atrasos. O Ministério da Saúde agora se movimenta em busca de outros laboratórios e de cooperação internacional para conseguir mais estoques. Em um ofício enviado ao embaixador da China no Brasil, a pasta solicita a compra de 30 milhões de doses da vacina BBIBP-CorV, fabricada na China pela Sinopharm. Assinado pelo número dois da pasta, Elcio Franco, o documento argumenta que a campanha nacional de imunização corre risco de ser interrompida por falta de doses e que a estratégia brasileira para conter a variante P1 do vírus e impedir que ela se espalhe pelo mundo é a imunização. “A campanha nacional de imunização, contudo, corre risco de ser interrompida por falta de doses, dada a escassez da oferta internacional. Por conta disso, o Ministério da Saúde vem buscando estabelecer contato com novos fornecedores, em especial a Sinopharm, cuja vacina é de comprovada eficácia contra a covid-19″, diz Franco no ofício.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello tem defendido uma ação diplomática para tentar importar vacinas. O Governo tem enfrentado dificuldades para receber 8 milhões de doses da AstraZeneca já contratadas e produzidas pelo instituto Serum, na Índia, após o país bloquear a exportação. Investigado pela Polícia Federal por suposta omissão em ações da pandemia em Manaus, Pazuello tem pedido ajuda a gestores nos bastidores. Em Brasília, articula-se a criação de uma comissão com governadores, Congresso e o ministro para afinar ações unificadas. Tudo com discrição para não provocar a ira do presidente, segundo a coluna Painel, da Folha de S. Paulo.

Eleitos para a presidência da Câmara Federal e do Senado com o apoio de Bolsonaro, o deputado Arthur Lira e o senador Rodrigo Pacheco também têm sinalizado um possível descolamento do presidente em relação à pandemia. Nesta terça (9), eles cobraram do Ministério da Saúde um cronograma de recebimento de vacinas e pediram uma resposta em 24 horas para saber se há risco de falta de insumos no país. No mesmo dia, Lira enviou uma carta ao embaixador da China, Yang Wanming, fazendo um apelo por um olhar “amigo, humano e solidário” no oferecimento de insumos e vacinas. “O Governo brasileiro não é apenas o Executivo, mas também o Legislativo e o Judiciário”, escreveu.

O Brasil vive o momento mais crítico da pandemia. Das 27 capitais do país, 25 estão com taxas de ocupação de leitos de UTI para adultos superiores a 80% ― em 15 delas, o índice já é superior a 90%. Os dados são do monitoramento feito pelo Observatório Covid-19 da Fiocruz. Há filas de pacientes aguardando internação em várias regiões do país. Secretários da Saúde têm pedido aumento das medidas restritivas nacionalmente ao Ministério da Saúde para tentar frear a alta velocidade de contágio, mas Pazuello descartou porque o presidente não deixa. A postura errática do presidente tem motivado a articulação de novas ações judiciais para afastá-lo do cargo e responsabilizá-lo por omissão tanto por partidos quanto por entidades de classe.

Novas tentativas de afastamento

O PDT, partido do ex-presidenciável Ciro Gomes, pediu a interdição de Bolsonaro à Procuradoria-Geral da República nesta segunda (8). Alega que o presidente age “na contramão dos atos que uma pessoa em plena saúde mental agiria” e não teria capacidade mental de permanecer no cargo. A interdição está prevista no Código de Processo Civil e deve ser promovida pelo Ministério Público em caso de doença mental grave. Juristas têm avaliado, porém, que o processo tem poucas chances de prosperar até pelo alinhamento do procurador-geral Augusto Aras com o Planalto. Mesmo assim, é mais um elemento de pressão.

Na última semana, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, disse que convocaria uma sessão extraordinária para discutir a gestão de Bolsonaro sobre a pandemia e um possível pedido de impeachment. Se em janeiro Santa Cruz dizia não ver ambiente para um pedido, agora diz que vem sentindo pressão da alta cúpula da entidade. “Há muita pressão de conselheiros e ex-presidentes por medidas duras contra o governo Bolsonaro”, afirmou ao Estadão. O conselho federal da entidade já denunciou o governo à Comissão Interamericana de Direitos Humanos por “violações” e “omissão” na pandemia. O Congresso já recebeu dezenas de pedidos de impeachment contra o presidente, mas não há até agora perspectiva de apreciação. A Faculdade de Saúde Pública da USP e a Conectas Direitos Humanos analisaram 3.049 normas federais produzidas em 2020 para uma pesquisa mostrando que Bolsonaro executou uma “estratégia institucional de propagação do coronavírus”.

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