Governo Bolsonaro

Descontente com Bolsonaro, cúpula militar volta a se articular em torno de Mourão

Vice-presidente, ministros e comandante do Exército se queixam que se tornaram motivo de chacota após declaração do presidente que insinuava um conflito contra os EUA. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, o presidente volta a mirar seu número dois

O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, em um evento no Palácio do Planalto em 9 de novembro.
O vice-presidente Hamilton Mourão e o presidente Jair Bolsonaro, em um evento no Palácio do Planalto em 9 de novembro.EVARISTO SA / AFP

Militares da cúpula das Forças Armadas, da reserva e com assento cativo na Esplanada dos Ministérios voltaram nesta semana a fazer algo que era comum no início do ano: reunir-se às escondidas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para debater a conjuntura nacional. Antes, os encontros ocorriam quando o mandatário ostentava seu lado mais passional e participava de protestos a favor do fechamento do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal. Agora, foram motivados pelas declarações absurdas do presidente (que insinuou a possibilidade de um conflito contra os Estados Unidos) e pelas humilhações públicas a que o mandatário submeteu dois de seus subordinados: os generais Eduardo Pazuello, ministro da Saúde que foi impedido de assinar um convênio com o Governo de São Paulo, e Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, chamado de Maria fofoca pelo ministro de Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ao menos dois encontros entre os militares ocorreram ao longo desta semana. Nos dois, a reclamação principal é que eles viraram motivo de chacota por causa do discurso de Bolsonaro de enfrentamento contra os EUA em defesa da Amazônia.

Apoie nosso jornalismo. Assine o EL PAÍS clicando aqui

No mais recente, na noite de quinta-feira passada, Bolsonaro descobriu que a reunião acontecia, apareceu de surpresa onde estavam informalmente quatro generais do Exército ―o vice-presidente Hamilton Mourão, os ministros Luiz Eduardo Ramos e Walter Braga Netto (Casa Civil), além do comandante do Exército, Edson Leal Pujol. Queria saber o que passava. Quando o mandatário entrou no mesmo recinto, todos se despediram de Mourão, a quem chamaram de presidente. O quarteto tenta demonstrar unidade dos militares contra os arroubos presidenciais, a favor de Mourão. Ainda querem demonstrar o descontentamento com a postura de Bolsonaro que, em um único dia, comemorou uma suposta falha na vacina contra o coronavírus produzida pelo Instituto Butantan e pela Sinovac, ameaçou usar pólvora contra os Estados Unidos para defender a Amazônia e disse que o Brasil precisava deixar de ser um “país de maricas” no combate à covid-19.

Aliados de Bolsonaro desde a época da campanha eleitoral, os militares têm notado um franco descrédito das Forças Armadas e pretendem assegurar o que resta de confiança junto à população. Por esta razão, mesmo com o presidente desautorizando Mourão a falar em seu nome, o vice-presidente seguiu concedendo entrevistas. Na mais recente, à rádio Gaúcha, disse que seu sentimento pessoal era de que a vitória de Joe Biden para a presidência dos Estados Unidos “está cada vez mais sendo irreversível”. Bolsonaro é um dos poucos líderes mundiais que não reconheceram ainda a derrota de seu ídolo Donald Trump. Na mesma ocasião, Mourão endossou o que o general Pujol havia dito no dia anterior. “Não admitimos política nos quartéis”.

Pujol é um general discreto. Pouco fala publicamente. Ficou marcado por fazê-lo no início da pandemia, quando contrariou Bolsonaro e disse que o coronavírus era, sim, uma preocupação dos militares. Nesta semana, ele deu duas declarações que chamaram a atenção. Ambas em debates públicos. Na quinta-feira, durante um evento do Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, Pujol afirmou que “militares não querem fazer parte da política nem querem que a política entre nos quartéis”.

Na sexta-feira, em um seminário sobre Defesa Nacional, das Forças Armadas, Pujol repetiu algo que deveria ser óbvio: que a instituição pertence ao Estado, não ao Governo. “Não somos instituição de governo, não temos partido. Nosso partido é o Brasil. Independente de mudanças ou permanências em determinado governo por um período longo, as Forças Armadas cuidam do país, da nação. Elas são instituições de Estado, permanentes. Não mudamos a cada quatro anos a nossa maneira de pensar e como cumprir nossas missões."

Se não bastassem os discursos públicos, Ramos, um contemporâneo que Bolsonaro escolheu para fazer a articulação política de seu Governo, traçou uma linha demonstrando o quanto de interferência admitirá em seu trabalho. Na semana passada ele comandava uma reunião com alguns ministros quando o primogênito do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) entrou na sala, no Palácio do Planalto, sem ser convidado. Ramos pediu para ele se retirar. O parlamentar disse que era um senador e participaria do encontro. Ao que o ministro respondeu que ali era o Executivo, o Legislativo era do outro lado da praça dos Três Poderes. Flávio deixou o local.

Bolsonaro, que costuma se vangloriar que tem o apoio dos militares, tem cada vez mais encontrado resistência entre seus antigos pares. Acostumado a ver teorias da conspiração por todos os lados, ele voltou a mirar seu vice-presidente, que tem construído pontes com o empresariado e com diplomatas estrangeiros. Se a eleição presidencial fosse hoje, uma certeza ele teria, seu vice, não seria Mourão. Esse desquite poderia servir de justificativa para os militares abandonar de vez o ex-capitão que trouxe os fardados de volta ao protagonismo político no Brasil.

Mais informações