Ex-presidente Lula

Lula evita se colocar como candidato mas dá o recado: “Não tenham medo de mim”

Ex-presidente volta a seu berço político, no ABC, para conceder sua primeira entrevista coletiva depois da retomada de seus direitos políticos e antagoniza com Bolsonaro: “Esse país não tem Governo. Tem um fanfarrão”

Lula discursa em São Bernardo do Campo nesta quarta-feira, dois dias após o ministro do STF Edson Fachin anular condenações que o levaram à prisão.
Lula discursa em São Bernardo do Campo nesta quarta-feira, dois dias após o ministro do STF Edson Fachin anular condenações que o levaram à prisão.Alexandre Schneider

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Quase três anos depois de deixar seu bunker político no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, na Grande São Paulo, para se entregar à Polícia Federal e iniciar seu período de prisão em Curitiba, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou nesta quarta-feira ao local, onde iniciou sua vida política. Desta vez, para falar com a imprensa após a decisão do ministro do Supremo, Edson Fachin, de anular as condenações contra ele dadas pelo ex-juiz Sergio Moro. Se o motivo de sua coletiva era abordar seu processo judicial, Lula preferiu usar os holofotes cedidos pelo momento para tecer críticas ao presidente Jair Bolsonaro. “Esse país não tem Governo, não tem ministro da Saúde, não tem ministro da Economia. Esse país tem um fanfarrão. Enquanto isso, o país está empobrecendo”, afirmou.

Lula está livre não apenas da cadeia, de onde saiu em novembro de 2019, ou das condenações dadas por Moro. Também está livre, ao menos por enquanto, para disputar as eleições de 2022, já sem a impossibilidade imposta pela Lei da Ficha Limpa. E se o petista agora pode ser candidato, ainda que tenha evitado declarar sua intenção nesta quarta-feira, subiu ao palco já se colocando em jogo, marcando uma clara antítese a Bolsonaro, com quem polarizará no próximo pleito e de quem precisa recuperar parte dos votos perdidos entre os mais pobres, sua principal base, cooptada pelo atual mandatário após medidas como o auxílio emergencial. “Não tenham medo de mim, sou radical porque quero ir à raiz”, brincou.

O petista atacou a gestão da pandemia de coronavírus, criticou Bolsonaro por não ter criado um gabinete de crise, com Estados e especialistas, e por não ter comprado vacinas antes. E também fez um aceno aos que estão sofrendo com a crise econômica. “Como pode o gás de cozinha estar 105 reais? A luz elétrica aumentar tanto?”, destacou o ex-presidente. “Se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas, sou eu. Mas não tenho. Porque o sofrimento que as pessoas pobres estão passando neste país é infinitamente maior”, disse ele.

Se em abril de 2018, quando Lula ficou por quase dois dias dentro do sindicato, um séquito de aliados políticos e uma militância emocionada o acompanharam, nesta quarta-feira ele falou para uma plateia composta por poucos apoiadores, numa tentativa de manter o distanciamento social exigido pela pandemia —ainda que a coletiva tenha levado à aglomeração de muitos jornalistas. Suas declarações marcam seu ressurgimento no cenário político nacional, de onde estava mais sumido desde que deixou a prisão em Curitiba.

Desde então, ainda que continuasse dando as cartas dentro do PT, operava mais nos bastidores e já havia lançado o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, como o nome petista a se opor a Bolsonaro em 2022. Mas em entrevista ao EL PAÍS na semana passada, antes mesmo da decisão de Fachin, não descartou voltar a se candidatar. “Eu necessariamente não preciso ser candidato, porque eu já fui (...) Se chegar na época e os partidos de esquerda entenderem que eu posso representá-los, eu não tenho problema”, ressaltou ele, ainda que não tenha descartado a apresentação de outros nomes, a depender de “quem tiver mais condições de ganhar”.

Nesta quarta-feira, entretanto, afirmou que ainda é cedo para falar em candidaturas. Questionado sobre o ex-aliado Ciro Gomes, que afirmou que acreditava que Lula era inocente, mas não honesto, Lula respondeu: “Ciro tem de se reeducar, ter humildade não faz mal a ninguém”. É hora, segundo ele, “de botar nossa gente para andar”. Algo que, certamente, será dificultado pela pandemia. Lula, entretanto, deve ser vacinado nos próximos dias e, com a imunização em dia, deve voltar a circular o país, como já faz Bolsonaro a despeito do vírus. “O PT não pode ter medo de polarizar. O que não pode é ficar esquecido. Duro é no final de polarização ter dois candidatos de direita”, ressaltou ele.

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O petista estava impedido de disputar as eleições desde que foi condenado em segunda instância no caso do triplex do Guarujá, em 2018, quando foi enquadrado na Lei da Ficha Limpa. Com isso, se viu excluído do pleito que deu a vitória ao presidente Jair Bolsonaro. Mas nesta semana Fachin, do Supremo Tribunal Federal, retirou as condenações proferidas por Sérgio Moro, então juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba, sob a alegação de que os casos não eram da alçada do magistrado —algo conhecido no meio jurídico como declaração de incompetência. Com isso, as condenações de Lula foram retiradas, cinco anos depois do início do processo, e as investigações do caso do triplex, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula foram remetidas para a Justiça Federal do Distrito Federal, onde haverá nova sentença ainda em primeira instância. Para especialistas, com os tempos de recurso e com a previsão de que parte dos supostos crimes prescrevam, dificilmente haverá tempo hábil para que Lula seja condenado novamente em duas instâncias até as eleições.

Especialistas viram na decisão do ministro Fachin uma tentativa de tentar estancar a sangria na Lava Jato, que vem sendo alvo de críticas cada vez mais generalizadas. O descrédito da Operação começou com o vazamento de mensagens trocadas entre Moro e os procuradores da força-tarefa de Curitiba, reveladas pelas reportagens da Vaza Jato. Posteriormente, este material passou a ser validado pela Operação Spoofing, que investiga o vazamento, o que permitiu, inclusive, que a defesa do petista escalasse um perito para avaliar as mensagens e achar possíveis desvios do magistrado e da força-tarefa.

Nos diálogos que vieram a público o juiz dá dicas e sugestões a Deltan Dallagnol e sua equipe, dando indícios de imparcialidade. Na coletiva desta quarta-feira, Lula também aproveitou para alfinetar Moro. “Tenho certeza que ele deve estar sofrendo mais do que eu sofri, pois ele sabe que cometeu erro. E eu sabia que não tinha cometido”, disse ele, que afirmou que continuará “brigando para que Moro seja considerado suspeito porque ele não tem direito de se tornar o maior mentiroso da história do país e ser considerado heroi”.

A defesa ainda espera a decisão do STF sobre o pedido de que a Corte declare o ex-ministro suspeito para ter tomado as deciões, com base nas mensagens vazadas. Nesta terça-feira, o julgamento foi retomado na Segunda Turma, mas acabou interrompido depois de o ministro Kassio Nunes Marques pedir vista (mais tempo para analisar). O placar está empatado em 2 a 2. Caso se confirme a suspeição de Moro, todas as provas levantadas pela Lava Jato e validadas por ele se tornarão nulas, dificultando que a Justiça do DF consiga aproveitar o trabalho feito pelos procuradores de Curitiba para tomar sua decisão. Com isso, as investigações contra Lula voltam para a estaca zero, aumentando o tempo necessário para uma eventual condenação e colocando o ex-presidente ainda mais perto das urnas de 2022.

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