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Com medo e encurralado, Bolsonaro se refugia em Deus e no Exército

Em política as coisas podem mudar de repente. Mas deixar que as velhas receitas do passado se fortaleçam significa na verdade continuarmos atolados numa dicotomia populista que ameaça fechar a porta a uma esperança de mudança que a sociedade vem pedindo

Presidente Bolsonaro acena para apoiadores no dia do seu aniversário em Brasília.
Presidente Bolsonaro acena para apoiadores no dia do seu aniversário em Brasília.ADRIANO MACHADO / Reuters

Com medo e encurralado, o presidente Jair Bolsonaro vem se refugiando em Deus e nas armas. Assim revelou no domingo passado, quando uma pequena multidão de seguidores dele foi a Brasília para felicitá-lo por seu 66º aniversário. Disse, sem citar nomes, que “estão esticando demais a corda”, mas que não havia motivo para temores porque Deus e o Exército estão ao seu lado. Respondendo aos rumores de que tanto o Congresso quanto os governadores estariam estudando formas de afastá-lo do cargo devido à sua catastrófica gestão da pandemia, que acumula mais mortos a cada dia, declarou aos seus admiradores, num tom entre medroso e arrogante: “Só Deus me tira daqui”. Também mencionou que a função do Exército é garantir a liberdade deles. Que Bolsonaro fale de liberdade é algo que soa a piada, uma vez que, dia sim, dia não, ele ameaça com gestos autoritários e golpes de Estado.

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Bolsonaro se escuda cada dia mais em Deus e nas armas para se proteger e poder chegar à reeleição, que é hoje sua única obsessão. Mas, diante das graves crises que se acumulam no Brasil― sanitária, social, econômica e política―, as eleições de 2022 têm tudo para serem dramáticas. Na verdade, o Brasil já está em campanha eleitoral antecipada, com dois líderes populares duelando: Lula e Bolsonaro. Ambos só pensam na reeleição, e desde que Lula ficou, ao menos por enquanto, livre para voltar à arena política, já botou o bloco na rua, para usar suas próprias palavras. E seu competidor Bolsonaro, esquecido de que é o presidente, já se dedica descaradamente à campanha eleitoral. São dois candidatos indiscutíveis e convencidos da vitória. O drama está em que ambos são hoje os únicos personagens consolidados como mitos.

E o centro democrático, que teria condições de romper essa polarização? Esse é o drama. Não só não está ainda em campanha como parece perdido, sem uma liderança capaz de enfrentar dois mitos. A terceira via, que seria a de centro-direita democrática, não foi até agora nem sequer capaz de se decidir por um candidato único capaz de enfrentar com chances de vitória os dois nomes já consolidados e que vêm afiando suas armas para o duelo.

A única esperança que restaria a esse centro democrático é que Bolsonaro sofra um impeachment antes de disputar a reeleição. E isso porque o bolsonarismo golpista não conta hoje com ninguém capaz de ter a força eleitoral de Bolsonaro. Sem ele, o bolsonarismo certamente não desapareceria, mas não contaria mais com um novo mito.  O duelo entre Lula e Bolsonaro, únicos candidatos num cenário em que também a esquerda está dividida, é afinal mais do mesmo. Para um Brasil que parece terra arrasada, sem dúvida seria melhor um novo mandato de Lula, que não ameaça a democracia e ainda é capaz de pronunciar palavras de esperança, e não de ódio a um país que a perdeu com Bolsonaro, o negacionista e saudosista das ditaduras.O ideal seria, entretanto, uma substituição que revelasse uma alternativa firmemente democrática capaz de oferecer um novo projeto de país. Um novo projeto capaz de lhe devolver a confiança e de salvar a democracia hoje ameaçada e ultrajada no meio de uma grave crise econômica agravada pela crise da pandemia à deriva. Uma tragédia que está arrastando milhões de famílias não só para a pobreza e o desencanto, mas para a miséria e a fome.

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Se o centro democrático não puser já o seu bloco eleitoral na rua, com um candidato preparado e carismático que seja capaz de enfrentar os dois mitos já presentes na arena, não só perderá o trem como também comprometerá sua credibilidade e terá que prestar contas ao país por ter feito abortar o que neste momento seria uma renovação política e social. Uma renovação capaz de destruir a eterna polarização que não permite ao país oferecer algo novo que o faça ressuscitar de seu déjà vu fatalista, paralisando a esperança de fazer este país ressurgir da sua condenação ao imobilismo político. O grave é que esse centro que poderia ser uma terceira via renovadora capaz de abrir novos horizontes está flertando muito com Bolsonaro, como denunciou dias atrás o analista político Demetrio Magnoli, para quem o centro democrático “não tem narrativa, discurso, programa ou rosto” e não foi capaz de “lavar as mãos que tocaram uma poça tão pútrida”. Tudo perdido, então? Não. Em política as coisas podem mudar de repente. Mas deixar que as velhas receitas do passado se fortaleçam significa na verdade continuarmos atolados numa dicotomia populista que ameaça fechar a porta a uma esperança de mudança que a sociedade vem pedindo. É uma sociedade cansada da velha política que Bolsonaro prometeu combater, para acabar atado a ela com total desfaçatez.

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

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